Tragédia chinesa

Morte de mineiros expõe consequências do retorno do capitalismoNo último dia 6, o governo da China reconheceu que os 181 mineiros soterrados desde o dia 17 de agosto em duas minas na província chinesa de Shandong (no oeste do país) não seriam mais resgatados com vida. A tragédia ocorreu após as águas do rio Wen ultrapassarem as barreiras de um dique e entrarem na mina.
Familiares dos operários acusaram os proprietários da mineradora e o governo de ignorarem alertas de cheias. Revoltados, eles protestaram e enfrentaram a polícia de choque, que protegia os escritórios e instalações da mineradora. Como se isso não bastasse, o governo chinês tenta se desresponsabilizar da tragédia, dizendo que ela foi um “desastre natural”. Tal classificação terá como fúnebre conseqüência a não indenização dos familiares dos mineiros mortos.

Jornalistas chineses disseram que foram expulsos da região dos acidentes. Alguns deles, porém, furaram a censura e pegaram depoimentos de operários. O jornal China Daily escreveu: “os trabalhadores do turno da manhã, a maioria dos quais conseguiu escapar, disseram à gerência que a mina estava enchendo de água, mas a empresa nada fez”.

Não é a primeira (e nem a última) tragédia envolvendo mineradoras na China. O país é muito dependente do carvão devido à demanda do crescimento econômico e da restauração do capitalismo. Para maximizarem seus lucros, os proprietários das minas subornam autoridades chinesas para que ignorem a aplicação das regras de segurança. O resultado só poderia ser assustador. Só nos primeiros sete meses de 2007, 2.163 mineiros foram mortos em 1.320 acidentes. No ano passado, 4.746 operários morreram em explosões, inundações e outros acidentes.

Mas os acidentes de trabalho não ocorrem apenas nas minas chinesas.
O país é campeão em mortes em acidentes de trabalho. Desde o início do ano foram registradas mais 61.900 mortes, segundo a Administração Estatal da Segurança no Trabalho. Em 2006, o cálculo foi de 109 mil mortes, segundo dados oficiais, entre queda de pontes e desastres diários na construção civil. A busca desenfreada das empresas privadas pelo lucro é a razão principal dos acidentes.

A tragédia em Shandong é mais uma que desnuda a brutal deterioração da condição de vida dos trabalhadores chineses. Traz à luz as conseqüências do mergulho do país na restauração do capitalismo.

De que China estamos falando?
Quando se fala sobre a China, imediatamente lembramos de dois argumentos comumente levantados. Um deles, ainda propagado por alguns setores da esquerda, como o PCdoB, diz que a China continua caminhando “rumo ao socialismo”. “O projeto de socialismo empreendido na China sob o comando do Partido Comunista Chinês passa pela utilização de todos os meios de aceleração da acumulação de riqueza social criados pelo capitalismo”, escreve Elias Jabbour, dirigente do PCdoB.
Outro, levantado pela imprensa burguesa, diz que a China está se tornando uma “potência econômica imperialista”, que rivaliza com os EUA. Opinamos que ambos são falsos e não resistem à menor prova dos fatos.

O capitalismo já foi restaurado na China pela direção do Partido Comunista. O crescimento econômico chinês está totalmente subordinado aos interesses das empresas imperialistas e está assentado na produção e na exportação de equipamentos de baixa tecnologia e produtos têxteis. São as multinacionais que determinam o papel do país no mercado mundial. Assim, o país se transforma numa imensa semi-colônia com uma boa capacidade de exportação.

Restauração
O debate dentro do Partido Comunista Chinês sobre a abertura da economia ao investimento estrangeiro começou no final da década de 70, após a morte de Mao Tse Tung. Em 1979, a ala da burocracia dirigida por Deng Xiaoping aplaca as facções rivais e toma a direção do PC, iniciando a abertura econômica.

Durante os anos 80, o PC estabeleceu zonas econômicas especiais para a instalação de multinacionais que ficaram livres para operar dentro da China, sozinhas, ou em joint ventures. A burocracia também pôs fim ao monopólio do estado do comércio exterior. O monopólio, na essência, era uma medida protetora da economia estatal contra a penetração da influência capitalista externa. Em 2001, a China adere à Organização Mundial do Comércio (OMC), formalizando em definitivo o abandono de todo o controle sobre o comércio exterior. Entre 1978 e junho deste ano, o país recebeu mais de US$ 750 bilhões em investimentos estrangeiros, segundo o vice-ministro de Comércio, Wei Jianguo. Nesse mesmo período, 610 mil empresas com fundos estrangeiros foram instaladas no país.

Em 1997, o 15º Congresso do PC chinês anunciou um gigantesco programa de privatização. Segundo um estudo de Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, atualmente, mais de 70% das empresas chinesas são de propriedade privada. O setor é responsável por quase 60% dos bens produzidos no país. O peso do Estado, segundo Tang, é utilizado apenas para garantir que as multinacionais recebam infra-estrutura, energia e matéria-prima baratas.

Segredo do “milagre” chinês
A super-exploração dos trabalhadores é o grande chamariz para a entrada de capital externo na China. No país, a média do salário por hora é atualmente de 0,90 dólares – abaixo da Indonésia, que é de U$1,8, das Filipinas, de 1,3 U$, e da Tailândia, de U$3. Um operário da Volkswagen, na China, ganha 50 vezes menos que na Alemanha, segundo a Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico. Se compararmos com a média salarial brasileira (R$ 833, segundo o Dieese), veremos que um trabalhador chinês recebe um salário três vezes menor que o de um brasileiro. É esse o modelo de socialismo defendido pelo PCdoB: salários de fome associados a uma ditadura brutal.

A questão do salário é muito importante, pois o salário imposto na China se tornou uma referência internacional para baixar os salários de todo o mundo. É um modelo que os empresários brasileiros estão loucos para copiar.

Além dos salários de fome, é preciso somar o trabalho infantil, as semanas de até 70 horas, a repressão patronal e sindicatos fantoches – formado por burocratas dóceis -, que explicam o sucesso do “milagre econômico” chinês.

O “paraíso dos trabalhadores”, proclamado pela propaganda do PCdoB, não passa de uma paraíso para os empresários estrangeiros que, na China, podem obter lucros com que nunca sonhariam em qualquer outro lugar. A ditadura do PC é a garantia fundamental para colocar à disposição do imperialismo milhões de trabalhadores semi-escravos que sucumbem nas fábricas estrangeiras.

Polarização
Mas o retorno do capitalismo cria também uma enorme polarização entre as classes sociais. Há enormes disparidades sociais na cidade e no campo. Os 10% mais ricos nas cidades possuem 45% da riqueza. Os 10% mais pobres possuem somente 1,4%. A restauração produz uma nova burguesia cada vez mais voraz. Desde 2006, a China é o terceiro maior mercado de consumo de produtos de luxo do mundo, com 12% do total do setor (Banco Asiático de Desenvolvimento/2006).
Sob a férrea ditadura do PC, a restauração tem produzido uma nova burguesia endinheirada. Mas também tem proporcionado o surgimento de um novo e enorme proletariado.

Tragédias como a de Shandong comprimem cada vez mais na miséria e na absoluta exploração os trabalhadores do país. Até quando vão agüentar? A história ainda não deu seu veredicto final. A última palavra está com o imenso proletariado chinês.

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