Sobre hinos e revoluções

Benzema, filho de argelinos, tem se recusado a cantar o hino francês

A Marselhesa foi escrita em 1792, na Revolução Francesa, em meio às batalhas na guerra contra a invasão austríaca que buscava derrubar o regime revolucionário francês; está repleta de ódio contra os reis e a nobreza: é deles o “sangue impuro” que se conclama a derramar


Têm circulado na internet algumas matérias sobre o caso de Karim Benzema, jogador da seleção francesa que se recusa a cantar A Marselhesa, o hino nacional da França, nas cerimônias de abertura dos jogos da Copa do Mundo. Segundo os sites que noticiaram o fato, Benzema se mantém calado durante a execução do hino em protesto contra os versos “Às armas, cidadãos! / Formai vossos batalhões! / Marchemos, marchemos! / Que um sangue impuro / banhe o nosso solo!”. Benzema, que é filho de imigrantes argelinos, considera a expressão “sangue impuro” um desrespeito para com todos aqueles cidadão franceses de origem estrangeira, principalmente os oriundos das antigas colônias africanas, que vivem hoje na França e constroem a riqueza daquele país. Embora hoje em dia a internet esteja repleta de falsas notícias, este caso específico parece ser verdadeiro, já que são bem conhecidos os ataques de Jean Marie Le Pen, representante da extrema-direita francesa, contra vários atletas de distintos esportes que não cantam o hino nacional francês em cerimônias. Em outra ocasião, a direita francesa chegou a propor que se limitasse em 30% o percentual de atletas de origem africana na Federação Francesa de Futebol. Difícil imaginar um racismo mais descarado…
 
Não é de se admirar, portanto, que inúmeros atletas não se sintam representados pelo hino nacional francês e se recusem a cantá-lo. Mais do que isso, qualquer jovem imigrante da periferia de Paris tem hoje todos os motivos para odiar o Estado francês, seu serviço de imigração, sua polícia, sua bandeira, seu hino e todos os seus símbolos. Em tempos nos quais uma das “grandes sensações” da Copa do Mundo é o hino do Brasil cantado “à capela” pela torcida brasileira, é preciso que se diga algo elementar, ainda que impopular: ninguém deve ser obrigado a reproduzir ou cultuar qualquer símbolo de um Estado que o oprime ou oprimiu seus ancestrais ou simplesmente não o representa. A lei brasileira, que desde 2009 obriga todos os alunos da rede pública de ensino, pelo menos uma vez por semana, a cantar o hino nacional, é um enorme retrocesso; lembra as imposições patrióticas da época da ditadura e deve ser combatida por todo democrata sincero. Muito mais útil e benéfico para os alunos das escolas brasileiras e para o país seria o cumprimento da lei que obriga os governos a fornecerem merenda escolar de qualidade e a pagar um piso salarial decente para os professores. Mas o patriotismo de nossos políticos oficiais não chega a tanto…
 
A Marselhesa: a mais revolucionária das canções
Ainda assim, é preciso que se diga que no caso de A Marselhesa, a expressão “sangue impuro” não tem a conotação racista ou xenófoba que aparenta. E, portanto, Benzema – que, repetimos, tem todo o direito de não cantá-la – parece errar o alvo em seu protesto. Expliquemo-nos. A canção “Canto de Guerra para o Exército do Reno”, título original de A Marselhesa, foi escrita em 1792, em plena Revolução Francesa. Toda a canção, composta em meio às batalhas na guerra contra a invasão austríaca que buscava derrubar o regime revolucionário francês, está repleta de um profundo ódio contra os reis e a nobreza. É deles o “sangue impuro” que se conclama a derramar: dos ditadores, dos tiranos, dos escravocratas e dos torturadores. De nenhuma maneira estas palavras se dirigem aos estrangeiros em geral.
 
Depois da vitória dos revolucionários franceses sobre o exército austríaco, A Marselhesa foi reconhecida como hino nacional, mas banida por Napoleão Bonaparte durante o período imperial, devido ao seu espírito “excessivamente revolucionário”, sendo novamente restaurada como símbolo oficial da França somente em 1879, ou seja, quase cem anos depois de composta.
 
E não é de se admirar! Ora, o que dizer que uma canção que começa conclamando os cidadãos comuns a pegarem em armas contra governos tiranos? A formar batalhões? Que governo de ricos e poderosos gostaria de ter esta canção como hino oficial de Estado, sendo executada a todo momento e em cada cerimônia?
 
Mais do que o ódio aos tiranos, A Marselhesa convoca também à irmandade entre os soldados de diferentes exércitos, pois numa de suas estrofes declara: “Franceses, guerreiros magnânimos! / Contenham ou retenham os vossos golpes! / Poupai essas tristes vítimas / A contragosto armando-se contra nós.” Que incrível força tem esta poesia ainda hoje! Não há nem uma gota de xenofobia nestes versos monumentais!
 
A história que a burguesia quer esquecer
A Revolução Francesa foi a mais sangrenta e profunda de todas as revoluções. Não apenas a França, mas o continente europeu inteiro mergulhou durante décadas em uma torrente revolucionária que mudou a face do planeta, impondo em todo o mundo uma sociedade à imagem e semelhança da burguesia vitoriosa. Povos se unificaram, formando as modernas nações burguesas; reis e príncipes foram depostos, perderam suas terras e privilégios de sangue; as ciências, as artes e a economia receberam um poderoso impulso; surgiram os primeiros partidos políticos modernos; nasceram os primeiros movimentos de massas de caráter político; foi reconhecida a igualdade jurídica de todos os cidadãos; as colônias sul, centro e norte-americanas se libertaram de suas metrópoles. A revolução da burguesia contra a nobreza não fez tudo (e além disso retrocedeu muito depois de realizada), mas fez muito mais em alguns decênios do que fizeram séculos e mais séculos de desenvolvimento pacífico.
 
E tudo isso foi feito em base à mobilização das massas populares. A burguesia, sentindo confiança em suas próprias forças, convocava todo o povo à luta sem medo. Esta jovem classe de comerciantes e proprietários se via (e assim o era!) como a dirigente máxima da nação. Ela unificava todas as camadas sociais sob seu programa, sob sua direção política. Toda reivindicação justa cabia no programa da burguesia revolucionária. É das cabeças dos burgueses revolucionários desta época que saiu a ideia de que o direito à revolução, à insurgência e à revolta é um direito legítimo, inalienável de todo cidadão comum. Mais do que isso: uma obrigação de todo povo que é oprimido por um governo tirânico.
 
Hoje, mais de 200 anos depois daquelas décadas gloriosas, a burguesia tenta apagar da memória de todos os povos o caráter revolucionário de sua própria história. Mas para isso, os livros escolares precisaram ser modificados. A Idade Média, período de completo atraso e ignorância em todos os terrenos, é agora apresentada pela novíssima historiografia burguesa de forma idealizada e romântica. A monarquia, a mais podre e fétida das instituições feudais, foi novamente reabilitada e os governos burgueses não se sentem sequer constrangidos em sustentar uma corja de inúteis hereditários, como a rainha da Inglaterra ou o novo rei da Espanha. Mas o mais importante: esta nova corrente historiográfica defende abertamente o ponto de vista de que a Revolução Francesa (junto com todas as outras revoluções burguesas) não significou qualquer avanço social, político ou econômico. Afirmam que as revoluções burguesas, ao contrário, atrasaram o desenvolvimento dessas sociedades, que estavam, segundo estes “historiadores”, às portas de grandes transformações, que foram atrasadas devido à eclosão dos processos revolucionários.
 
Ou seja, o mesmo caráter eterno e imutável que os reis e príncipes atribuíam ao seu próprio poder, a burguesia agora atribui ao seu. Querem nos convencer de que a atual ordem econômica e social não pode, sob hipótese alguma, ser modificada de maneira revolucionária, radical, violenta.
 
Para os revolucionários proletários de hoje, as revoluções burguesas do passado são uma lição e um exemplo, e também uma inspiração. George Plekhanov, o velho fundador do marxismo russo, se referiu certa vez ao jovem Lenin com as seguintes palavras: “Ele é feito da mesma matéria que Robespierre”, numa comparação carinhosa com o líder revolucionário francês do partido jacobino. Trotski, o outro dirigente da Revolução Russa ao lado de Lenin, dizia que os bolcheviques (revolucionários proletários russos) eram os jacobinos do século 20. O mesmo Trotski costumava dizer que sem o estudo minucioso da Revolução Francesa por parte dos bolcheviques, a Revolução Russa jamais teria triunfado.
 
A herança das revoluções
Mas as revoluções, essas “parteiras da história”, são como as grandes estrelas do cosmos: mesmo muito tempo depois de mortas, seu brilho insiste em chegar até nós e seus ecos perseguem os nossos ouvidos. O que explica o exacerbado patriotismo e o profundo orgulho nacional de países como a França, os Estados Unidos e a Inglaterra? Não se trata apenas de que são economias imperialistas dominantes, mas também o fato de que foram nações forjadas em meio ao fogo e ao ferro das guerras e revoluções burguesas de seu tempo. O que explica a relativa consciência antiimperialista presente nas populações de muitos países latino-americanos? Não é apenas a espoliação colonial sofrida já há séculos, mas também o fato de que estes países conquistaram sua independência frente à Espanha por meio de uma gigantesca guerra revolucionária que unificou dezenas de povos em uma só luta, abarcou quase todo o continente e mudou para sempre a consciência daquelas populações.
 
O que explica, por outro lado, que o nacionalismo brasileiro seja tão tosco e infantil? Por que o hino nacional brasileiro contém tantas palavras que não são sequer compreendidas pela maioria da população? Não se trata, obviamente, de falta de patriotismo, como gostam de se lamentar alguns; nem tampouco de um baixo nível cultural do povo, como se queixam outros, mas sim do fato de que o enorme território brasileiro abrigou, desde o seu início, uma burguesia covarde, medíocre, vendida e lacaia dos interesses estrangeiros. Essa burguesia construiu uma nação sem a participação das massas populares e trabalhadoras. Nossa independência nacional não foi fruto de uma guerra revolucionária, mas de uma transição pacífica e acordada. Nosso Estado nacional – autoritário, burocrático, corrupto e ineficiente – é a expressão da fraqueza da burguesia brasileira e de sua incapacidade em unificar as forças nacionais em qualquer processo minimamente verdadeiro e genuíno.
 
No Brasil, as tarefas fundamentais da revolução burguesa (o acesso à terra, a independência nacional, a igualdade racial, o fornecimento de serviços públicos básicos como saúde transporte e educação etc.) foram abandonadas pela classe social que deveria cumpri-las: a própria burguesia. Ela preferiu fazer seus negócios com as potências estrangeiras e servir-lhes de capacho do que cumprir algum papel histórico progressivo. Será preciso uma revolução socialista neste país para que se possa fazer o que a burguesia de outros países fez há quase dois séculos. O Brasil pode vencer a Copa do Mundo e os estádios podem entoar eufóricos o hino nacional, mas nada pode esconder esta verdade: a burguesia brasileira faliu como classe social, como elemento unificador da nação. Cabe aos trabalhadores esta tarefa de magnitude histórica.
 
A revolução deles e a nossa
Mas “os proletários não têm pátria”, já dizia o Manifesto Comunista. Ou seja, os proletários brasileiros são essencialmente iguais aos proletários franceses ou argelinos porque sofrem a mesma exploração. Por isso, a revolução proletária, embora cumpra tarefas que caberiam historicamente à burguesia, já não é nacional no mesmo sentido que foram as revoluções burguesas. O proletariado não unifica a nação em oposição a outras nações, e muito menos se isola dentro de suas fronteiras nacionais em um desenvolvimento autônomo. O proletariado faz uma revolução que começa no âmbito nacional, mas que não pode sobreviver a não ser se expandindo para outros países, acabando com toda diferenciação nacional, dissolvendo as fronteiras entre os Estados e promovendo a fraternidade universal dos povos trabalhadores do mundo todo.
 
E o fará, entre outras coisas, para que os Benzemas, Balotellis e Zidanes do futuro, hoje renegados em sua própria “pátria” devido à cor de sua pele, à religião que professam ou ao sobrenome que carregam, possam cantar orgulhosamente, não mais um hino nacional, mas o hino de todos as nações; não mais A Marselhesa, esta belíssima relíquia da grande época das revoluções burguesas, mas a canção da raça humana, do futuro comunista do homem: A Internacional.
 
Errata do autor | Há dois erros importantes no artigo sobre os quais me alertaram vários companheiros. O primeiro, de conteúdo: falei do desenvolvimento da burguesia em geral, mas não falei sobre o desenvolvimento do Estado francês em particular, de como este Estado se tornou imperialista, de como o exército colonialista francês oprimiu e esmagou povos inteiros ao som da mesma Marselhesa de 1792, segundo a imagem que alguns camaradas usaram. Esta omissão desequilibrou o artigo e passou a falsa impressão de que eu defendia algum tipo de “continuidade” entre a França revolucionária e a França colonialista, o que obviamente não corresponderia. O segundo erro foi de forma: ao dizer que Benzema “erra o alvo”, o texto dá a impressão de ser uma crítica à forma de protesto escolhida pelo jogador, o que também passava longe da ideia inicial do artigo. Ao invés disso, deveria ter simplesmente diferenciado o conteúdo original do hino do significado que certos trechos adquiriram nos dias de hoje. Fora isso, creio que a ideia central do artigo, que era mostrar a decadência histórica da burguesia, permanece válida.