Zé Maria, o operário que não mudou de lado

Zé Maria no dia 11 de julho de 2013, dia nacional de paralisação
(Foto: Raíza Rocha)

Num cenário em que grande parte dos antigos dirigentes do movimento operário mudou de lado e traiu suas trajetórias, o PSTU apresenta uma alternativa para essas eleições e lança a pré-candidatura de José Maria de Almeida, o Zé Maria. Zé Maria foi protagonista nas lutas operárias do ABC paulista no final da década de 1970 e início dos 1980.

Enquanto outros dirigentes, como Lula e o conjunto do PT, adaptaram-se à institucionalidade e, uma vez governo, passaram a defender as mesmas políticas que antes combatiam, Zé Maria manteve-se coerente à sua origem e trajetória. Zé Maria expressa, assim, uma bandeira classista, socialista e revolucionária, representando uma alternativa que não se adaptou aos privilégios do poder ou às burocracias dos sindicatos, mas que segue na luta  por uma sociedade justa, livre e igualitária. Uma sociedade socialista.

José Maria de Almeida, o Zé Maria, nasceu em Santa Albertina, interior de São Paulo, em 1957.Conheça um pouco da trajetória deste operário que não mudou de lado:

1977
Com 20 anos, foi estudar na Fundação Santo André, no ABC. De dia trabalhava como metalúrgico. “Eu era calouro de Matemática, mas fui assistir a um debate na calourada de Sociologia”, lembra. “Fiquei ali, sem entender muita coisa”, diverte-se. Até que o orador começou a falar dos operários, da exploração nas fábricas… “Isso aí eu entendia. Acabei conhecendo o pessoal, que era da Liga Operária”, conta. Próximo ao grupo Trotskista, foi convidado a distribuir o boletim “Faísca”, para o 1º de Maio. “Fui preso na minha primeira panfletagem”, lembra. A campanha pela libertação dos presos motivou as primeiras passeatas dos estudantes contra a ditadura.

1978
É uma das lideranças da onda de greves no ABC paulista e um dos principais dirigentes em Santo André. Operário da Cofap, torna-se um dos membros do comando de greve do ABC. Propõe, no congresso dos metalúrgicos em Lins (SP), a fundação de um Partido dos Trabalhadores. Participa, depois, da fundação do PT e da CUT.

1980
Preso com Lula e mais 10 sindicalistas, Zé Maria é enquadrado na Lei de Segurança Nacional e fica mais de um mês preso.

1984

Muda para Minas Gerais, onde participa da vitória da chapa de oposição, dirigida pela Convergência Socialista, no Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem.

1989
Zé Maria lidera a greve com ocupação da siderúrgica Mannesman. Durante sete dias, centenas de operários controlaram a empresa. Em uma greve radicalizada, os operários usavam barras de ferro e, encapuzados, esperavam a polícia. A greve foi notícia nacional e permitiu a fundação da Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais.

1992
Junto com a Convergência, é expulso do PT por levar a campanha do Fora Collor  que, então, a maioria da direção do PT era contrária. Zé Maria é um dos fundadores do PSTU, dois anos depois.

1995
Na Executiva Nacional da CUT, esteve à frente dos grandes enfrentamentos contra FHC, como a greve dos petroleiros. E, nos anos seguintes, na greve do funcionalismo, em apoio aos sem-terra e contra as privatizações.

1998
É candidato à Presidência da República pelo PSTU, com o lema “Contra burguês, vote 16”.

1999
Participa da preparação da marcha dos 100 mil em Brasília, quando coloca em votação a proposta de Fora FHC e o FMI.

2000
É preso e agredido na forte repressão da polícia de ACM e FHC durante a marcha ‘Brasil Outros 500’, em Porto Seguro (BA).

2002
Candidato a presidente, oferece uma alternativa à Lula e Serra, que haviam assinado protocolo de intenções com o FMI. O PSTU põe a campanha a serviço da denúncia da Alca que iria transformar o país em uma colônia dos EUA. O partido sai fortalecido e Zé Maria recebe 440 mil votos. Lula é eleito. O PSTU adverte que, sem romper com a Alca e o FMI, Lula não iria governar para os trabalhadores.

2003
No primeiro ano do governo Lula, Zé Maria participa ativamente da greve do servidores contra a reforma da Previdência.

2004
Entrega seu cargo na Executiva Nacional da CUT e defende a necessidade de uma nova direção para o movimento sindical brasileiro. É um dos organizadores do Encontro em Luiziânia (GO).

2005
Explode escândalo do “mensalão”. Em agosto, Zé Maria é um dos líderes da marcha em Brasília.

2006
O Conat aprova a fundação oficial da Conlutas. Em junho, ato lança a Frente de Esquerda (PSOL-PSTU-PCB), com Heloísa Helena. A frente tenta ser uma alternativa aos dois blocos, de Lula e de Alckmin. Zé Maria é proposto para vice, refletindo o peso do PSTU. No entanto, o PSOL, de forma hegemonista, aprova vice próprio. Também em 2006, Zé Maria é anistiado pelo Estado Brasileiro que reconhece sua luta contra o regime militar. O Estado pede desculpas à Zé Maria pela perseguição sofrida durante este período. 

2007
No 8 de março, o Dia Internacional das Mulheres é também um dia de luta contra a presença de Bush no país. Ele foi recebido por Lula enquanto, na Av. Paulista, a tropa de choque atacava barbaramente os manifestantes, ignorando os protestos de Zé Maria, do carro de som.

2008
Em abril, participa do I Encontro Nacional de Mulheres da Conlutas. Em maio, é preso na Parada LGBT de São Paulo. A pedido da organização da Parada, a PM retira o carro da Conlutas, espancando ativistas. “Uma intolerância inacreditável”, disse Zé Maria. “A marcha é uma manifestação contra a intolerância e foi proibida nossa participação”. Em julho, Zé Maria participa do II Congresso da Conlutas, em Betim (MG).

2009
Israel invade Gaza. Zé Maria e o PSTU usam o programa de TV para denunciar o massacre. A crise capitalista provoca milhares de demissões, como na GM e na Embraer. Zé Maria denuncia que o presidente da CUT sabia das demissões na Embraer.

2010
É candidato pelo PSTU à Presidência da República. Enfrentando a censura da grande imprensa, a candidatura de Zé Maria mostrou um Brasil mais próximo da realidade de milhões de trabalhadores que convivem com os serviços públicos precarizados e a superexploração. Nos poucos 55 segundos de tempo de TV, a sua candidatura divulgou ainda a luta dos trabalhadores que ocorriam naquele ano. Foi o único pré-candidato a visitar o Haiti após o terremoto e os seis anos de ocupação militar no país. No Haiti, defendeu a desocupação e prestou solidariedade ao povo haitiano e suas organizações. Em Santos, junho, Zé Maria está à frente do Conclat que fundou a CSP – Conlutas.

2012
Logo no início do ano, Zé Maria defende os moradores do Pinheirinho retirados de suas casas pela ação truculenta da polícia. “Do governo a gente não quer só apoio, a gente quer é solução”, denuncia o governo Dilma omisso diante da tragédia. Constrói o 1° Congresso da CSP-  Conlutas.

2013
No programa semestral de TV, dias antes das primeiras grandes mobilizações de junho, Zé Maria denuncia os gastos com a Copa em detrimento dos investimentos nos serviços públicos. Participa ativamente das Jornadas de Junho que sacudiram o país. Defende a importância da entrada da classe trabalhadora organizada e seus métodos de luta (greve, ocupações e passeatas) nestes protestos. Defende a unidade das centrais sindicais na construção de uma Greve geral no país. Constrói o 11 de julho e o 30 de agosto, dias nacionais de paralisações. Em outubro, a Convergência Socialista, corrente na qual o Zé Maria foi um dos principais dirigentes, é reconhecida pelo Estado Brasileiro pelo seu papel na luta contra a ditadura militar e a consequente perseguição e tortura sofrida pelos seus militantes. Em dezembro de 2013, o PSTU lança sua pré-candidatura à presidência da república e reafirma o chamado a uma Frente de Esquerda com PSOL e PCB.

2014
Zé Maria é um dos homenageados pelas Centrais Sindicais por sua luta contra a ditadura militar e pela perseguição sofrida durante este período. Junto com a CSP Conlutas, foi um dos principais organizadores do Encontro do Espaço de Unidade de Ação “Na Copa, vai ter luta” que teve como objetivo organizar os movimentos sindicais, populares e da juventude para construir os protestos durante o megaevento.