Sobre o movimento dos “indignados” em Israel

Nas últimas semanas, houve grandes manifestações em Israel. Cerca de 300 mil pessoas protestaram contra o alto custo de vida e cortes sociais. Ha acampamentos de indignados inspirados nos jovens espanhóis. Não demorou até que várias vozes começassem a declarar que a Revolução Árabe ou a onda de manifestações da Europa haviam chegado a Israel.

A Alternativa Socialista, seção do CIO-Militant na Rússia, publicou um artigo afirmando que “A revolução na ordem do dia em Israel!”. O jornal “O Socialista”, da organização russa RSD, previu que “os últimos acontecimentos demostraram que a sociedade israelense pode mudar de caráter”. Neste artigo, procuramos explicar porque nossa opinião é diametralmente oposta a destas duas organizações.

O que é Israel?
Para entender porque em Israel não existe nenhuma revolução ao estilo das revoluções árabes, e porque “a sociedade israelense” não pode mudar de caráter, é preciso compreender que Israel não é um Estado normal. Mas será que as coisas são assim mesmo? Opinamos que a ocasião nos dá uma boa oportunidade de discutir uma vez mais a velha polêmica sobre qual deveria ser a política da classe operária para o Estado sionista.

Israel não é um estado normal, mas sim um enclave militar, isto é, um posto avançado do imperialismo (em especial do norte-americano e britânico), que se utilizou da dor do povo judeu depois do Holocausto para justificar um novo crime contra a humanidade, a expulsão de centenas de milhares de árabes da Palestina histórica e a ocupação militar de seu país e suas propriedades. É, portanto, um Estado artificial, que só se sustenta graças ao apoio econômico norte-americano (é o país que mais recebe ajuda externa), ao tráfico de armas (4º lugar no mundo), tráfico ilegal de diamantes “de sangue” (1º lugar no mundo) e a lavagem de dinheiro da máfia e dos oligarcas da Rússia (1º lugar no mundo). É um Estado militarizado, baseado na guerra permanente contra os árabes, e tem um caráter expansionista, racista e religioso.

Assim, se utiliza da opressão contra o povo palestino para maximizar os lucros da burguesia sionista, explorando-os sem dar-lhes nenhum direito. Apesar de hipocritamente chamado de pelos meios de comunicação de “a única democracia do Oriente Médio”, Israel é um Estado baseado no conceito de raça, que trata uma parte de seus habitantes (os árabes), como “inferiores”, “não cidadãos”, utilizando de métodos de guerra civil contra estes. Ou seja, cientificamente falando, por mais duro que possa parecer, é um Estado nazista, como a Alemanha de Hitler ou a África do Sul do regime do Apartheid.

Por isso, nós da LIT-QI nunca reconhecemos o direito a existência deste Estado nazi-sionista, sempre defendemos a destruição de Israel e a construção de uma Palestina laica, democrática e não racista, onde palestinos e judeus possam conviver em paz, não enquanto oprimidos e opressores, mas sim como iguais. Por essa razão sempre apoiamos a Intifada Palestina.

A solução de dois estados: uma manobra “democrática” do imperialismo
Infelizmente, essa posição não é compartilhada pela maioria das correntes de esquerda russas e internacionais.

A maioria das correntes de esquerda defende a chamada “solução dos dois Estados”, ou seja, a divisão da região em duas partes,dois estados. Aparentemente uma política justa, um Estado para os judeus e outro para os árabes, assim como há um Estado para os russos e outro para os poloneses, por exemplo. Mas as coisas não são assim. Todo o território de Israel foi roubado a força dos palestinos, obrigados a se refugiarem em campos em Gaza, Cisjordânia ou em países vizinhos. Esses lutam pelo seu direito ao retorno e de recuperarem suas casas e cidades, onde agora vivem os israelenses. Não pode haver paz enquanto não seja feita essa justiça histórica, para não falar da punição daqueles que executaram milhares de palestinos enquanto os expulsavam.

Mas não é o problema não é somente este. Como dissemos, Israel é um posto militar avançado do imperialismo, para controlar a estratégica região do Oriente Médio, onde estão 60% das reservas de petróleo do planeta. Israel só pode existir enquanto cumprir esse objetivo. Por isso, Israel não pode permitir em sua proximidade a existência de nenhum Estado que possa ameaçá-lo, menos ainda um Estado palestino.

Portanto, o tal “Estado palestino” proposto nos acordos de paz não é e nem será um Estado de verdade. É uma farsa total. Seria formado por algumas regiões desconexas onde há concentração palestina, onde o controle aéreo, marítimo e de fronteiras seria realizado por Israel “para sua segurança”. Um Estado no qual seria vetada a possibilidade de possuir um exército. Teria, no máximo, um exército fantoche, que jamais poderia ameaçar o controle israelense de suas fronteiras e da economia, cujo papel seria somente para repressão interna, contra o próprio povo palestino, que seguira em luta contra a ocupação israelense. Isso já é realizado pela polícia da Autoridade Palestina, agente vendido de Israel e do imperialismo. Na verdade, seria uma nova versão dos bantustões que existiam sob o Apartheid. Ou seja, regiões com suposta autonomia negra em um país racista dominado pela minoria branca. Seria, na verdade, grandes prisões a céu aberto, como eram os guetos judeus na Europa ocupada pelos fascistas. A política dos Acordos de Paz de Oslo é uma grande farsa, destinada a enganar e derrotar a Intifada Palestina, a revolta de sua juventude contra a ocupação.

Limites da força bruta
Todos os meios de comunicação e, infelizmente, boa parte da esquerda mundial, tentam mostrar a questão como uma luta entre setores de fato reacionários (como o governo de Israel, que não aceita a formação de um Estado palestino) e setores democráticos (como governos imperialistas europeus!), que defendem o dito Estado e os acordos de paz. Uma grande mentira! A política dos dois Estados também é a política do imperialismo e da grande maioria dos governos do mundo. Pois estes percebem que só com a força bruta Israel não está conseguindo deter a luta palestina. Israel está cada dia mais débil, foi derrotado militarmente no Líbano, em 2006, e hoje estão cercados pela revolução árabe que derruba os ditadores aliados de Israel, como Mubarak no Egito. Quando a força bruta já não dá conta, vem a reação democrática, onde o imperialismo tenta em mesas de negociação recuperar o que perdeu na luta direta.

Isso é entendido, inclusive, por uma parte importante do próprio sionismo, como deixou claro o ex-primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert: “Se chegar o dia em que a solução de dois estados fracasse, e nos virmos obrigados a fazer frente a uma luta por igualdade de direitos ao estilo sul-africano, o Estado de Israel estará acabado”.

Nem mesmo um arremedo de “Estado palestino” Israel pode permitir, com medo de que isso seja visto como uma conquista da luta do povo palestino (de fato o seria, Israel jamais o permitiria isso por “boa fé”), que deixaria claro, a todo mundo árabe, a debilidade de Israel. Talvez isso seja a melhor prova do caráter racista e expansionista de Israel, que demonstra claramente seu papel de posto militar avançado do imperialismo. Mesmo esse arremedo de um Estado palestino poderia servir como base para o fortalecimento da resistência contra a ocupação. Essa é a polêmica no seio do imperialismo e da maioria dos governos do mundo com o governo israelense. Uma diferença tática sobre como melhor subjugar a resistência palestina: por meio da linha dura do governo israelense, ou por meio de uma pequena concessão aos palestinos para desviar o foco de sua luta.

E essa polêmica tática que estará presente na discussão da ONU, em setembro, sobre o reconhecimento ou não do “Estado palestino”. Todos, de fato, estão a favor da continuidade da ocupação, contra o direito ao retorno dos refugiados palestinos, a recuperação de suas propriedades, e pela vigência do caráter policial do Estado de Israel, armado até os dentes, racista e religioso.

As ilusões na esquerda
Lamentavelmente, a maioria da esquerda mundial capitula vergonhosamente a política imperialista, assim como toda a social-democracia e correntes stalinistas. Infelizmente, no campo da esquerda marxista, as coisas não são melhores.

Recentemente lemos um artigo de KRI onde diziam exatamente o contrário, que não há que indispor israelenses contra árabes, que não há razões para incentivar divisões raciais e de credo entre eles. Defendem que é preciso unir trabalhadores árabes e judeus para lutarem juntos contra suas respectivas burguesias, e que “a questão das formas que terá o novo estado ou estados será decidida democraticamente pelos próprios árabes e judeus do Oriente Médio Socialista, onde a todos lhes será garantido plenamente os direitos nacionais”

Um belo cenário idílico, mas justamente para haver alguma discussão democrática e decisão soberana dos trabalhadores da região, antes de qualquer coisa, é preciso destruir o Estado de Israel, que impede qualquer democracia e soberania ao povo palestino, tratando-os a bala. O único caminho para o Oriente Médio Socialista passa pela destruição de Israel!

Mas não é só isso. Assim como o Estado sionista não é um Estado normal, mas sim um enclave militar, tampouco o é a classe operária que lá vive. Ao ser Israel um Estado artificial, baseado no roubo e superexploração dos palestinos, a classe operária judia em Israel é também parte da ocupação, ou seja, recebe privilégios da ocupação. Em outras palavras, tem um nível de vida melhor do que o dos trabalhadores árabes exatamente porque recebe migalhas derivadas da exploração destes, e pelo dinheiro que Israel recebe dos EUA.

Nenhuma classe operária no mundo, como já dizia Marx, luta para piorar seu nível de vida ou para perder seus privilégios. Por isso a classe operária israelense não é (e nem será) revolucionária, sequer reformista. É intrinsecamente reacionária. Seu bem-estar depende da continuidade e da ampliação da ocupação do território palestino, de seu caráter de Estado policiesco. Não se pode esperar dos trabalhadores judeus uma mudança caráter do Estado sionista, para que este deixe de ser racista e expansionista. Israel não pode ser reformado, só pode ser destruído.

É possível esperar que alguns trabalhadores e intelectuais, individualmente, cheguem a compreensão do real papel de Israel na região. Mas, como classe, não se pode esperar nada. Seria equivocado esperar que houvesse uma revolta da classe operária israelense contra o Estado sionista. Essa mudança só pode vir por meio do povo palestino, apoiado pelo conjunto dos povos árabes e com a simpatia da classe operária mundial, com a destruição de Israel. E a classe operária israelense não será uma aliada nessa luta. Será uma aliada da burguesia israelense e do imperialismo para tentar esmagar a luta palestina.

As recentes mobilizações em Israel
Mas será que as mobilizações recentes em Israel não negam tudo isso? Será que mostram que, apesar de toda nossa teoria, a classe operária israelense pode, sem superar suas debilidades, cumprir um papel progressivo?

As manifestações em Israel de fato foram muito grandes, talvez as maiores desde a fundação do Estado. São manifestações contra a degradação do nível de vida dos israelenses, o aumento dos preços de moradia e contra os cortes no orçamento social. Os cortes de gastos da Saúde e Educação estão relacionados ao aumento do orçamento militar (mais de 30% do orçamento geral, relativamente, o maior do mundo). Mas nem uma palavra foi dita sobre a ocupação militar.

“Vemos a ocupação como um tema de segurança que não está relacionado com nossa causa por justiça social”, disse Hadas Kouchalevich, dirigente da União de Estudantes de Israel. Na medida em que o movimento cresce, se torna mais inclusivo, mas não de palestinos (como quer nos fazer acreditar o artigo do jornal russo Alternativa Socialista. Em seu lugar, colonos judeus são agora benvindos ao protesto. O grande assentamento de Ariel é um exemplo: foi construído sobre centenas de hectares de terra confiscada dos palestinos e cercado pelo muro de separação israelense, isolando-os de sete aldeias palestinas próximas. Ariel está construído diretamente sobre um dos maiores aquíferos da região. Em agosto deste ano, o governo israelense aprovou a construção de 277 novas moradias em Ariel. Em 13 de agosto, quando os dirigentes do protesto declararam uma “expansão até a periferia” de Israel, Ariel realizou sua primeira manifestação por justiça social, na qual centenas de residentes descontentes exigiram preços mais baixos das moradias. O movimento dos indignados apoiou o protesto em Ariel.

Além de tudo, os principais rabinos do nacionalismo religioso e figuras destacadas da ultradireita têm colocado na mesa sua solução para o déficit de casas: erguê-las sobre o território ocupado dos palestinos. “Graças às 350 mil pessoas que vivem em Judéia e Samaria (nomes bíblicos usados pelos sionistas para denominar a Cisjordânia) os preços das casas em Israel são mais baixos”, adverte Roni Arzi, porta-voz do conselho de colonos Yesha. Segundo ele, um dos problemas por trás da alta dos preços é que “o governo manteve paralizado, nos dois últimos anos, a concessão de novas licenças de construção” na Cisjordânia.

Desde que se iniciaram os acampamentos de indignados nas principais cidades do país, o governo israelense fez dois anúncios de aprovação de novas moradias em territórios palestinos. O Comitê de Planificação do Ministério do Interior deu sinal verde, há uma semana, para a edificação de 930 casas na colonia judaica de Har Homa, perto de Belém, como uma medida que o ministro de Interior, Eli Yishai, vinculou diretamente aos protestos sociais.

O aumento de preços das moradias é produto da especulação, pois não há moradias nem terras suficientes para todos. Quer dizer, a saída para baixar os preços, sem alterar o caráter do Estado sionista, é ampliar a ocupação, tomando mais terras e casas palestinas e aumentando sua exploração. Ou seja, ou a luta atual dos trabalhadores se dirigirá contra o caráter sionista do Estado (algo pouco provável), ou se converterá, mais cedo ou mais tarde, numa luta reacionária para aprofundar a colonização das terras palestinas – o que já é agitado pelas correntes mais a direita em Israel nos acampamentos de “indignados”.

Israel e a revolução árabe
Mas há alguma relação entre a luta dos indignados israelenses e a revolução árabe? Há sim, e muito profunda. A revolução árabe é a culminação de um processo que já vem de vários anos de debilitamento do outrora “invencível” Estado sionista. As duas Intifadas palestinas, a derrota no sul do Líbano, a retomada pela Síria das Colinas de Golã, e agora, a revolução árabe que abala toda a estabilidade da região, em especial os principais aliados de Israel, deixam a ocupação israelense numa posição cada vez mais vulnerável e insustentável. Os cortes de gastos para saúde e educação estão relacionados ao aumento do orçamento militar (um dos maiores do mundo), e os aumentos dos custos de moradia com as dificuldades de aprofundar a ocupação.

E a reação dos indignados israelenses mostra que se abriram graves fissuras no campo inimigo, que a base social de apoio ao governo israelense e de sua política estão em crise. Tudo isso contribui para debilitar ainda mais Israel e fortalece a resistência palestina. Nesse sentido, é bastante progressivo no momento atual a luta que travam os trabalhadores israelenses. Mas estão limitados por um obstáculo objetivo: são parte da ocupação e não poderão ir muito longe. Assim que percebam que sua luta leva ao enfraquecimento do Estado sionista (e ao fortalecimento da resistência palestina), voltarão a apoiar a burguesia israelense em nome da “segurança nacional”. A destruição de Israel com certeza não está tão próxima para que possamos tocá-la. Contudo, também não está tão longe para que não possamos vê-la.

FONTE: www.litci.org