A ‘estrada sem chão´ de Guilhermo Cabrera Infante

Guilhermo Cabrera Infante
Divulgação

O escritor cubano Guillermo Cabrera Infante viveu mais da metade de sua vida no exílio, desde 1965. Dizia que o exílio é “uma estrada sem chão” e que “todo exilado sempre carregará consigo a terra de onde veio”. Justamente por isso, sua criação literária nunca saiu de Cuba – como se fosse possível reviver a terra natal por meio da ficção e da imaginação.

Falecido em Londres no dia 21 de fevereiro, aos 75 anos, vítima de uma infecção generalizada, Cabrera é considerado um dos maiores expoentes da literatura cubana e da língua espanhola. Seu estilo brilhante, imaginativo, rápido e imprevisível é comparável ao de “gênios” literários modernos, como James Joyce e, no Brasil, Guimarães Rosa. Mesmo os conterrâneos apoiadores de Fidel reconhecem a maestria literária desse desterrado. O escritor Jaime Sarusky, Premio Nacional de Literatura em 2004, reconheceu em Cabrera um dos grandes escritores de Cuba, segundo o jornal El Nuevo Herald. A imprensa oficial de Cuba se calou, com exceção da revista La Jiribilla, que reconheceu sua contribuição literária mas não deixou de atacá-lo: “Muitos de seus textos e ensaios eram, lamentavelmente, contaminados pela obsessão que se tornou sua posição política contra a Revolução Cubana“.

Cabrera nasceu em Gibara, uma cidade do interior, em 22 de abril de 1929, filho de uma geração fundadora do Partido Comunista de Cuba. Em 1950, já morando em Havana, o estudante trocou a Medicina pelo curso de Jornalismo e começou a se envolver com cinema e literatura. Suas críticas de cinema para a revista cubana “Carteles“, sob o pseudônimo Guillermo Caín, ficaram famosas e este período acentuou a paixão pelo jornalismo, a profissão de seu pai. Anos depois, em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, diria “Eu gostava – e gosto – do ambiente de redação de jornal. Trabalhar numa redação de jornal é como estar próximo do paraíso.”

Entre 1951 e 1956, presidiu a Cinemateca de Cuba, da qual foi um dos fundadores. Em 1952, no governo corrupto de Fulgêncio Batista, foi preso por escrever um conto considerado antipatriótico. Apoiou a Revolução de 1959 e assumiu o departamento de Cultura do país. Também trabalhou como editor do diário Revolución e criou o suplemento literário Lunes. Pouco tempo depois, os desentendimentos com a censura do governo começaram. Lunes foi fechado em 1961, acusado de suscitar polêmicas sobre o regime que se iniciava.

Em 1962, Fidel afastou Cabrera do país, enviando-o à Bélgica, como adido cultural. Já premiado, retornou à Cuba em 1965, mas foi preso. Cabrera conseguiu fugir e viajou para Madri, de onde mudou-se para Londres, onde viveu quase quarenta anos. Depois de escrever vários romances e ensaios premiados e repercutidos internacionalmente, em 1997 Cabrera recebeu a maior premiação da literatura em língua espanhola, o Prêmio Cervantes, oferecido pelo Ministério da Educação e Cultura da Espanha.

Na literatura: um mestre no uso das palavras

`GuillermoCuba foi sempre o tema renitente nas narrativas de Cabrera Infante. Fumaça Pura, por exemplo, escrito em língua inglesa, em 1985 (publicado aqui pela editora Bertrand Brasil), é uma espécie de antologia rica e irônica do universo do tabaco, principalmente do charuto, e uma apologia do velho prazer de fumar.

Así en la paz como en la guerra, de 1960, foi seu primeiro ensaio a ganhar visibilidade. Em 1964, ganhou seu primeiro prêmio internacional com Vista del amanecer en el trópico. Porém, foi com Tres Tristes Tigres (1967), repleto de trocadilhos e jogos lingüísticos (o próprio título é um trava-língua), que Cabrera se consagrou como escritor erudito e irônico. O livro, que aborda a vida noturna na Havana pré-revolucionária, foi proibido em Cuba.

Essa sua primeira obra-prima é comparada pelos especialistas a Ulysses, de James Joyce, e foi adaptada para o cinema em “The Lost City”(2004). Nela, a narrativa é frenética, irregular, de feições modernas. Nesse romance, como em toda a sua obra, o mundo cubano e os jogos de palavras, bem como a crítica ao castrismo e a dor e o estranhamento causados pelo exílio, são marcas.

Para o escritor cubano Antón Arrufat, a grande contribuição de Cabrera foi com o uso da linguagem cotidiana da língua cubana. “Ele nos ensinou a nos olhar a partir do nosso modo de falar habitual“, afirmou.

POLÍTICA – A obra de Cabrera é também um grito irrenunciável de liberdade contra a repressão. Em entrevistas e artigos em jornais, o governo de Fidel é sempre alvo certo. Em 2002, em entrevista à Folha Ilustrada, o escritor disse “Fidel é inteligente, é um mestre da propaganda. Em Cuba o que funciona é a propaganda para o exterior, e a polícia para o interior.“ Cabrera qualificou seu exílio como “uma espécie de Sibéria” e explicou: “eu não suportava ver-me convertido em um sujo, desleal, infrator, em uma não-pessoa”.

A autoritária intervenção da burocracia cubana, que, assim como o realismo socialista soviético, censurava e impunha modelos estéticos aos artistas, cicatrizou em Cabrera a ilusão de uma arte divorciada da política, declarando que jamais se via como um ser político.

Uma ilusão que resultou, no mínimo, em uma contradição em sua trajetória. Por um lado, durante todo o tempo em que viveu na Europa, sempre sob governos burgueses, Cabrera literalmente se calou sobre as muitas mazelas do capitalismo.

Por outro, concentrando suas críticas na figura de Fidel, Cabrera nunca se pronunciou sobre a possibilidade de fazer a revolução avançar em Cuba ou de lutar pela superação da burocracia castrista e pela implementação do verdadeiro socialismo na ilha, como fizeram tantos outros perseguidos e exilados.
Pelo contrário, Cabrera, separava sua arte da política, afirmando: “Sou um escritor. Projeto-me como um escritor. Vivo como um escritor. Meu problema com Fidel Castro é de ordem moral. Não tenho aspirações políticas para quando Fidel Castro desaparecer”.