Um plano que já fracassou

O resultado é que o plano original dos ianques (repassar o poder formal a um governo formado por políticos e figuras iraquianas opositoras a Saddam e de certa representatividade, para legitimar a ocupação e amortecer a resistência) já fracassou. Os ianques não conseguiram incorporar nenhum setor de peso ao governo. O resultado é que a APC não tem nenhum peso nem influência na população e só é uma máscara inexpressiva do poder real: a hierarquia militar e política norte-americana.

Agora, eles tentam criar um novo governo provisório, em uma tentativa de incorporar alguns novos setores, mas o repúdio da população à ocupação faz com que nenhum dirigente com alguma influência queira “se queimar” entrando nesse governo.

Por outro lado, no terreno militar, a rápida vitória obtida pelos invasores (durante a guerra “clássica” contra o exército de Saddam) se transformou em uma guerra não-convencional, contra uma resistência popular que é muito mais difícil de ser derrotada.

“A ONU, por favor!”

Não é casual, então, que o governo Bush (modificando a posição original, quando da invasão, e mantida até há pouco), agora apele para a ONU para tentar sair deste “pântano”. Este pedido de intervenção recebe o apoio de alguns dirigentes xiitas, como as-Sistani que propõe que seja este organismo internacional que supervisione as eleições. De um lado, Bush pede que a ONU intervenha para convencer a direção xiita a colaborar; por outro, tenta ampliar a “legalidade” da ocupação para que a ONU lhe cubra as costas e lhe ajude a desmontar a resistência.

É claro que a ONU e, por trás dela, o imperialismo europeu que não participou da invasão, como França e Alemanha, está disposto a ajudar Bush.

Os sintomas de crise nas tropas

A dureza da resistência e o ódio com que são recebidos, levou as tropas ianques a aumentar a repressão às manifestações, cometendo assassinatos abertamente nas ruas (incluindo crianças e velhos) ou a prender milhares de ex-soldados iraquianos ou “suspeitos”. Para os ocupantes, todo iraquiano pode ser um inimigo.

Mas a mesma situação também faz com que seu moral esteja cada vez mais baixa. Inclusive, foram vistos casos insólitos de soldados dando entrevistas a órgãos de imprensa, dizendo que seus superiores não conhecem o que acontece realmente no Iraque porque “estão em seus escritórios climatizados”. Ao mesmo tempo, aumenta cada vez mais o número de suicídios entre os soldados dos EUA.

Este clima de moral baixo é intensificado por outro fator: existe um número expressivo de soldados de origem latina no exército ianque, um setor que é discriminado social e economicamente nos EUA. A maioria deles ingressou no exército para ter um melhor salário e um trabalho que lhes permitisse ser aceitos pela sociedade. Muitos nem sequer tinham cidadania norte-americana e se alistaram porque lhes prometeram isto, depois da guerra. Além disso, também lhes prometeram uma guerra curta e uma rápida e vitoriosa “volta a casa”. A realidade se mostrou muito mais dura que estas promessas e hoje muitos destes jovens latinos se perguntam se vale a pena morrer por alguns milhares de dólares e um passaporte.

E como anda em casa?

Mesmo nos EUA, algumas famílias de soldados começaram a realizar ações de protesto contra a política do governo. Como parte delas, se formou a rede Bring them home (Tragam-nos de volta) para lutar pela retirada das tropas, que já conseguiu centenas de adesões.

É mais uma amostra do desgaste de Bush, cuja aprovação popular caiu de 86% (quando derrotou o exército de Saddam) aos 46% atual. Por outro lado, com o processo eleitoral já em curso, as pesquisas indicam que, hoje, Bush perderia as eleições para John Kerry, que quase seguramente será o candidato do Partido Democrata.

Toda a situação (resistência armada em um país ocupado, sintomas de crise no exército, protestos dentro dos EUA) traz à memória o fantasma do Vietnã, a primeira grande derrota militar sofrida pelo imperialismo ianque. Não é casual que o debate sobre a situação no Iraque e a política de Bush se estendam cada vez mais à própria burguesia norte-americana. Uma situação que não só se expressa em meios de comunicação importantes (como o Washington Post e o New York Times), como também no setor do imperialismo que prepara uma mudança (nas próximas eleições) com a candidatura do democrata John Kerry, numa tentativa de “amenizar as perdas”.

Como parte disto, o Congresso, agora, está investigando a responsabilidade de Bush e da CIA nas falsas acusações de que Saddam possuía armas de destruição em massa; desculpa que serviu para justificar a guerra e a invasão militar. É algo que serve para desgastar a imagem de Bush e, por sua vez, para pressioná-lo e obrigá-lo a buscar uma solução para a crise atual.

“Que o Iraque seja outro Vietnã!”

Está colocada a possibilidade de que o imperialismo enfrente, no Iraque, uma nova derrota militar, similar àquela no Vietnã. Consideramos completamente equivocada a posição daqueles que propõem a intervenção da ONU como forma de conseguir uma saída favorável para o povo iraquiano. Como demonstra a experiência, qualquer intervenção deste organismo só servirá para defender os interesses imperialistas e para proteger o assassino Bush.

Por isso, a LIT-QI, como milhões de trabalhadores de todo o mundo, e sem depositar nenhuma confiança nas direções burguesas sunitas ou xiitas, apóia a resistência iraquiana até a completa derrota e a expulsão das tropas.

É dever de todos os lutadores ajudar para que isto ocorra. Em primeiro lugar, com solidariedade e nossa mobilização. No dia 20 de março, por exemplo, em Londres e nos EUA, como também no Brasil e vários outros países, várias organizações irão realizar uma jornada mundial de repúdio à invasão. É uma excelente oportunidade. A LIT-QI chama a mais ampla unidade para que, nessa jornada, se mobilizem milhões em todo mundo.

Fora as tropas imperialistas! Iraque para os iraquianos!

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