Um novo Péron?

Outras forças, sem ir tão longe, o comparam com os dirigentes nacionalistas burgueses que, durante um período do século XX, se enfrentaram com os ianques, como o mexicano Lázaro Cárdenas, o argentino Juan Perón ou o guatemalteco Jacobo Árbenz. Lembremos que esses dirigentes encabeçaram movimentos e governos que tomaram algumas importantes medidas contra o imperialismo e seus aliados, como a estatização do petróleo e a reforma agrária no México ou a estatização de importantes ramos da economia argentina. Ao mesmo tempo, para se contrapor à pressão do imperialismo, apelavam para a mobilização controlada do movimento de massas. Para conseguir tal apoio, realizaram algumas concessões econômicas que melhoraram muito o nível de vida da população. Porém, inclusive em seu auge, estes dirigentes e movimentos tiveram dois limites inegáveis. Em primeiro lugar, nenhum deles avançou a fundo no enfrentamento com o imperialismo, ao qual finalmente terminaram capitulando. Ao não romper o marco burguês, o imperialismo manteve sólidas bases de apoio econômico-políticas e, em muitos casos, impulsionou sangrentos golpes de Estado. Em segundo lugar, para evitar a divisão das forças armadas “nacionais”, se negaram a impulsionar a organização e o armamento dos trabalhadores para enfrentar esses golpes. A atitude de Perón frente ao golpe de 1955 (primeiro ao minimizar sua importância e depois ao fugir para o Paraguai), antecipa, nesse aspecto, a postura de Chávez em 2002, de se dirigir a quem o derrubava e dizer-lhes “Terminem seu golpe e assumam as conseqüências”. A diferença entre os dois golpes reside no fato de que, no caso venezuelano, os trabalhadores e as massas, apesar de Chávez, junto com setores médios e baixos das Forças Armadas, levaram adiante uma mobilização revolucionária que derrotou o golpe e reconduziu Chávez.

Essa comparação é realizada, majoritariamente, por figuras e correntes provenientes do trotskismo, como o dirigente sindical venezuelano Stalin Pérez Borges, a UIT (União Internacional de Trabalhadores) representada no Brasil pela corrente do deputado Babá ou a corrente encabeçada pelo atual MAS (Movimiento ao Socialismo) argentino.

Como vimos, essa definição está muito mais próxima da realidade que a definição anterior. Porém, se transforma em um profundo equívoco se, ao mesmo tempo, não se coloca que, atualmente, as condições políticas e econômicas mundiais reduzem praticamente a zero as perspectivas de um desenvolvimento mais ou menos sustentado deste tipo de processo. Hoje não há possibilidades sérias de ter “jogo próprio” ou de melhorar as condições de vida dos trabalhadores e das massas sem atacar as raízes do sistema capitalista-imperialista e avançar em direção a uma revolução operária e socialista. É o que explica que as medidas anti-imperialistas de Chávez sejam muito mais débeis do que as que tomaram Cárdenas ou Perón. Como exemplo, Chávez, respeitou as concessões que a PDVSA (companhia petroleira estatal) havia feito, sob governos anteriores, às companhias estrangeiras. Ele também continua pagando pontualmente a dívida externa e aplica planos de acordo com as exigências do FMI.

As conseqüências dessa política é que, com Chávez, as massas venezuelanas não experimentaram praticamente nenhuma melhora em suas condições de vida e convivem com salários baixíssimos, inflação galopante e desemprego altíssimo.
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