Foto do Instagram de Filipe Ferreira. Reprodução do Estadão.

Dois casos de agressões praticadas por PMs contra homens negros viralizaram pelas redes sociais neste fim de semana.

Um desses aconteceu em São Paulo, quando policiais pararam quatro jovens negros, os ameaçaram, os insultaram e os agrediram. Um dos policiais disse para um dos jovens: “tá pensando que você é quem? Quem é você aqui, rapaz? Você não é ninguém! Baixa a bola, negão. Baixa a bola. Pra mim você não é porra nenhuma mesmo, não!”. Logo após um dos jovens ter dito que os policiais estavam sendo racistas, um dos PMs deu um soco em um dos jovens que desabou no chão desacordado.

O outro caso aconteceu no interior de Goiás onde o ciclista negro, Filipe Ferreira, filmava manobras de bike para postar no YouTube. Ele foi abordado, ameaçado e algemado sem ter feito absolutamente nada, a não ser dito “tô filmando aqui meu rolê!”. Ele chegou, inclusive, a tirar a camiseta para mostrar que não estava armado. E mesmo sem oferecer qualquer resistência, Filipe ainda foi ameaçado pelo policial que esbravejou com arma em punho: “resiste pra você ver o que vai acontecer contigo”.

O que há em comum entre esses dois casos? O racismo!

Não se trata de excesso da polícia, afinal isso tem sido uma regra. Todo mundo sabe que quando um soldado desobedece aos seus superiores eles são imediatamente punidos, às vezes presos ou até expulsos da corporação. Então, por que fazem isso cotidianamente e não são punidos, mesmo com as imagens feitas de celulares provando e comprovando essas ações? Nada acontece, porque eles estão cumprindo ordens de seus superiores.

A PM é, em sua essência, uma instituição racista porque seus comandantes são racistas. Impera entre os mesmos uma teoria e um projeto que ganharam muita força desde a abolição da escravidão: a teoria de que o negro é um individuo de alma degenerada; um ser estruturalmente perverso, portanto, incorrigível. Sendo assim, a politica preventiva deve ser vigiá-lo, isolá-lo ou eliminá-lo. Repressão, cárcere e extermínio físico.

Assim, o problema não estaria na estrutura da sociedade capitalista, essencialmente desigual e violenta, mas na personalidade do negro, estruturalmente perverso. Os negros pobres é que devem ser ajustados a este tipo de sociedade. Já que é ele o problema e não a forma de organização da sociedade capitalista.

Jacarezinho foi expressão disso. Dos 200 policiais envolvidos na chacina, apenas 20 deram depoimentos e dificilmente haverá punições. Do presidente Bolsonaro, passando pelo vice Mourão, até o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, todos defenderam aquela chacina negra como necessária.

O racismo se aprofunda, mas a reação a ele tende a crescer também

Essa situação tem se intensificado nos últimos anos em razão do aprofundamento da crise do capitalismo e do tipo de governo abertamente racista e genocida. Bolsonaro não esconde ser antinegro, apesar de negar ser racista. Isso empodera a PM a agir com mais violência contra negros e negras. O Pacote anticrime do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro deu ainda mais guarida para esse tipo de ação, um pacote que, infelizmente, contou com o apoio do PCdoB, PT e PSOL.

Mas se Bolsonaro é assim, os governadores também não agem muito diferente. Dória (PSDB) chegou a declarar durante a campanha eleitoral de 2018 que a sua polícia seria orientada a atirar para matar, como se isso fosse uma novidade.

Porém, por outro lado, há uma forte reação por parte da população. Fosse em outros tempos não haveria uma reação tão forte em cadeia nacional contra o massacre do Jacarezinho. As crescentes denuncias de casos de racismos devem ser canalizadas também contra os que estão no andar de cima.

Devemos exigir que esses policiais e seus comandantes sejam afastados da corporação, julgados e punidos. Não podemos mais conviver com aqueles nos elegem como ameaça, justamente para nos punir e nos assassinar.

Toda a energia que a luta antirracista impôs ao mundo desde o assassinato de George Floyd deve ser canalizada nessa direção. Não devemos deixar passar batido mais nenhum desses casos de racismo, mas é preciso ir ao seu centro de irradiação: a burguesia e seu sistema capitalista.

As desigualdades estão crescendo com a crise econômica e a ameaça de explosão social é cada vez maior. E para manter seus privilégios a burguesia deste país se apega ao que tem de mais reacionário, e nisso a violência racista tende a cumprir um papel importante. O soco de graça no rosto e as algemas sem necessidade no pulso, têm lá suas bases materiais. Por mais que não consigamos perceber de imediato, ambos estão relacionado à necessidade de manter esse tipo de sociedade capitalista, porque ela não se sustenta sem ser violenta e racista, portanto, nós não devemos mais sustentá-la.

Uma coisa está ligada a outra e nossas lutas contra ambas devem também ser combinadas. E não só a luta dos negros, mas do conjunto dos trabalhadores, pois é um problema do conjunto da nossa classe que afeta a sua maioria absoluta.

Aliás, temos até lutado cada vez mais contra o racismo, mas temos sentido que esse fardo fica cada vez mais pesado sobre nossas costas. Não seria estranho? Não! Essas práticas tendem a se alastrar quanto maior for a crise. Devemos, então, parar de lutar? Não, mas direcionar melhor as nossas lutas. Devemos nos organizar para enfrentar desde o policial violento que atua na periferia até a burguesia racista que em última instância que é a comandante maior das forças policiais e do próprio governo genocida de Bolsonaro.

Essa burguesia só será derrotada com a destruição do seu Estado e o racismo segue essa mesma lógica. Essa luta não pode ser deixada para depois da revolução, mas ser parte dela. Devemos enfrentar a violência policial na quebrada sem perder de vista por nenhum segundo a necessidade de golpear o sistema de conjunto.

Desmilitarização da polícia Já!

Controle social sobre a ação das polícias!

Abaixo o Pacote Anti-crime!

Fora Bolsonaro e Mourão!