Foto Itamaraty

Tudo relativo à comitiva do governo Bolsonaro que viajou para Israel no último sábado, dia 6 de março, serve como exemplo vexatório e vergonhoso do caráter genocida, cínico e hipócrita do governo brasileiro, expondo descaradamente seu desprezo à vida, seu descaso com o dinheiro público e, ainda, sua insistência em se aliar ao que há de mais reacionário mundo afora. Para não falar de sua tendência à mentira deslavada.

Isto quando o país agoniza naufragado no pior momento da pandemia, com 11 milhões de casos, mais de 265 mil mortes, sendo que 10 mil delas foram registradas apenas nos sete dias que antecederam o embarque, nos quais a chamada média móvel diária chegou a 1.455 óbitos, a maior desde o início da crise. E quando a vacinação não chegou a sequer 4% da população.

As imagens mais emblemáticas desta farsa macabra são, com certeza, as que registraram a comitiva posando sem máscaras em solo brasileiro, e, horas depois, no desembarque em Israel, captaram os mesmos senhores usando o item que sintetiza tanto a gravidade do que estamos passando quando o respeito à vida dos que nos cercam.

Mas, como não há limites neste governo, houve uma ainda mais patética: o chefe da comitiva, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, sendo repreendido publicamente por não usar a máscara no encontro com colega sionista, Gabi Ashkenazi. Coisa que, como bom capacho do sionismo, ele corrigiu imediatamente, demonstrando que, ao contrário do que faz em relação ao povo brasileiro, ele tem o mínimo respeito às imposições sanitárias e à vida de seus aliados no exterior.

Comitiva fajuta e a farsa do “spray milagroso”

A própria comitiva e seus objetivos já são uma farsa. Apresentada em vídeo gravado por Bolsonaro (https://youtu.be/GZ4yFCEGuxY) como iniciativa para cooperação e intercâmbio nas áreas da saúde, ciência e tecnologia, o grupo formado por dez integrantes não tem a menor qualificação para tal coisa. Não há ninguém da Saúde e apenas dois representantes da Ciência e Tecnologia.

O resto é formado pelo filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP); seu amigo pessoal, o também deputado Hélio Lopes (PSL-RJ); e um bando de assessores, incluindo um ex-policial do famigerado Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

E a piada de péssimo gosto não para por aí. No mesmo vídeo, Marcelo Marcos Morales, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, instigado por Bolsonaro, chega a falar em “15 vacinas brasileiras em fase adianta de estudo”, que, num futuro próximo, poderiam ser levadas a Israel num esforço de cooperação internacional.

Contudo, até esta declaração já absurda e verdadeiro insulto aos milhões que esperam pela vacinação no país, só foi feita depois do governo ser bombardeado por aquilo que seria ser verdadeiro objetivo, anunciado por Bolsonaro, no dia 02 de março, aos seus apoiadores: a busca de uma nova cloroquina, na forma de um spray nasal destinado para o uso em pacientes já hospitalizados em UTIs e considerado “milagroso” pelo presidente.

Como noticiado pelo “Correio Braziliense” naquele dia, com a costumaz “ironia” de quem não está “nem aí” com o sofrimento e morte das pessoas, Bolsonaro disparou: “Eu acho que não tem problema nenhum usar esse spray no nariz do cara. O que é esse spray? Não sei. (…). E usou-se lá em 30 e em 29 deu certo em poucos dias (…). Então parece até que é um produto milagroso, parece. Mas nós vamos atrás disso”.

O fato, contudo, é que nem mesmo o inventor do produto, conhecido como EXO-CD24, acredita no tal milagre. Pelo contrário. Nadir Arber, do Hospital Ichilov de Israel, é o primeiro a admitir que o “spray” não está pronto para o uso e precisa ainda passar por testes clínicos, só tendo sido checado na chamada Fase 01, das três exigidas pelos órgãos de saúde, acrescentando o óbvio que só gente como Bolsonaro se recusa a enxergar: “Não se pode dizer que o tratamento é efetivo com base em apenas em 35 pacientes”, como publicado no Portal UOL, no dia 3 de março.

Desperdício de dinheiro público e submissão vergonhosa ao sionismo

O disparate da viagem, em meio à gravíssima situação que enfrentamos, foi questionada até mesmo pelo Ministério Público, que entrou com uma liminar, acionando o Tribunal de Contas da União (TCU), no dia 5 de março, com o pedido de que houvesse a suspensão da viagem dos agentes públicos a Israel, até que o TCU avalie a pertinência e aderência da motivação que embasa a decisão acerca dessa missão internacional.

Bolsonaro, evidentemente não deu a mínima para isto, só deixando de lado a menção ao tal “spray” e inventando a história da cooperação internacional na troca de vacinas. E sabemos que nem mesmo isto é verdade. A viagem é somente mais um episódio lamentável na relação do presidente miliciano e seus comparsas no Estado-Apartheid de Israel.

Primeiro, fazendo propaganda dos “avanços” do país Oriente Médio, desconsiderando o lado oculto e perverso desta história, como foi denunciado em um artigo de Soraya Misleh, publicado no site do PSTU, no dia 6 de março, citando o relato do médico sem fronteiras Matthias Kennes, que atua em Al Khalil (a cidade palestina conhecida como Hebron), na Cisjordânia: “Israel conseguiu vacinar quase 4,2 milhões de pessoas com a primeira dose – o equivalente a 50% da população – e 2,8 milhões de pessoas com as duas doses completas – ou seja, mais de 30% da população. Enquanto isso, somente alguns milhares de doses estão disponíveis na Cisjordânia, e uma remessa de 20 mil doses que chegou a Gaza no último fim de semana mal atende às necessidades locais. Supondo que as 35 mil vacinas Sputnik e Moderna estejam realmente disponíveis, isso representaria cerca de 0,8% da população palestina.”

Segundo, porque, como já foi destacado pelo jornalista Mathias Alencastro, da Folha de S. Paulo, o mais provável, mesmo, é que o governo israelense se aproveite do desespero provocado pelo próprio Bolsonaro para impor novos acordos favoráveis à legitimação do sionismo, como já ocorreu em relação a República Tcheca e a Honduras, que receberam doses “excedentes” de vacinas, em troca da transferência de suas embaixadas para Jerusalém (leia mais no artigo “Campanha de vacinação escancara natureza do Estado de Israel”, publicado no site da Liga Internacional dos Trabalhadores.

Acordos que, no caso brasileiro, sempre podem implicar no aumento dos números de armas e militares treinados por Israel, utilizados contra o povo pobre, negro e periférico, exatamente o que mais tem sofrido com a pandemia e a falta de vacinas. Só isso justifica, por exemplo, a presença de gente do Bope na tal comitiva.

Por isso, diante de mais este descalabro, é preciso intensificar as campanhas para derrubar este governo, único caminho para que realmente possamos encarar a crise sanitária e socioeconômica, começando pela vacinação de toda a população.