A pandemia da Covid-19 está descontrolada. Custou mais de 846.000 vidas e acelerou a tendência a uma recessão econômica mundial só comparável com a de 1929. Milhões de trabalhadores são lançados para um abismo do desemprego, precarização trabalhista, fome e miséria. Entretanto, na contramão deste panorama desesperador, as gigantes da tecnologia aumentaram seus lucros como nunca. Apple, Amazon ou Microsoft estão se revelando como as principais beneficiárias de um capitalismo cada vez mais parasitário e especulativo, que agora se acentua com os novos hábitos de consumo impostos pelo confinamento.

A Apple acaba de se tornar a primeira companhia na história dos EUA que alcançou dois trilhões de dólares de capitalização. A multinacional agora iguala o PIB italiano e supera economias como a brasileira. Há menos de dois anos tinha sido a primeira a ultrapassar a barreira do primeiro trilhão de dólares. A empresa da maçãzinha abriu uma distancia de 300 bilhões de dólares da Amazon, a segunda corporação estadunidense mais valiosa.

A alta da cotação da Apple na Bolsa ocorreu depois de uma apresentação de resultados que extasiou os investidores. Entre abril e junho, suas vendas aumentaram 11% em relação aos mesmos meses do ano passado. Isto rendeu um lucro líquido de 11,2 bilhões de dólares. Isto indica que a forte competência proveniente da Ásia não conseguiu truncar o desempenho do conhecido IPhone, do Tablet iPad e do laptop iMac. A receita destes produtos no primeiro trimestre deste ano aumentaram 1,7%; 31%; e 21,6%, respectivamente.

Mas o crescimento espetacular da Apple é só a fotografia de um “boom” que abarca as principais tecnologias. Em 2020, as ações da Amazon subiram quase 80%; as do Facebook, 30%; as da Alphabet (Google) quase 20%; e as da Microsoft, 36%. Outras empresas como Netflix, Slack, Paypal, Adobe ou a plataforma Zoom também estão tendo um ano excepcional.

Os lucros conjuntos da Apple, Amazon, Alphabet, Microsoft e Facebook subiram até 28 bilhões de dólares no último trimestre. A capitalização destes cinco grandes da tecnologia supõe a quinta parte do valor de todas as empresas que são cotadas nas principais Bolsas.

O rendimento destas companhias não tem nada a ver com a situação da economia mundial. A previsão é que o PIB global caia 5% em 2020. A economia estadunidense retrocedeu 9,1% no segundo trimestre. Em termos anuais, isto significaria 31,7%. Isto acentuou a crise social e política na principal potência mundial. Em fins de julho, 32.000.000 de trabalhadores tinham perdido seus empregos. A desesperadora realidade contrasta com a euforia de Wall Street, onde apostam que os pacotes de estímulo de Washington – uma “ajuda” às empresas em torno de um trilhão de dólares – serão mantidos até que a situação econômica melhore, incluindo os auxílios por desemprego, o que viabiliza um certo nível de consumo.

A hipótese da existência de uma “bolha” no setor tecnológico ganha força. De fato, esta ascensão tão meteórica como sustentada levou o Congresso estadunidense a abrir uma investigação sobre práticas monopólicas. De qualquer forma, a verdade é que Jeff Bezos (Amazon), Bill Gates (Microsoft), Mark Zuckerberg (Facebook) e Elon Musk (Tesla), somam quase 500 bilhões de dólares de patrimônio. Há alguns dias, a revista Forbes informou que Bezos é o primeiro ser humano que alcança uma fortuna de 205 bilhões de dólares. Um fato obsceno, mas completamente “normal” em termos capitalistas. Um fato completamente racional no contexto da irracionalidade capitalista. Não esqueçamos que 2.153 indivíduos concentram mais riqueza que 60% da população mundial (4,5 bilhões de pessoas).

Jeff Bezos, o homem mais rico do planeta

Pode-se dizer que este punhado de magnatas encarna a essência do capitalismo: cada infectado, cada morte, cada paciente não atendido por falta de infraestrutura hospitalar, cada desempregado… fortalece um sistema movido por uma insaciável sede de lucro.

Uma última reflexão. Isto é ainda mais escandaloso quando é sabido que estas empresas de tecnologia estão intimamente ligadas ao trabalho escravo, principalmente infantil.

Em 2014, a BBC publicou uma investigação em fábricas de produtos Apple na China e na Indonésia. O documentário revelou péssimas condições de trabalho, assim como o emprego de crianças[1].

Na Indonésia, as crianças extraem estanho de poços de barro, correndo o risco de morrer pelos frequentes deslizamentos de terra. A Apple possui ilhas artificiais ilegais na Indonésia. Dragas da empresa retiram a areia e o coral do fundo do mar para conseguir estanho. No programa, um cientista marinho explicou que o coral não volta a crescer. A BBC também mostrou cadáveres de trabalhadores da mineração que trabalhavam para a Apple; operários que têm que trabalhar 18 horas sem descanso, muitos deles dormindo na própria fábrica.

Em 2019, a organização International Rights Advocates entrou com uma ação nos EUA na qual acusa a Apple, Google, Tesla e Microsoft de “ter conhecimento” e de contribuir com a escravidão infantil toda vez que a utiliza na extração de cobalto. A denúncia foi formulada em nome de quatorze famílias congolesas que perderam seus filhos trabalhando nos túneis de extração ou pelo desabamento das paredes das minas. A República Democrática do Congo produz 60% do suprimento mundial de cobalto, um mineral chave para as baterias de íon de lítio que os dispositivos eletrônicos utilizam. Os fabricantes de baterias de lítio usam 45% da produção mundial de cobalto. Mas ele também é empregado em motores de aviões, foguetes, centrais nucleares, turbinas, ferramentas de corte, inclusive próteses artificiais de quadril. É um mineral essencial na vida moderna. Não em vão os investidores o batizaram de “ouro azul”.

A UNICEF estima que há aproximadamente 40.000 crianças trabalhando nas minas no sul deste país africano, por um ou dois dólares por dia.

Outras companhias que aparecem na ação da International Rights Advocates são a fabricante de computadores Dell e duas companhias de mineração, Zhejiang Huayou Cobalt e Glencore, proprietárias dos campos onde as famílias congolesas alegam que seus filhos trabalhavam.

Um iPhone ou um iPad podem ser mercadorias modernas, sofisticadas e cobiçadas, mas seu processo de produção esconde sangue, suor e lágrimas causados por uma brutal exploração em áreas periféricas do capitalismo.

É imperioso que a classe trabalhadora assuma uma estratégia revolucionária que exproprie estas empresas e coloque seus recursos à disposição de um plano econômico socialista que tenha como objetivo que seja a humanidade – não alguns indivíduos que podem ser contados nos dedos da mão – que controle o desenvolvimento, a produção e a socialização dos avanços tecnológicos, e que estes sejam colocados ao serviço de satisfazer as necessidades do conjunto da população em todo o mundo.

Nota:

[1] Consulte: <https://www.bbc.com/news/av/business-30540538 >.

Tradução: Lilian Enck