Um mês depois: São Paulo no epicentro do surto de Coronavírus

Farmácias continuam funcionando em São Paulo no período de quarentena

Fábio Bosco

No dia 26 de fevereiro, em plena Quarta-feira de Cinzas, foi confirmado o primeiro caso de coronavírus no Brasil, na cidade de São Paulo. O paciente viajou da Lombardia, no norte da Itália, onde se contaminou. Tratado no Hospital Albert Einstein, ele se recuperou.

Um mês depois, a situação é muito diferente. Hoje há 2915 casos confirmados espalhados em todo o país, e 77 mortes em oito estados em todas as regiões.

Com 1052 casos confirmados e 58 mortes, São Paulo está no epicentro do surto.

A primeira morte ocorreu em 17 de março em São Paulo. Seu nome não foi divulgado. Com 62 anos e nascido no interior da Bahia, ele era porteiro como muitos colegas de profissão em São Paulo. Internado no dia 14, seus primeiros sintomas apareceram dia 10.

Ele faleceu sem que ele ou sua família soubessem que ele estava contaminado com a Covid-19. Só desconfiaram quando o caixão chegou lacrado para o velório no cemitério da Vila Alpina. Posteriormente se revelou que seus pais e dois irmãos se contaminaram também.

A política assassina de Jair Bolsonaro

Desde o dia 24, São Paulo está em quarentena parcial. As aulas nas escolas públicas já foram suspensas no dia 18 de março. Triste pelo vazio das ruas, e assustada pela marcha dos acontecimentos no Brasil e no mundo, a população assistiu a um espetáculo grotesco.

No próprio dia 24, o presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento nacional criticando violentamente o fechamento do comércio e de igrejas, e atribuindo a alguns governadores e prefeitos a responsabilidade por destruir a economia nacional. Tinha por trás de si empresários do setor de comércio como Luciano Havan, de restaurantes como Junior Durski da rede Madero e pastores como Silas Malafaia. Contrariando a opinião de 99% dos sanitaristas, esse setor de capitalistas defende abertamente que é melhor manter a economia e a coleta de dízimos a preservar a vida de milhares de idosos, muitos dos quais com doenças pré-existentes.

 

No dia 25, o conflito continuou particularmente entre o presidente e o governador de São Paulo João Dória. Aliados na época da eleição, hoje Dória e outros se postulam a substituir um presidente que é visto cada vez mais como um irresponsável, incompetente e desumano pela classe trabalhadora.

Ao priorizar o funcionamento do comércio e das igrejas, Jair Bolsonaro segue a mesma receita assassina da Confederação das Indústrias de Bérgamo, na Itália.

Bérgamo: a economia acima da vida

A província de Bérgamo com 1,1 milhão de habitantes, é a mais afetada pelo surto de coronavírus. São 7.272 casos confirmados e 1.328 mortos. Sem condições de atender a todos que necessitam, os hospitais da cidade têm que escolher quem será atendido e quem não será. As famílias não podem visitar seus entes queridos nos hospitais e nem realizar funerais. Caixões lacrados são transportados pelo exército para outras cidades, pois os crematórios de Bérgamo estão superlotados.

Entre as causas principais dessa catástrofe estão os interesses capitalistas da Federação das Indústrias de Bérgamo. No dia 27 de fevereiro, já com 103 casos confirmados, a Federação lançou um manifesto afirmando que tudo estava normal e que as fábricas e o comércio seguiam abertos. Sílvio Garattini, presidente do Instituto de Pesquisas Farmacológicas Mario Negro, afirmou à TV RAI3 que “infelizmente aqui foi privilegiada a proteção da atividade econômica em relação à tutela da saúde”.

São Paulo em quarentena parcial ao gosto dos capitalistas

Assim como Bolsonaro se curva a interesses capitalistas, o governador João Dória e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não ficam atrás.

Sintonizados com interesses capitalistas desde os banqueiros, industriais, agronegócio até as redes de supermercados e farmácias, eles decretaram uma quarentena parcial na qual o comércio e as escolas são fechados, mas as fábricas, transportes e outras atividades não sofrem qualquer interrupção. Dória e os empresários trabalham com a perspectiva de retomada das atividades até o final de abril.

Do ponto de vista da saúde pública, a quarentena parcial reduz a velocidade da contaminação em escala muito inferior à uma quarentena geral que inclua indústria, serviços e transportes mantendo em funcionamento apenas as indústrias de produtos hospitalares, farmacêuticos e alimentícios, além dos serviços médicos e supermercados.

Foto Governo do Estado de SP

Bolsonaro e Dória juntos na austeridade

Outro ponto em comum entre Bolsonaro e os governantes paulistas é a economia em investir a fundo em medidas contra a propagação do coronavírus.

Enquanto Bolsonaro fazia vistas grossas ao reclamos dos governadores por recursos materiais e hospitalares para fazer frente à pandemia, o governador Dória anunciou com satisfação que São Paulo contará com 9.500 leitos de UTI, setores público e privado, para atender a população e que o Instituto Butantã fabricará dois mil kits para testagem por dia.

Os 9500 leitos de UTI perfazem 2 leitos para cada dez mil habitantes, índice razoável para períodos normais segundo a OMS. Mas para enfrentar uma pandemia, ele é um número no mínimo arriscado. Na hipótese muito possível de que 10% da população se contamine (4 milhões e 600 mil) e que 1% destes precisem de UTI são 46 mil pessoas. Nesse patamar, 9500 leitos de UTI provavelmente não serão suficientes.

Outra complicação é o fato de que parte dos leitos está nos hospitais privados. Não há qualquer medida do governador no sentido de estatizar todos os hospitais para oferecer toda a rede hospitalar para atender todo o público. Sem essa medida, quem depende exclusivamente do SUS estará em piores condições de conseguir atendimento. Trata-se, aliás, da população mais pobre.

Sobre os testes de coronavírus, o número é muito pequeno. Esta situação de leitos de UTI e testes insuficientes está ocorrendo no Estado mais rico do país.

Classe trabalhadora: nem saúde nem salário

Se a saúde dependerá da evolução do surto de coronavírus, o salário já está comprometido pelas demissões em massa, pela flexibilização dos direitos trabalhistas e pela informalidade.

Hoje a Câmara de Deputados votou um projeto para assistir cerca de 25 milhões de trabalhadores informais com uma ajuda mensal de R$ 600 por três meses. O pré-requisito para ter direito é bem restrito: não pode ter emprego ou benefício do INSS, não pode acumular com o Bolsa-Família e tem que ter registro como autônomo ou microempresário.

Além dos R$ 600 serem uma quantia insuficiente para garantir a sobrevivência de um ser humano, o número de beneficiários é menos da metade de todos que necessitam.

Desta forma a sobrevivência dos trabalhadores dependerá de sua organização e de sua luta.

Um chamado à luta para defender a vida

O PSTU faz um chamado à classe trabalhadora a se auto-organizar e se levantar contra essa ordem social capitalista.

Bolsonaro, Dória e os capitalistas negam aos trabalhadores direitos básicos como o direito ao trabalho, o direito à assistência médica, o direito à alimentação, o direito à moradia digna, enfim o direito à vida.

Apoiamos as greves de trabalhadores pelo direito de permanecer em casa sem qualquer redução salarial.

Temos que lutar pela ampliação dos leitos de UTI e dos testes, pela estatização de todos os hospitais e por mais verbas para a saúde.

Temos que apoiar os sindicatos em sua luta por estabilidade no emprego e uma renda básica para autônomos, ambulantes e pequenos comerciantes no valor de R$ 2.500 que é a média salarial no Brasil.

Temos que estar lado a lado com os movimentos por moradia em suas ocupações e sua luta por investimentos públicos.

Para atender todas essas reivindicações é necessário suspender a dívida pública com os bancos, abrindo o caminho para uma ampliação substancial das verbas para saúde, educação, assistência social e moradia.

Nessa caminhada vamos preparando o terreno para derrubar Bolsonaro, Mourão, Dória e Covas, e colocar em seus lugares um governo dos trabalhadores e do povo pobre que rume em direção a um Brasil socialista.

PS: Enquanto escrevia esse artigo, faleceu de coronavírus em São Paulo Ediloy Ferraro, um amigo, colega de trabalho e de lutas no Banespa, a quem dedico esse artigo.