Um carnaval que transformou lixo em luta


Uma greve que atravessou o samba, descompassou o governo, pintou de laranja a avenida, levantou o público e, no fim, tirou nota dez

O artigo a seguir foi originalmente publicado na Revista R 4, lançada no ano passado. Trata sobre a vitoriosa greve dos Gari do Rio de Janeiro. Neste momento, os garis do Rio de Janeiro  estão em greve novamente, na luta por salários dignos e mais direitos. O Prefeito Eduardo Paes tenta parar a mobilização, descontando os dias parados e pedindo a demissão dos grevistas. No entanto, os garis não se curvam e seguem na mobilização. Por isso, estamos publicando novamente este artigo, para demonstrar toda a solidariedade da Juventude do PSTU à greve dos garis no Rio de Janeiro. 

 

No carnaval de 2014, o Rio as vassouras que viraram bandeiras e as lixeiras que se transformaram em tambores. Abriu-se o caminho para que os passistas – os confiantes, sorridentes e abnegados garis – desfilassem na avenida. A invisibilidade  do dia-a-dia deu lugar ao reconhecimento, de proporção nacional e internacional. O lixo acumulado nas ruas virou símbolo de resistência. Aqueles do “mais baixo da escala do trabalho”* mostraram que, sem eles,  não há carnaval e nem a cidade maravilhosa do cartão-postal.

A insatisfação e revolta dos garis da  Comlurb – Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro – era crescente de uns tempos pra cá. Não é para menos. Com um salário de R$802,57, ticket-alimentação de R$12 e péssimas condições de trabalho, não tinham alternativa a não ser ir à luta. William Rocha, representante da comissão de negociação da greve, descreve assim: “nós somos massacrados, não temos condição de trabalho… Em Madureira, você prefere sair do trabalho suado, sujo, e pegar um ônibus lotado ou um trem lotado, do que entrar pra tomar banho num banheiro imundo daquele”.

Uma categoria que tem uma das profissões mais desvalorizadas e, ao mesmo tempo, das mais essenciais à vida cotidiana da cidade, parte de uma camada da classe trabalhadora muito precarizada, que ganha entre um e dois salários mínimos. Ao longo dos últimos anos, se depararam com a realidade de fazer o trabalho sujo na cidade, com uma longa jornada, sem parar nos feriados nem receber hora extra, enquanto de Janeiro se fantasiou de laranja. Aplaudindo de  pé, a população carioca abriu alas e deixou passar as alegorias de lixo, recebiam o mesmo ou até menos do que um  operador de telemarketing, um vendedor de loja, um empregado doméstico.

Toda uma parcela de trabalhadores sem qualificação e de grande rotatividade no mercado. Isso numa cidade que se encarece a um ritmo surreal. Ao mesmo tempo, entraram no mundo da internet, popularizado pelo celular, e se conectaram com uma rede sem fim, horizontal, onde era possível aprender, dar opiniões, se organizar, sem a vigilância do estado ou da empresa.

Nas fotos da greve, estão estampados os sorrisos negros. Os garis são, em sua maioria, trabalhadores negros e negras, moradores da favela e da periferia, parte da população pobre carioca, que convive cotidianamente com o contraste das suas vidas comparadas com o luxo das praias de Ipanema e dos Shoppings da Barra da Tijuca. Uma população negra que carrega nos ombros séculos de escravidão em nosso país. Que vive apertada todo o fim do mês. Que sofre cotidianamente humilhação e opressão. Mas que guardava uma força dentro de si que, surpreendendo a todos, explodiu como confetes e serpentinas laranjas nesse carnaval.

Os garis reivindicavam, em primeiro lugar, o reconhecimento do valor do seu trabalho. Não são poucos os depoimentos onde afirmam que sua motivação para a greve era dar condições de vida dignas a sua família, a seus filhos. Diziam em suas faixas: “Não Somos Lixo”. Lutaram com afinco, realizaram uma greve carnavalesca, massiva, histórica. Quase a totalidade de suas reivindicações foi atendida, curvando o governo do arrogante Eduardo Paes, a coerção da PM e a distorção dos fatos pela grande mídia.

Eu quero é botar meu bloco na rua!

Com o intuito de chamar a atenção e incomodar, não podiam ter escolhido momento melhor. O carnaval mais badalado do mundo, da cidade da Copa, repleto de turistas e holofotes da imprensa internacional, teve como grande marca… o lixo!

Eram ruas e avenidas cobertas de mais de cem toneladas de lixo. Foliões fantasiados pulavam os montes de sujeira, se deslocando de um bloco para outro. O mau cheiro, característico de algumas regiões pobres da cidade, se alastrava e chegava ao centro e à zona sul. Mas, agora, isso já não era mais problema dos garis.

Foram oito dias de greve, de sábado a sábado, terminando no Dia Internacional de Luta da Mulher – 8 de março. Deram a largada na abertura do carnaval e não foram poucos os obstáculos que enfrentaram para conseguir manter o movimento grevista de pé. A onda laranja cresceu, se fortaleceu, ganhou a opinião pública e deu um caldo naqueles que atravancaram seu caminho.

Sindicato na contramão da luta

Logo que deflagrada a greve, o Sindicato dos Empregados de Empresas de Asseio e Conservação do Município afirmou que não havia paralisação da categoria. Em seguida, a prefeitura de Eduardo Paes recorreu à Justiça do Trabalho, decretando a greve como ilegal. Na segunda-feira, a Comlurb e o sindicato fizeram uma negociação de bastidores, chegando ao acordo de reajuste salarial de 9%, numa tentativa de desmontar a greve. Nada feito. O movimento grevista dos garis afirmou que o sindicato não lhes representava e elegeu uma comissão de negociação independente.

O dito sindicato é dirigido há anos pelo mesmo grupo político, vinculado à burocracia da CGTB, que faz conchavos com a presidência da Comlurb e a prefeitura. A direção do sindicato, logo de cara, fez de tudo para desmoralizar o movimento. A raiva de classe que os garis sentiam da prefeitura e da Comlurb foi estendida ao sindicato, e nas passeatas eles cantavam: “1, 2, 3, 4, 5, 6, mil, quero que o sindicato vá pra…”.

Prefeitura e Comlurb em um impasse: quanto mais fedor, mais temor!

Restava à prefeitura e à Comlurb disputar a opinião pública para se voltar contra a greve. Mais uma vez, nada feito. Eduardo Paes, após chamar garis de “marginais e delinquentes”, declarou: “Eu não chamaria de greve. É um motim de um grupo de pessoas que inclusive coage os que querem trabalhar”. A resposta dada pelo gari Anderson Leite desmente com simplicidade o prefeito: “mas se fosse mesmo só 300 pessoas, por que o Rio tá todo sujo?”.

Nem a sujeira acumulada nas ruas foi suficiente para destruir o apoio popular à greve. Prefeitura e Comlurb passaram, então, a criminalizar o movimento. Primeiro demitiram 300 trabalhadores através de uma SMS que dizia: “Comlurb informa: compareça a sua gerência para tratar do seu desligamento”. Logo voltaram atrás. Depois, novamente, ameaçaram demitir cerca de 1200 garis. Isso que é sujeira.

Como se não bastasse, com a ajuda do governador Sérgio Cabral, a prefeitura colocou a Polícia Militar e seguranças privados armados para forçar os garis a trabalhar, sob a desculpa esfarrapada de fazer uma “escolta para protegê-los das ameaças dos grevistas”. Cenas horripilantes, que se assemelham aos tempos da escravidão, quando os senhores colocavam seus capatazes para coagir e punir escravos com uma série de torturas físicas e psicológicas.

Resistência e irreverência: uma greve campeã!

Os garis não cederam às ameaças e às demissões. A opinião pública crescia em favor da greve e, a cada ato, aumentava a adesão dos garis. A sua capacidade de manter firme a luta, unir a categoria, dialogar com a população carioca e ganhar seu apoio foram determinantes para curvar os inimigos. As passeatas e palavras de ordem, tão massificadas no Rio desde junho, deram lugar aos atos-bloco, samba no pé, cantos alegres e provocativos. Charges e virais ironizando o prefeito e a Comlurb começaram a se massificar nas redes sociais. Uma greve criativa, irreverente, e carnavalesca, que chamava mais atenção ainda.

A resistência de sua condição física, adquirida pela árdua jornada de trabalho a que são submetidos, lhes dava a capacidade de organizar atos diários que percorriam largas distâncias na cidade. Foram à porta da Prefeitura, Câmara dos Vereadores, Avenida Maracanã, Praia de Copacabana…

Após uma quarta feira de cinzas e lixos, foram realizados dois grandes atos, dias 6 e 7 de março. Os “300” haviam se transformado em milhares. No sábado, o ato dos garis concentrado na Central do Brasil se encaminha ao Tribunal Regional do Trabalho. Lá, representantes dos grevistas entram na sala de negociação e recebem a proposta da prefeitura e da Comlurb, atendendo grande parte de suas reivindicações.

Foi-lhes garantido um aumento salarial de 37%, chegando a R$1100, com um adicional de insalubridade de 40%, ticket-alimentação de R$20, dentre outros direitos.

Enquanto tremulava no céu a enorme bandeira laranja, o primeiro canto entoado depois do anúncio do atendimento de suas reivindicações foi: “gari unido jamais será vencido!”. Uma demonstração nítida não só da vitória que haviam conquistado, mas da consciência de que sem a unidade da classe isso teria sido impossível. No mesmo dia, ocorria o desfile das seis Escolas de Samba campeãs do carnaval carioca. Ao fim, os trabalhadores alaranjados desfilaram pela Sapucaí com suas vassouras. Dessa vez, não foi como das outras… Dessa vez, eles eram os verdadeiros campeões.

Uma greve entre as Jornadas de Junho e a Copa

É impossível explicar a força da greve sem localizá-la no tempo: oito meses após junho de 2013 e cem dias antes do início da Copa do Mundo. Tanto as Jornadas de Junho quanto a luta contra as injustiças da Copa atravessaram a greve laranja. Na primeira manifestação dos garis uma faixa dizia: “O prefeito quer fazer a Copa, os garis querem fazer as compras”. Simples assim.

A consciência política destes trabalhadores não acendeu de uma hora para outra. Eles cantavam: “o gari acordou!”. O mesmo canto entoado em junho nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas. E quem recolhia os panfletos, cartazes e faixas rasgados, pedaços de pau, balas de borracha, espalhados nas avenidas após as gigantescas manifestações, eram eles. Varriam as ruas pensando que também eram alvo da injustiça que o povo brasileiro denunciava. Em seguida, viram professores, operários, estudantes, lutando por seus direitos. Nas ruas e nas redes sociais, estavam conectados com as transformações que viviam o Rio de Janeiro e o Brasil. A pulga atrás da orelha cresceu.

Desde as Jornadas de Junho, o Rio de Janeiro manteve nas ruas o calor das lutas, mesmo quando o resto do Brasil esfriou. Foram mobilizações massivas, atos simbólicos, greve dos professores. Também, por isso, se sentiu com força a violência policial e a criminalização dos movimentos sociais pelos governos e grande mídia.

Após a morte do cinegrafista Santiago Andrade, em fevereiro, iniciou-se uma ofensiva não só sobre a cidade como também sobre o conjunto do país, condenando todo e qualquer tipo de manifestação e manifestante. Caiu sobre as ruas o peso da morte, e com ele toda a retórica ideológica usada pelo capitalismo da violência como ameaça à democracia. O impacto deste fato foi tão grande, que abriu espaço para a apresentação da “lei antiterror” no Congresso Nacional, conhecida como o AI-5 da Copa.

A coragem contagiante dos garis

A vitoriosa greve dos garis, portanto, serve, em primeiro lugar, como uma injeção de ânimo e confiança na classe trabalhadora e na juventude brasileira. O caminho da luta vale a pena. O aprendizado de junho segue vivo, mais colorido que nunca. Os milhões que foram às ruas aplaudiram de pé os garis e reconheceram a sua luta na greve destes trabalhadores. Os próprios garis construíram seu movimento com essa consciência.

Assim como declarou o gari Sorriso, conhecido por suas alegres “perfomances” sambistas ao fim do desfile das Escolas de Samba: “essa vitória é do Rio, uma vitória do povo e de todos os trabalhadores”.

Em segundo lugar, a greve dos garis é não só um estímulo, mas um aprendizado. Mobilizamos-nos aos milhares, aos milhões. Questionamos governos, políticos, burocracias e a velha forma de fazer política. Construímos fóruns de luta contra o aumento da passagem e em defesa do transporte público. Fizemos os governos e o Congresso Nacional responderem às reivindicações que vieram das ruas. Lutamos e suportamos a repressão, as bombas e balas de borracha.

O que, porém, não se ouviu ecoar nas ruas de junho foi o chamado para que os trabalhadores, enquanto classe, entrassem de forma organizada nos protestos. São os garis, professores, carteiros, funcionários públicos, bancários, comerciários, metalúrgicos, petroleiros, operários da construção civil, que acordam cedo todo dia para ir trabalhar, que sofrem com assédio moral, superexploração, baixos salários, transportes caóticos. São estes que erguem e sustentam nosso país. Ao mesmo tempo, são os que podem parar a produção e o funcionamento da sociedade, dar o reset no sistema capitalista e começar a erguer uma nova realidade.

A greve dos garis nos dá a certeza da força que tem a classe trabalhadora, quando unida e confiante da vitória. Fomos às ruas em junho de 2013 porque queríamos inverter as prioridades, subverter a ordem, virar o Brasil de cabeça pra baixo, cutucar o fígado do capitalismo. Pois bem, os garis transformaram lixo em luta, carnaval em política, medo em coragem, greve em vitória. Agora, a história de luta do povo brasileiro tem um grande exemplo para inspirar o enredo de outros carnavais.

 

* O trecho se refere ao infeliz comentário do apresentador do Jornal da Band Boris Casoy quando, após transmitir a imagem de dois garis desejando feliz ano novo, um furo de áudio deixou escapar a seguinte afirmação: “Que merda, dois lixeiros desejando felicidade… Do alto de suas vassouas. O mais baixo da escala do trabalho.” Pois é, Casoy… Quem ri por último, ri melhor.