Na última quinta-feira, o anúncio oficial do Instituto Butantan sobre a taxa de 78% de eficiência da vacina CoronoVac, e a entrada no pedido de registro emergencial junto à Anvisa, trouxeram um alento e um horizonte de esperança num momento em que o país acumula a trágica marca de mais de 200 mil mortes pela COVID-19 no Brasil, só em casos notificados. Um feito notável desse instituto, seus pesquisadores e profissionais de saúde, tão atacados pelos governos no último período.

Poucas horas depois, o atual ministro da Saúde, o General Eduardo Pazuello, num pronunciamento público cujo maior tempo foi dedicado à criticar a imprensa, também anunciou a compra de 100 milhões de doses produzidas pelo Butantan, incorporando a vacina no Plano Nacional de Imunização (PNI), com 46 milhões de doses até abril. Foi um recuo de Bolsonaro, diante da pressão da opinião pública já que, em outubro do ano passado, esse mesmo governo havia desautorizado qualquer convênio com o instituto localizado em São Paulo, afirmando que “não haverá qualquer e nenhuma vacina”.

Ao mesmo tempo, Pazuello relembrou mais uma vez o acordo com a vacina da AstraZeneca, empresa em que o governo Bolsonaro havia dado exclusividade para o plano de imunização. Citou ainda um acordo com a Jonhson & Jonhson (3 milhões de doses no segundo trimestre). E com a Pfizer, reclamando da quantidade que a farmacêutica disponibilizou ao país, com apenas 500 mil doses em janeiro, algo que não supre sequer a população de Osasco (SP). Ele só não lembrou que o Brasil, pelo negacionismo de seu governo, foi o último a encomendar a vacina, ficando atrás da fila dos países que já haviam, há meses, requisitado a produção da farmacêutica.

O governo ainda coloca no rol de possibilidades as 42 milhões de doses da Covax Facility, o consórcio da Organização Mundial de Saúde (OMS) para países pobres, mas estas sem qualquer previsão de quando chegarão. No total, a promessa do governo é de disponibilizar 354 milhões de doses, num prazo ainda indefinido. Considerando que, tirando a Jonhson, as vacinas preveem 2 doses para a imunização, essa quantidade atenderia 177 dos 210 milhões de brasileiros.

No que deveria ser uma entrevista coletiva, mas que virou um mero pronunciamento, já que não foi aberto a perguntas, Pazuello não respondeu à principal pergunta que todos esperam há meses: quando vai começar a vacinação? Segundo o general-ministro especialista, em logística em janeiro. Ou fevereiro. No pior das hipóteses, em março. Ou seja, ficou mais evidente que a fala de Pazuello só serviu para se contrapor a Doria nessa guerra eleitoral entre Bolsonaro e Doria que se tornou a questão das vacinas, em que o menos importante é a vida das pessoas. O país continua às cegas, empilhando mortos e sem qualquer planejamento.

Depois que a Índia, em que a fábrica da AstraZeneca se localiza, vetou a exportação dos insumos da vacina para atender a sua população local, o que de concreto existe hoje no Brasil são as 10,8 milhões de doses da CoronaVac, neste momento estocados no Instituto Butantan em São Paulo à espera da aprovação da Anvisa.

Vacinação já deveria ter começado em todo o país

As declarações de Pazuello não resolvem o imbróglio envolvendo o início da vacinação. O governo paulista já anunciou o início da campanha no estado a partir de 25 de janeiro, e coordena com os municípios a logística da distribuição e aplicação das vacinas. Data que poderia ser antecipada dependendo do Governo Federal. O Ministério da Saúde, por sua vez, argumenta que, segundo a Medida Provisória editada por Bolsonaro na última quarta-feira, a vacinação deve começar de forma simultânea em todo o país, o que impediria o início da imunização em São Paulo, conforme o governo paulista prometeu.

Ao que tudo indica, o governo Bolsonaro espera a chegada de 2 milhões de doses da Índia da farmacêutica AstraZeneca para ser o primeiro a iniciar a vacinação, chegando na frente do Butantan, e capitalizando politicamente contra Doria. Mesmo que essas vacinas sirvam apenas como uma ação de propaganda frente às reais necessidades do país. O verdadeiro objetivo é uma foto para a imprensa. Neste sentido, um atraso por parte da liberação da Anvisa da CoronaVac atenderia esse intuito espúrio.

É simplesmente criminoso que não se tenha ainda iniciado a vacinação no Brasil, país até pouco tempo atrás referência em processos de imunização em massa, com dois institutos de renome internacional: o Butantan e a Fiocruz no Rio de Janeiro. Enquanto continua essa disputa política pelas vacinas, o país volta a ter o registro de mais de mil mortes diárias pela doença, o que afeta, sobretudo, os trabalhadores e a população mais pobre e vulnerável.

Chegada de lotes da Coronavac em SP

Tampouco faz sentido a polêmica se São Paulo pode iniciar a imunização antes do restante do país. O que deveria estar se discutindo é a razão pela qual não se começou a vacinação em todo o território nacional, pelo menos dos grupos de risco, como os profissionais de saúde e os idosos, quando mais de 50 países ao redor do mundo já o fazem. Não tem o menor cabimento impedir o início da vacinação em São Paulo, assim como não tem o menor sentido não estarmos vacinando, não só São Paulo, como os demais estados, ou sequer termos uma previsão concreta de quando isto vai começar.

As clínicas particulares estão agora na Índia negociando a importação de 5 milhões de doses de vacina, a fim de venderem, no Brasil, a quem possa pagar. Essa quantidade é quase metade das doses que temos disponibilizadas já no país. O que coloca a questão: por que não é o governo que está lá adquirindo essa vacina para imunizar a população através do sistema público de saúde? Caso se efetive essa compra, o Estado deveria confiscar as vacinas e disponibilizá-las junto ao SUS para toda a população, começando pelos grupos de risco. É inadmissível que os ricos tenham as vacinas garantidas, enquanto o conjunto da população continua morrendo. Mais absurdo ainda que sejam os mesmos setores que sustentam Bolsonaro no governo, e que nos trouxe na situação que estamos hoje. Se os ricos querem vacina, que se juntem aos que lutam para tirar esse governo e garantir vacina a todos.

Seria possível, desde já, começar a vacinação dos grupos prioritários e de risco em todo o país, enquanto se adquire insumos para a produção para o restante da população no menor tempo possível. O atraso, a negligência e a política genocida de Bolsonaro já custaram muitas mortes. Desta vez, não pela COVID-19, mas pela falta de vacinas.

Estatização das grandes farmacêuticas e mais verbas para a saúde e pesquisa

Outro ponto que a pandemia escancara é o processo de desnacionalização do país. Com institutos de pesquisas de referência internacional, o Brasil hoje está completamente à mercê de meia dúzia de grandes farmacêuticas multinacionais, que decidem quem terá ou não vacina. Mais que isso, num dos países mais industrializados do mundo, há o risco de faltar seringas para a vacinação. A educação, a ciência e a pesquisa vem sendo atacadas de forma sistemática não só pelo governo Bolsonaro, mas pelo próprio governo Doria, que propagandeia a vacina do Butantan ao mesmo tempo em que ameaça cortar verbas da Fapesp.

É preciso estatizar as grandes farmacêuticas, colocando-as sob o controle dos trabalhadores, e reverter a destruição do ensino e da pesquisa, aumentando as verbas na área, valorizando os pesquisadores e profissionais da Saúde, assim como os institutos que já contam com larga tradição no setor e sofrem com a ação desses governos. Cada vez mais, uma questão de vida ou morte.