Tomie Ohtake: a primeira dama da arte brasileira


Dona de uma inventividade inabalável, mesmo como uma aparência frágil, aquela que parecia nunca se cansar enfim encerra sua produção. Aos 101 anos de idade e ainda na ativa, faleceu ontem Tomie Ohtake, a “primeira dama da arte brasileira”, como a chamou o crítico Agnaldo Farias.

Sexta e última filha do casal Inosuke Nakakubo e Kimi Nakakubo, Tomie Nakakubo nasceu em 1913. A família de prósperos madeireiros morava na cidade de Kyoto, no Japão. Graças isso, Tomie pode se dedicar desde cedo às tradições japonesas e também ao inglês, ao piano e à aquarela. “Na educação japonesa, é dada muita importância às artes. Daí minha familiaridade e meu gosto por arte”, justificava.

Em 1936, veio ao Brasil visitar um irmão que morava e trabalhava em São Paulo. Entretanto, a viagem de férias que duraria alguns meses, acabou se tornando definitiva. Isso porque o Japão atacou a China, dando início à Guerra do Pacífico (1937-45). Já convivendo com a comunidade japonesa aqui instalada, no mesmo ano em que chega no país conhece e se casa com Ushio Ohtake, agrônomo com quem teve dois filhos.  São eles Ruy (1938) e Ricardo Ohtake (1942) – arquiteto e designer gráfico renomados no Brasil, respectivamente.

Na década de 40 as coisas continuavam difíceis. O Japão havia se aliado à Alemanha nazista e à Itália fascista durante a Segunda Guerra (constituindo o bloco conhecido como Eixo), tornando-se adversário do Brasil (que só aderiu formalmente à guerra em agosto de 1942, integrando o bloco dos Aliados – encabeçado por Estados Unidos e União Soviética). O país era comandado pelo ditador Getúlio Vargas, um nacionalista que não hesitou em perseguir os imigrantes. Nessa época, inclusive, os japoneses chegaram a ser expulsos do bairro da Liberdade, em São Paulo. Tomie só pôde rever sua família e sua terra natal em 1951.


Mural no Edifício Santa Mônica, ao lado do Largo da Memória e da estação de metrô Anhangabaú

O começo da carreira
Em 1952, a convite do crítico Osório César, o artista japonês Keiya Sugano veio ao Brasil para expor no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Sugano se hospedou em várias casas da comunidade nipônica, dentre elas a do casal Ohtake. Como retribuição, oferecia aulas de pintura e desenho. É aí que, já com seus 38 anos, Tomie começa a se dedicar à pintura sob a influência de Sugano, que via em Tomie um grande talento. “Criança cresce sozinha”, dizia ele recomendando que Tomie deixasse de lado a criação dos filhos para se dedicar à pintura.

Tomie começa se dedicando à pintura figurativa, condizente com o que estava se produzindo no seu tempo, marcado pelo refluxo dos ímpetos radicais das vanguardas modernista. É nessa época que surge o Grupo Santa Helena, do qual fazia parte artistas como Alfredo Volpi (1896-1988), Aldo Bonadei (1906-74), Francisco Rebolo (1902-80) e outros. Esse grupo chegou a influenciar as primeiras obras de Tomie e, embora amiga pessoal de vários desses artistas, e em especial, de Volpi, a artista nunca se identificou por completo com o grupo.

Na verdade, Tomie se aproximara do grupo Seibi, que reunia artistas nipo-brasileiros como Tomoo Handa (1906-96) e Walter Tanaka (1910-70). A primeira exposição do grupo foi em 1938, mas, com as restrições de guerra, qualquer tipo de manifestação coletiva ficava suspenso. As atividades só foram retomadas em 1947, quando novos artistas aderiram ao grupo. Em 1952, o grupo realiza o I Salão Nipo-Brasileiro de Artes do Grupo Seibi. Essa é a primeira exposição que Tomie participa. Dos 14 realizados, ela participou anualmente, expondo da quarta a nona edição, entre 1958 e 1965.

Da figuração à abstração
Muitos críticos, como João Spinelli, consideram como fator decisivo no abstracionismo de Tomie Ohtake a sua origem japonesa, uma vez que lá, ao contrário do Ocidente não há uma rígida separação entre abstracionismo e figuração. Todavia, considerar sua obra exclusivamente do ponto de vista étnico seria cair num reducionismo.

Durante a década de 50, quando as correntes abstratas estavam em ascensão no Brasil, Tomie chegou a se aproximar dos “concretistas”, como Waldemar Cordeiro (1925-73), do grupo Ruptura.  Resultado dessa influência é a aparição em suas obras de formas geométricas, típicas do raciocínio estético desses grupos. Entretanto, suas formas são marcadas por linhas descontínuas, preservando ao lado da racionalidade estética o gesto intuitivo, humano, com pinceladas soltas e orgânicas. Tomie considerava essas tendências “muito frias”. O grupo Ruptura, por exemplo, defendia em seu manifesto a automação e produção em série da arte. Sua afinidade maior se dá com os tachistas (do francês, taches, técnica que utiliza formas que lembram manchas) como Wega Nery e Manabu Mabe. No Brasil o movimento ficou conhecido como informalismo.

Entre 1959 e 62, sob a influência do crítico Mário Pedrosa, desenvolve a série Pinturas Cegas. Pintando com os olhos vendados, a artista rompia de vez com a concepção pictórica centrada no olhar, explorando os aspectos corpóreos e matérias da pintura. Em 1962, Ohtake recebe a medalha de ouro no XI Salão Paulista, consagrando-se de vez como artista abstrata. A partir disso sua carreira deslancha, recebendo inúmeros prêmios. Entre eles estão duas vezes o Prêmio de Melhor Pintor do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Prêmio Nacional de Artes Plásticas do Ministério da Cultura, Prêmio Personalidade Artística do Ano, entre outros. Em 1968 naturaliza-se brasileiras e em 1969, junto com outros artistas, se recusam a participar da X Bienal de São Paulo em protesto contra a Ditadura Militar.


Monumento em homenagem aos 80 anos da imigração japonesa para o Brasil

A arte pública
Mesmo toda essa fama e reconhecimento não foram suficientes para enclausurar a obra de Tomie Ohtake. Ela sempre afirmava ter a “sensação de nunca conseguir chegar ao sucesso e ao reconhecimento e ficar lá, porque sempre aparece uma nova questão que me tira do lugar que eu tinha acabado de conquistar”.

Tomie também se dedicou à gravura, à escultura e a outras formas de arte. São de sua autoria, por exemplo, o gigantesco painel de 70 metros (1989) em tapeçaria no Auditório do Memorial da América Latina. Bem como o painel amarelado de 1400 m² instalado no Edifício Santa Mônica (1984), ao lado da Largo da Memória no Anhangabaú. Obra que até hoje marca a paisagem, desafiando a metrópole cinzenta com todo seu cromatismo. Na avenida 23 de maio, em frente ao Centro Cultural de São Paulo, são suas as quatro ondas de concreto (1988), com 30 metros cada, representando as quatro gerações de imigrantes nipônicos no Brasil e celebrando os 80 anos da migração. No Rio de Janeiro, na lagoa Rodrigo de Freitas, é possível ver uma de suas esculturas. Trata-se de uma escultura “flutuante” em formato de estrela, pesando 17 toneladas.

É sua também a escultura monumental no Auditório de Parque Ibirapuera. A obra foi realizada em 2004 em parceria com Oscar Niemeyer. O arquiteto, que conhecia o talento da artista, apresentou-lhe a maquete do projeto e fez o convite para Tomie Ohtake. A obra, entretanto, superou as expectativas. Niemeyer, inclusive, fez uma modificação na rampa que leva para o Auditório a fim de privilegiar a escultura. Como em suas telas – só que aqui com dimensão, escala e potência extraordinária – a escultura repete o gesto humano e intuitivo, se assemelhando a uma gigante pincelada. Escultura e arquitetura parecem uma só obra.

O legado de Tomie
Além de ter marcado a cara da capital paulista com suas esculturas e obras gigantescas, é possível ver facilmente algumas de suas no MASP e no MAM de São Paulo. Também possui obras no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Araxá, Japão e em outras partes do mundo.

Além de uma importante artista, Tomie Ohtake foi uma grande mulher. Enfrentou a educação e cultura tradicionalista oriental e as restrições impostas pela guerra. Começou sua carreira tarde, aos 38 anos. E em um mundo machista fez-se gigante num contexto em que não se admitia mulheres nas artes. Transcendeu os museus e galerias e fez do cotidiano o cavalete para suas obras. Era dona de um espírito inventivo que nunca descansava, inabalável. Assim, da cabeça daquela pequena senhora saíam esculturas gigantescas e um número sem fim de outras obras. Todas marcadas pela leveza e humanidade.  Como ela mesma dizia: “os anos e a experiência exigem sempre novos desafios, portanto estamos sempre voltando ao zero […]. O importante é o que vamos fazer, não é possível parar”. Aos 101 anos, ainda na ativa e cheia de planos, morre Tomie Ohtake, uma das maiores artistas brasileiras.