O poeta e dramaturgo Lorca

Além de ter sido um dos mais importantes e dramáticos episódios da luta revolucionária no século 20, a Guerra Civil Espanhola serviu como palco para uma explosão criativa, também brutalmente reprimida pelo fascismo. Uma história que até hoje deixa suas marcas, principalmente no cinema

Em 19 de agosto de 1936, o poeta, escritor e dramaturgo Frederico Garcia Lorca foi fuzilado pela Falange Franquista. A Guerra Civil havia começado há um mês e Lorca, com 38 anos, não se tornou uma de suas primeiras vítimas por um acaso.

Homossexual, ateu, republicano e simpático ao socialismo, o poeta, nas palavras de um deputado católico, era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver“. Um “perigo” que o poeta fazia brotar de textos que, até hoje, são maravilhosos testemunhos de uma Espanha conturbada e tensionada pela onda revolucionária.

Criador da companhia teatral popular “La Barraca” (1931), Lorca levou para os palcos um poderoso grito contra a opressão e a injustiça social. Em “Bodas de Sangue”, uma mulher abandona o marido para fugir com o amante; em “Yerma”, uma esposa mata o companheiro que a rejeitava por ser estéril e em “A Casa de Bernarda Alba”, valores como “tradição e honra” espatifam-se contra os impulsos motivados pelo amor e pela liberdade.

Temas também recorrentes em sua poesia, que transitava entre o modernismo, como “Romanceiro Gitano” (1928) e “Ode a Walt Whitman” (1933), e o surrealismo, como “Poeta em Nova York” (1930), um fulminante ataque ao modo de vida norte-americano.

A notícia de sua morte varreu a Espanha, provocou indignação internacional e serviu como lamentável exemplo de que a guerra que estava acontecendo em solo espanhol também seria travada em um outro campo de batalha: o da arte.

Crises revolucionárias e criação artística

A História tem demonstrado que momentos revolucionários costumam vir acompanhados de uma impressionante ebulição artística. A Guerra Civil Espanhola é um dos exemplos mais contundentes disto. No lado “republicano”, músicas, poesias, livros, cartazes, pinturas e filmes não só refletiam o ideal rebelde e a propaganda revolucionária, como também expressavam uma revolução que acontecia no próprio “fazer artístico”.

Dando vida ao famoso ensinamento do poeta russo Maiakóviski – de que não há arte revolucionária sem forma revolucionária –  intelectuais, artistas, trabalhadores e jovens tomaram em suas mãos a tarefa de transpor para a arte seu sonho de liberdade e seu ódio ao conservadorismo político, artístico e comportamental da “Espanha Nacionalista”.

Uma das expressões mais belas desta explosão foram os cartazes que se espalharam pelas ruas. Produzidos por gente famosa como o pintor surrealista Joan Miró, autor de Aidez L’Espagne (Ajude a Espanha, de 1937), ou anônimos, os pôsteres retratavam a luta por um novo mundo e uma nova forma de expressão.

As Brigadas Internacionais – com voluntários da França, Alemanha, Itália, Inglaterra e de toda a América Latina – também foram contaminadas pela estética revolucionária, fazendo com que muito de seus integrantes também produzissem sobre o tema. Dentre os muitos que seguiram este caminho, cabe destacar o grupo formado pelos surrealistas.

Respondendo ao Manifesto Surrealista, de 1936, escrito por André Breton (que, em 1938, assinou o Manifesto por uma Arte Independente e Revolucionária, com Leon Trotsky), artistas como o inglês Henry Moore (Prisioneiro Espanhol, 1938) e os franceses Édouard Pignon (Morte de um trabalhador, 1933) e René Magritte (A bandeira negra, 1938) colocaram sua genialidade a serviço da denúncia dos horrores da guerra e da necessidade de solidariedade internacional.

Destoante e detestável exceção nesta história foi o pintor Salvador Dali, “expulso” do movimento surrealista exatamente por sua confessada simpatia por Franco e pela direita.

Mundo afora, contudo, a obra de arte mais conhecida sobre a guerra civil é, inquestionavelmente, Guernica, que Pablo Picasso fez em 1937 em homenagem ao vilarejo basco devastado pelas tropas de Franco e pelas baterias aéreas de Hitler. Picasso também registrou os horrores da guerra na face deformada de Dora Maar, simpatizante do trotskismo e sua companheira na época, que serviu como modelo para o impactante Mulher em Lágrimas.

Para além das artes plásticas, a guerra também está na origem de obras como Os Fuzis da Senhora Carrara, peça escrita por Brecht em 1937; poemas de Antonio Machado e livros como os de George Orwell (Homenagem à Catalunha) e Ernest Hemingway (Por quem os sinos dobram), dois destacados artistas que combateram nas Brigadas e sobreviveram para contar suas histórias, destino diferente de jovens poetas britânicos e norte-americanos como Christopher Caudwell, Julian Bell e John Cornford, que morreram nos campos de batalha.

Arte e revolução nas telas

Conhecer a obra de todos estes artistas e tantos outros que tiveram suas vidas e obras entrelaçadas com a Guerra Civil permite conhecer o conflito através de um caminho tão instigante quanto aquele apontado pelos escritos sobre o período, particularmente “A Revolução Espanhola” (uma coleção de artigos, cartas e documentos de Leon Trotsky sobre o tema).

Neste sentido, um dos caminhos mais acessíveis é o cinema e o filme obrigatório é Terra e Liberdade, de Ken Loach. Lançado em 1995, quando o discurso sobre o “fim das ideologias” corria solto, o filme arrancou aplausos mundo afora não só por resgatar o espírito de luta dos jovens da época, mas, principalmente, ao mostrar a história a partir de um ponto de vista anos-luz distante da perspectiva stalinista.

Em Terra e Liberdade, os protagonistas são os militantes do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), um grupo muito criticado por Trotsky, devido aos seus equívocos e vacilações, mas que em muito se distanciou da criminosa atuação do Partido Comunista, responsável, inclusive, pelo assassinato de grande parte dos “poumistas”.

Uma história que guarda uma dolorosa semelhança com todos os demais bons filmes que foram produzidos sobre uma guerra e uma revolução lamentavelmente derrotadas.

Contudo, belo e emocionante, Terra e Liberdade e esses outros filmes – ao lado dos cartazes, quadros e escritos que chegaram até nós – também são testemunhos comoventes de uma história que não pode ser esquecida e, acima de tudo, daquilo que há de mais belo quando Arte e Revolução caminham lado a lado: a expressão livre, independente e radical do sonho por um mundo mais justo, da luta pela liberdade e da crença inabalável de que é possível construir um mundo onde a beleza possa adquirir todas as formas, cores e sons que estiverem ao alcance da humanidade.

O QUE LER

“Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha”, de João Cerqueira, Editora Zouk.

O QUE VER
* Ainda sob a ditadura, grande parte dos filmes de Carlos Saura faz referência à guerra, mesmo através de metáforas. Desta época, destacam-se “A caça” (65), “Ana e os lobos” (72), “A prima Angélica” (73). Também no campo das metáforas está o excelente “O espírito da colméia” (72), de Victor Erice.

* Mais recentemente, Saura fez o belíssimo “Ay. Carmela” (90), que o impacto da guerra sobre um grupo mambembe de teatro.

* Também é imperdível “Libertárias” (95), de Vicente Aranda, centrado na luta e na libertação das mulheres (dentre elas uma prostituta e uma freira) durante a guerra.

* Mais recente, “A língua das Mariposas” (99), de Jose Luis Cuerda, é uma poética denúncia da repressão política, poética, artística e cultural que caracterizaram Franco e seus apoiadores, através de um garoto que, no início da guerra, vê seu pai e seu professor sendo vitimizados pelos fascistas.