Stroessner morre na impunidade

Morreu no dia 16, em Brasília, o ex-ditador do Paraguai Alfredo Stroessner. Exilado no Brasil desde 1989, ele possui um histórico repleto de sangue e terror. O exílio dourado, desfrutando das riquezas roubadas durante sua ditadura no Paraguai, mostra ainda a cumplicidade dos governos brasileiros.

Essa história inicia-se em 1954, quando Stroessner, então comandante em chefe das Forças Armadas do Paraguai, lidera um golpe de Estado e toma o poder. A ditadura durou 34 anos. Stroessner foi somente deposto em fevereiro de 1989, por um golpe liderado pelo general Andrés Rodríguez. A pedido do próprio Rodríguez, o então presidente do Brasil, José Sarney, concede asilo político ao ditador, impedindo que Stroessner fosse julgado por seus crimes no Paraguai.

Ditadura sanguinária
Stroessner era considerado um político próximo do governo brasileiro, seja na ditadura ou na “redemocratização” dos anos 80. Antes de chegar ao poder, o ex-ditador freqüentou a Escola de Alto Comando do Exército, no Rio de Janeiro, tendo aulas com o futuro ditador do Brasil, Geisel.

Documentos encontrados no Departamento de Investigações da Polícia de Assunção, em dezembro de 1992, comprovam que já em 1958 havia pelo menos 14 lugares de confinamento de opositores políticos transformados em verdadeiros campos de concentração. Neles, a tortura já era rotineira.

Nesse mesmo ano, o movimento sindical do país inicia uma campanha, liderada pela Confederação Geral de Trabalhadores, pelo fim do estado de sítio que culminou na greve geral de 27 de agosto. A repressão atingiu o movimento e vários dirigentes foram presos. Muitos “desapareceram” nos porões da ditadura. Outros foram condenados a três anos de prisão, mas ficaram detidos por cerca de duas décadas.
O estado de sítio, que permaneceu em vigor durante toda a ditadura de Stroessner, permitia a não aplicação dos direitos fundamentais, incluindo a prisão por tempo indeterminado, independente de julgamento.

Em 1959, o movimento estudantil entrou em cena reivindicando a democratização. Uma onda de repressão culminaria em várias detenções e na dissolução do parlamento.

Em 1976 foi encontrado o chamado “Arquivo do Terror”, constituído por cinco toneladas de documentos, entre eles uma ficha do então chefe do Departamento de Investigações e principal torturador do Stroessner, Pastor M. Coronel, que dizia: “O que fazer com os detidos?”. O próprio documento respondia: “10) Aplicação da Lei. 20) Desaparição Física”. O documento tinha como propósito orientar a repressão e finalizava afirmando: “Com direitos humanos ou sem direitos humanos, seguiremos no poder construindo e progredindo, orgulhosos de nosso governo e de nosso partido”.

Nessa época a ditadura já realizava uma ostensiva campanha em cartazes e outdoors com o slogan “Paz, Progresso e Bem-estar com Stroessner”.

A política de repressão não se limitava às fronteiras paraguaias. Após os golpes militares no Cone Sul, durante as décadas de 60 e 70, intensificaram-se as articulações entre as ditaduras com o objetivo de combater os oposicionistas, culminando com o plano conhecido como Operação Condor. A operação articulada entre os governos de Brasil, Chile, Argentina e Uruguai foi responsável pela perseguição, tortura e assassinato de militantes de esquerda.

Grandes negócios
Stroessner converteu o alto comando do exército paraguaio numa fábrica de novos ricos, com coronéis e generais dirigindo negócios ilegais, como contrabando e tráfico. Stroessner e sua família acumularam uma espantosa riqueza. Dirigindo negócios em inúmeros setores da economia, de bancos, empreiteiras e agronegócio, até casas de jogos, no país e no exterior, acumulou algo próximo de US$ 4 bilhões, uma das maiores fortunas da América Latina.

A notícia da morte do ex-ditador foi recebida com alegria pela população paraguaia. O bispo de San Juan Bautista, Monsenhor Mario Melanio Media, chegou a declarar à imprensa: “Nada de resignação cristã: o mundo está contente com a morte do sanguinário ditador”. Segundo o religioso, a ditadura matou famílias inteiras de sua paróquia. “Ele foi terrorista. Foi uma pessoa que mandou matar muitos paraguaios. Exilou compatriotas e muitos morreram longe de sua pátria. Aqui não cabe outro qualificativo: a Stroessner se deve chamar por seu nome”, disse. Apesar de uma farta documentação sobre os anos de terror, historiadores não sabem ainda o total de presos, torturados e mortos.

Refúgio de ditadores
Stroessner já vai tarde. Porém, ainda restam muitos ditadores por aí, como Fujimori e Pinochet. Graças aos governos brasileiros, Stroessner seguiu impune, aproveitando o dinheiro que roubou em uma mansão no Lago Sul de Brasília e nas praias de Fortaleza. E o governo Lula – que se recusa a abrir os arquivos da ditadura – também deixou o assassino impune.

Post author Diego Cruz e Jeferson Choma, da redação
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