X-Men 3: O confronto com o preconceito

Magneto comanda um exército para resistir à `cura`
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“X-Men – O Confronto Final” tem socos, raios, garras e efeitos especiais. Na medida para agradar todo garoto de 10 anos. Mas tem mais. O desfecho da trilogia traz questões bastante atuais. Bem adequado a personagens que, nos quadrinhos, costuma refletir o contexto político de cada época.

O filme une duas tramas. A primeira é a que mostra a transformação da personagem Jean Grey em Fênix. Essa é uma das histórias mais importantes dos quadrinhos, com o duelo entre suas duas personalidades.

Mas o principal é a descoberta de uma fórmula que altera o gene mutante. Há uma campanha da indústria farmacêutica, de governo e militares para que estes abram mão de suas características e se tornem humanos. A X-Men Vampira é uma das ficam em dúvida. Com um toque, ela suga os poderes de outros mutantes. Mas esse poder impede até um beijo em seu namorado.

O filme provoca o debate sobre como a sociedade lida com a diferença. Para os humanos, os mutantes sofrem de uma ‘doença’. Alguma semelhança com a realidade? Muitas. No Rio de Janeiro, um deputado usa verbas públicas para ‘curar’ homossexuais. Governos, igrejas e boa parte da sociedade encaram de fato a homossexualidade como doença e sonham com uma pílula que iniba a atração por pessoas do mesmo sexo.

O ator Ian McKellen, que assumiu sua homossexualidade em 1988, em um programa da rádio BBC, interpreta Magneto. Ele deu a seguinte declaração à imprensa: “Há quem pense que seria conveniente curar as pessoas, como os gays, e torná-las `normais`. Seria a mesma coisa que alguém vir e dizer que há um remédio para mudar a cor da pele.”
Está em questão o preconceito contra negros, judeus, islâmicos, imigrantes, obesos, idosos, portadores de deficiência, enfim, todos os que não se não se encaixam no padrão de ‘normalidade’ ocidental. A atriz Halle Berry, que vive Tempestade, deu declarações, de como, quando criança, sentia-se discriminada e sonhava em não ser negra. “Uma bobagem”, reconhece.

Há ainda referências ao nazismo. Em uma cena, Magneto mostra sua marca dos campos de concentração. Números como os usados para identificar os prisioneiros de Bush em Guantánamo, na cruzada contra os árabes.

X-Men 3 enterra a divisão alienante entre Bem e Mal. Diante da ofensiva dos humanos, os protagonistas, os X-Men, assumem um papel melancólico. Os mocinhos não enxergam o que vem por aí e acreditam que o governo apenas está oferecendo uma escolha. O personagem Fera, que só agora surge no cinema, de terno, age como interlocutor do governo com a comunidade mutante. Enquanto os alunos do Professor Xavier aguardam, Magneto convoca uma ‘assembléia’ e forma um exército. Promove um ataque à indústria que produz o ‘remédio’ a partir do gene de um garoto mutante. Em vez de ficar aguardando que os militares os cacem, decidem destruir o que os ameaça.

Do outro lado, os X-Men com suas ilusões no governo e dispostos a conviver em paz com aqueles que querem ‘curá-los’, decidem enfrentar o exército de Magneto. Formam uma linha de frente com os soldados. Magneto dispara: “Aí estão os traidores de uma raça”. Em determinado momento, chegam a usar a ‘cura’ contra outros mutantes.

X-Men 4?
O novo diretor, Brett Ratner, pôde usar o que quis de efeitos especiais. Como nas cenas na Sala de Perigo, quando os mutantes protegem-se de robôs Sentinelas em um cenário à la Blade Runner. Impossível não lembrar da história Dias de Um Futuro Esquecido. Há ainda os efeitos da Fenix, que não deixam nada a dever aos quadrinhos. (Off-topic: após séculos de troca de olhares, finalmente a ‘chapa esquenta’ entre ela e Wolverine).

Apesar de anunciado como desfecho, tudo indica que novos episódios virão. Afinal, no dia 26 de maio, o filme arrecadou U$ 44,5 milhões, a segunda maior bilheteria em estréias. Um grande negócio. A cena extra, exibida após os créditos, também sugere a continuação. Certo mesmo é o filme ‘Magneto’, para 2008. Quem sabe Wolverine, predileto de 10 entre 10 fãs, não ganha o seu filme?

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