Em 1973, O Brasil se ligava pela primeira vez na revista semanal da Globo, o Fantástico, exibido até hoje no mesmo horário do final de domingo. A emissora não poupou estrelas e decidiu chamar uma série de artistas para compor a abertura e um bloco de shows. Desfilaram Clara Nunes, Wanderley Cardoso, Diana Ross and the Supremes, e um grupo até então inédito, que começava a chamar a atenção com um disco de estreia dotado de uma capa com as cabeças dos integrantes e os rostos pintados, servidos como um banquete de luxo.

Ainda que todos os artistas fossem mais famosos, nenhum show exibido causou impacto como dessa banda. João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, explicou recentemente durante uma entrevista com o vocalista da Nação Zumbi, Jorge Du Peixe: “Eu tinha dez anos e fiquei hipnotizado. Aquela figura, que eu não conseguia dizer se era homem ou mulher, rebolando com o rosto pintado, cantando com uma voz aguda me deixou em choque”. Jorge balança a cabeça assertivo, falando da oportunidade que teve de gravar “Amor” com o agora ex-vocalista dos Secos e Molhados quarenta anos depois: Ney Matogrosso.

Ney e os Secos e Molhados não causaram esse impacto só nos dois vocalistas. A gravadora, descrente de qualquer sucesso de um grupo tão diverso, prensou pouco mais de mil cópias do disco. Porém, depois dessa aparição, chegou a esgotar o estoque de vinil da fábrica e foi obrigada a derreter outros vinis para ter mais matéria-prima. Somente no ano de estreia, foram vendidas mais de 300 mil cópias, desbancando Roberto Carlos do primeiro lugar das paradas. O sucesso meteórico, porém, trouxe retornos financeiros irrisórios e o Secos se mostrou insuficiente para Ney, que pouco depois de um ano desse estouro, partiu para uma carreira solo. Era uma atitude arriscada, típica de um artista que se recusa até hoje a ir com a maré e seguir padrões. Os Secos e Molhados seguiram seu trajeto. E Ney Matogrosso levou consigo o holofote que carrega até hoje.

Botando o bloco na Rua

Ney de Souza Pereira nasceu no Mato Grosso do Sul em 1941. Filho de militar, teve uma infância nômade, viajando com a família. Durante anos, sua única referência LGBTI foi uma trans de Campo Grande, capital do estado. Tímido, consumia tudo sobre arte que tinha alcance: discos, peças de teatro, artesanato, adquirindo um repertório considerável para a região. Foi nessa época que ensaiou as primeiras apresentações com um grupo de amigos, e passou a ter desavenças com sua figura paterna: “Basicamente eu era criado como um recruta dele. Era insuportável, e desde muito pequeno fui o único filho a enfrentá-lo”. Quando completou 18 anos, se alistou na base aeronáutica na vila militar em que morava, e pediu transferência imediatamente para o Rio de Janeiro: “Ali tomei controle da minha vida. Meu pai jurou que nunca me daria um centavo, e por diversas vezes voltou atrás ao ver minha situação no Rio. Nunca aceitei”. Foi nessa transferência que Ney se assumiu gay e passou a frequentar a cena artística carioca.

Ney passaria uns anos perambulando entre a vida como artista e uma carreira como funcionário público, até se decidir pela primeira, se mudando para São Paulo no final dos anos 60. Lá fazia de tudo, vendendo artesanato na Rua Augusta e ralando nos teatros da cidade, tornando-se um exímio iluminador. Nessa época, é indicado por uma amiga a João Ricardo, violonista do grupo Secos e Molhados. Ney aceita, mas recusa a condição de João para subir no palco: “Ele queria que eu entrasse com uma boina de Che Guevara e recusei. Na época, andava muito na Liberdade, no centro de São Paulo, e via aquelas máscaras kabuki do teatro japonês. Decidi que me montaria assim”.

“Eu entrava no palco soltando fogo pela venta”

Todos os integrantes do Secos e Molhados vinham de uma passagem nas Artes Cênicas, e as apresentações iniciais foram no teatro. Após um ano ensaiando e criando seu show, se tornam o grupo da casa no teatro Ruth Escobar, no Bixiga. Com um pequeno sucesso, são chamados a gravar e lançam seu primeiro disco em 1973, se catapultando para as paradas por causa da exibição na Globo. Aos 31 anos, Ney realizava as apresentações mais provocativas na ditadura: “Eu entrava no palco soltando fogo pela venta, exigindo o direito de me manifestar com liberdade”.

A carreira meteórica dos Secos e Molhados foi proporcional ao seu impacto. Em apenas dois anos, saltaram do Ruth Escobar direto para o Maracanãzinho, com 30 mil pessoas dentro e mais 60 mil do lado de fora. Nessa época, chegaram a ser sensação na TV mexicana, de onde surgiu o famoso boato que as máscaras do Kiss teriam sido roubadas deles: “Quem espalhou isso foi é Rodrix. O que aconteceu, e não nego nem confirmo o que ele disse, foi que quando estávamos lá, queriam me lançar como cantor solo nos Estados Unidos. Mas, teria que cantar em inglês e com um som mais pesado. Recusei”. Após essa ascensão, começa a se aventurar em carreira solo.

Inicialmente atrelado ao personagem criado para o Secos e Molhados, lançou o “Água do Céu-Pássaro”. O disco renderia poucos sucessos, tendo a música Cubanacan revivida nos anos 2000 por uma novela da Globo. Na mesma época, grava com Astor Piazzolla, músico argentino. Amplia seu repertório, misturando do rock ao tango em seus discos. Entre intimações da ditadura e escândalos na imprensa, o cantor impôs sua candidatura no combate, se impondo no palco: “Hoje olhando para trás, não sei porque não fui pego. Nessa época, começaram a subir a idade dos meus shows. Primeiro, cortaram as crianças e foi para 12, 14, 16, 18. Minha promessa era que se batesse os 21, subiria pelado”. Mesmo assim, emplacaria o final dos anos 1970 com seu grande sucesso: “Homem com H”. Também era figura assídua no programa Trapalhões, sucesso de humor na televisão: “Nunca me senti desrespeitado. Todos ali eram artistas e tínhamos um respeito mútuo. Adora me apresentar com eles”.

Maturidade e contestação

Se os anos 1980 marcam o início de uma carreira mais sóbria, mas não menor em qualidade, a língua afiada de Ney nunca se calou, e nem sua postura. Contestador por si só, se posicionou de frente contra todo o comportamento careta e LGBTIfóbico ao longo dos anos. É mais que necessário lembrar a imposição machista e retrógrada do Brasil em 2021, marcado pela pandemia de COVID-19 e as falas absurdas de Bolsonaro, que já afirmou em bom som que: “ter filho gay é falta de porrada”. Em uma época em que isso era regra e seria amplamente aceito em todos os setores, no palco Ney Matogrosso era um grito de liberdade reprimido nos anos de chumbo, e sua voz ecoava nos setores mais populares. Prova disso foi em 1976, quando foi escolhido como cantor favorito em um presídio do Rio durante a escolha para um show de música local.

Nos anos 80 no Rock In Rio, encarou uma plateia furiosa ávida por Iron Maiden e Queen. O que começou como vaias e garrafas terminou com uma salva de aplausos: “O Erasmo Carlos desistiu. Mas eu não ia deixar barato não”. Vitor Birner, ex-músico e atual jornalista no ESPN, comentou em outra entrevista: “Estava no show e lembro que depois da apresentação do Iron, diversas pessoas saíram e não quiseram sequer ver o Queen. Mas quando Ney Matogrosso tocou antes, todos assistiram. Era um cara muito respeitado por causa da ditadura”.

Nessa época, volta aos palcos do teatro com um show mais sóbrio, e passa a explorar outra faceta de sua carreira, sem maquiagem e uma banda menor. Alternando entre ambos formatos, atravessa os anos seguintes chegando aos anos 2000 no auge de sua performance. Após o álbum Batuque (2001), onde homenageia a cantora Carmem Miranda. Em 2003, lança Ney Matogrosso canta Cartola (2003). A turnê é um sucesso, rendendo um DVD do show ano seguinte. Como disse em uma entrevista recente, falando da turnê Bloco na Rua, cancelada por conta da pandemia e falando de seu novo disco aos 80 anos: “Sou um cantor. Um cantor de música brasileira, com muito orgulho”.

Controvérsias e reconhecimento

Hoje, sem dúvidas, Ney Matogrosso é um consenso. Mas, ainda que não atuando diretamente, se fez fundamental como símbolo contra as repressões e a liberdade que a ditadura impunha à classe trabalhadora. Em 1978, com a explosão de greves Brasil afora e seu som sendo uma das trilhas do momento, uma carta chegou à mesa de Figueredo: “Como criar os filhos diante de tanta depravação? (…) não devemos e não podemos ficar de cruzados a espera do pior, temos que nos opor com todas as forças e sem vacilações a essas idiotices mórbidas, que tanto deturpam e desmoralizam os costumes”. Em entrevista ao jornal Lampião em 1979, publicação fundamental no movimento LGBTI na época, afirma “Eu quero ter o direito de existir”, se a minha vida ajudar outras pessoas, se o fato de eu me expor como me exponho pode ajudar outras pessoas tudo bem. Agora, não me coloquem estandarte nas mãos de jeito nenhum, pelo amor de Deus, porque não arco com nenhum deles”.

No país que mais mata LGBTI´s do mundo, acreditamos ser fundamental a organização de todas pelo direito de existir e na luta da classe trabalhadora contra a exploração capitalista. Sabemos que as LGBTI ocupam os postos de trabalho mais precários do país, e no Brasil de Bolsonaro, abertamente LGBTIfóbico, mais do que nunca a unidade por uma sociedade que não nos reprima até a morte só por lucro se faz fundamental. Ney, ainda que revele suas contradições, a fez como poucos: de peito aberto. Um artista que, ao longo de mais de sessenta anos de carreira e encarou o mundo para existir como um dos maiores gigantes da música brasileira, lúcido e produtivo.

Se de um lado o próprio nunca aceitou ser um “símbolo”, mesmo sendo o único em uma época que qualquer atrevimento era cabível de morte, como o próprio afirma: “Me enquadrar como ‘o gay’ seria muito confortável para o sistema”, não sendo rótulo para oportunistas que se usam de um discurso puramente identitário para se lançarem a candidatos. Ele é, em última instância, um artista. E quando sobe ao palco, fala por todos nós. Nada mais justo que uma homenagem a um de nossos maiores gigantes. Viva Ney!