Um chamado à solidariedade ao povo palestino

Em 1948, inicia-se a vida do povo palestino em campos de refugiados e na diáspora.

No dia 29 de novembro, em todo o mundo, atividades lembram o “Nakba”, catástrofe que se abateu sobre os palestinos há 66 anos

Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, recomendou a partilha da Palestina em um estado judeu e um árabe, sem consulta aos habitantes locais. Essa ação forneceu as bases para que o movimento sionista, que visava a criação de um estado exclusivamente judeu em terras palestinas, colocasse em marcha um plano deliberado de limpeza étnica. Iniciado 12 dias após a recomendação na ONU, culminou, segundo escreve o historiador israelense Ilan Pappé, na expulsão de 800 mil palestinos de suas terras e propriedades e destruição de 531 aldeias.
 
Em 1977, as Nações Unidas instituíram o 29 de novembro como o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino. Desde então. realizam-se na data, em todo o mundo, atividades para lembrar a catástrofe (no termo árabe, nakba) que se abateu sobre os palestinos e denunciar que essa população ainda espera por justiça, 66 anos depois.
 
Atualmente, segundo a Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA), há 5 milhões de refugiados em campos a um raio de 150km de distância dos territórios palestinos. Essa população, e outros milhares espalhados pelo mundo, até hoje aguarda e luta para retornar a suas terras e propriedades, direito assegurado pela própria ONU em sua Resolução 194 de 11 de dezembro de 1948 e reiterado centenas de vezes desde então. As negociações intermediadas pelos Estados Unidos entre representantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel nunca garantiram o cumprimento desse direito legítimo. Pelo contrário, são demonstrações claras de que a paz não passa de retórica. Jamais se apresentou proposta justa à mesa.
 
Oslo e Said
Neste ano de 2013, completaram-se 20 anos dos acordos de Oslo, que alguns palestinos denominam “nova nakba”. De fato, nada a comemorar. Nessas duas décadas, segundo dados divulgados por organização de direitos humanos, somaram-se mais 7 mil mortos palestinos, mais 12 mil casas destruídas e mais 250 mil assentamentos ilegais construídos por Israel em território ocupado militarmente por esse estado. Intensificou-se a fragmentação da sociedade palestina e a desmobilização. E Israel fundamentou, desde então, sua economia sobretudo no desenvolvimento e exportação de tecnologias militares. 
 
O Brasil se tornou, nos últimos anos, porta de entrada para a indústria armamentista israelense, ampliando os acordos militares com a potência que ocupa a Palestina. No momento em que se reabrem negociações, com a ameaça de um novo “Oslo”, urge fortalecer no País a campanha de boicotes, desinvestimento e sanções (BDS) a Israel, aos moldes do que foi feito para derrubar o apartheid na África do Sul nos anos 1990.
 
Também neste ano, completaram-se dez anos da morte do intelectual palestino Edward Said. É o momento de homenagear uma das vozes que dedicaram a vida a divulgar a causa palestina, denunciar o pensamento orientalista, que inventa binário baseado em “Oriente” formado por bárbaros e atrasados” em contraponto ao “Ocidente” civilizado, bem como a tragédia que representou Oslo e o servilismo das lideranças palestinas. Neste 29 de novembro, a lembrança de uma de suas célebres frases é mais que oportuna: “Se um de nós for eliminado, dez outros devem vir em seu lugar. Essa é a marca genuína de nossa luta, e nem a censura nem a simples cumplicidade covarde hão de apagá-la .” Uma saudação à heroica resistência palestina e um chamado nesta data à comunidade internacional por solidariedade.
 
Limpeza étnica
A solidariedade internacional é uma necessidade urgente diante da contínua limpeza étnica e apartheid a que estão submetidos os palestinos. Assim como ocorreu em 1948, há hoje a ameaça de novas expulsões, desta vez de cerca de 50 mil beduínos palestinos do Naqab (Negev), região ao sul da Palestina, que na partilha da ONU foi destinada à constituição do estado judeu. Israel, todavia, não reconhece 35 vilas em que vive essa população, assim não provê nenhum serviço básico a tais habitantes e, como conseqüência, 60% encontram-se abaixo da linha da pobreza. A pretensão é demolir esses vilarejos para que deem lugar à especulação imobiliária e a colonização de terras palestinas com a construção de novos assentamentos ou instalações militares.
 
A consolidação desse projeto é o que visa o Plano Prawer. Aprovado em primeira instância em 24 de junho último no Parlamento israelense (Knesset), para ser implementado precisa ainda passar em mais duas sessões. A juventude palestina tem convocado manifestações contra mais essa ofensiva. Assim, realizou grandes protestos em 15 de julho e em 1º de agosto em toda a Palestina histórica, quando houve dura repressão e várias prisões. A estas lutas se somaram cidadãos de destinos em outros 12 países, inclusive em São Paulo, Brasil. Aqui, o ato foi convocado pela Frente em Defesa do Povo Palestino. Foram distribuídos 2 mil panfletos explicativos à população. O ponto alto foi o cruzamento desse protesto com um que ocorrera pelo sumiço do pedreiro morador da Favela da Rocinha, Amarildo de Souza. Seu corpo está desaparecido desde 14 de julho, data em que foi detido, conduzido a interrogatório e torturado na chamada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no local onde vivia.  A solidariedade mútua revelou a certeza de que a luta contra os oprimidos não tem fronteiras.
 
Um novo “dia de fúria” está marcado para 30 de novembro. Em São Paulo, o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino não passará em branco e levantará a bandeira contra o Plano Prawer. A Frente em Defesa do Povo Palestino organiza sessão solene no dia 29 de novembro, no Plenário Juscelino Kubitschek, na Assembleia Legislativa de São Paulo, a partir das 19h. E, no dia 30, o Sindicato dos Metroviários de São Paulo realiza em sua sede, às 17h, exibição de vídeo e debate. Convidamos aqueles e aquelas que lutam por justiça, contra a opressão e o apartheid a se somarem a esse movimento internacionalista rumo à Palestina livre.