Woodstock: A anarquização de um projeto capitalista

Jimi Hendrix
Reprodução

Foi num 15 de agosto há 40 anos, que teve início um dos mais míticos shows da história da música: o Festival de Woodstock. Aliás, o que ocorreu na área rural de Bethel, nos arredores de Nova York, foi muito mais que um show. Foi a celebração de uma época,A própria história de como surgiu a ideia de se realizar o Festival de Woodstock é um exemplo inusitado das contradições da época. Pode parecer mito, mas a história toda começou como uma proposta de empreendimento capitalista impensável nos dias de hoje.

No início de 1969, John Roberts e Joel Rosenman publicaram um anúncio nos dois principais jornais de Nova York dizendo: “Dois jovens com capital ilimitado estão procurando por oportunidades de investimento em negócios interessantes e legais”. A proposta chamou a atenção de Michael Lang – um hippie, morador da cidade de Woodstock, com alguma experiência na promoção de festivais – e seu parceiro, o músico Artie Kornfield. Ambos estavam com vinte e poucos anos e pretendiam levantar fundos para montar um estúdio de gravação.

Foi do inesperado encontro destes quartos que nasceu o projeto do Festival de Música e Arte de Woodstock: uma exposição Aquariana. A ideia era, de fato, fazer dinheiro. Arranjos feitos, bandas foram contatadas e os ingressos começaram a ser vendidos ao preço de US$ 18 (R$ 150 nos dias de hoje).

Por volta de julho, 186 mil bilhetes já tinham sido comprados, e os organizadores estimavam que atingiriam a casa dos 200 mil, o que já faria do evento o maior do gênero na época. Às vésperas do festival, 32 grupos ou cantores individuais haviam confirmado a presença, num lance de idas e vindas, e desistências históricas de grupos como The Doors, Led Zepellin, Jethro Tull, Beatles e uns outros tantos.

Semanas antes do 15 de agosto, jovens de todos os cantos do país já se deslocavam para o local e mesmo antes das cercas terem sido completamente levantadas, grupos liderados por anarquistas e militantes de diversas matizes ocuparam a área da fazenda, dando início a um festivo e caótico acampamento, com cerca de 50 mil pessoas.

Ninguém havia previsto a chegada das centenas de milhares de pessoas que migraram para o local. Nem havia infraestrutura para tal. Uma situação ainda mais agravada depois que tempestades de proporções diluvianas começaram a atingir o local. Faltava de tudo: de banheiros a alojamentos, de seguranças a médicos. A imprensa burguesa centrou sua cobertura na iminente possibilidade de uma catástrofe pública, provocada pela invasão do que chamou de malucos, drogrados, hippies e marginais de todos os tipos.

Contudo, também como símbolo de uma época em que as relações comunitárias tinham uma forma muitíssimo distinta das atuais, o número de incidentes foi mínimo. Durante todo o fim de semana, apesar da circulação de meio milhão de pessoas, ocorreram apenas duas mortes: um jovem foi atropelado por um trator, quando dormia enrolado num saco de dormir e outro teve uma overdose.

O número de detidos não chegou a 200. Para a surpresa dos mais conservadores, os moradores da pequena cidade, envolveram o festival de solidariedade. Colocaram hospitais e escolas à disposição para o atendimento dos muitos que passaram mal devido ao excesso do consumo de drogas e pequenos ferimentos. Muitos moradores e fazendeiros chegaram, inclusive, a abrir suas próprias casas para hospedar as pessoas.

Dentro dos indefinidos limites do festival, arte e política misturavam-se em todos os cantos. Grupos dos mais diversos, de indígenas a GLBT, expunham seus materiais. Uma enorme barraca, denominada Cidade Movimento, alojava militantes das mais variadas tonalidades (muitos deles socialistas) que, de cima de seus caixotes, faziam discursos e distribuíam panfletos.

Outra movimentadíssima barraca abrigava uma feira psicodélica, onde era possível adquirir, ou simplesmente experimentar, as drogas da época, como LSD, maconha, mescalina e haxixe. Diga-se de passagem, também como sinal de que os tempos eram outros, milhares de panfletos foram distribuídos alertando as pessoas contra os perigos dos ácidos ruins e os malefícios de drogas que poderiam levar a bad trips, como a cocaína, a heroína e o álcool.

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