Sob ameaça de reintegração, aldeia indígena de São Paulo organiza campanha


Foto Thiago Carvalho

Aldeia Itakupe convoca a todos para atividade cultural de resistência no próximo 2 de maio, com almoço e danças

Desde março, a etnia Guarani Mbya da Aldeia Itakupe, localizada na Terra Indígena (TI) Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo, vem sofrendo um processo de reintegração de posse movido pelo ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Antônio Tito Costa, de 92 anos de idade, eleito pelo PMDB e advogado especialista em direito público.

Uma reunião para discutir a reintegração de posse aconteceu no 49º batalhão da PM em Pirituba, Zona Norte, no último dia 22 de abril. Nela estavam presentes Antônio Tito Costa e seus dois filhos, bem como três lideranças dos territórios indígenas de São Paulo: o líder político Davi Martins da Aldeia Tekoa Pyau, o Cacique Ari da Aldeia Tekoa Itakupe e o Cacique Elias, da Aldeia Tenondé Porã. Porém, algumas lideranças da T.I. Jaraguá, da Aldeia de Barragem Krukutu, e alguns ativistas indigenistas foram impedidos de entrar no batalhão, ao redor do qual a PM formou um cordão de isolamento.

Nessa reunião, nada foi definido a respeito da desapropriação, e outra foi convocada para 5 de maio, às 15h, no mesmo local.

As terras reivindicadas por Antônio Tito Costa e seus familiares, que se dizem proprietários, nunca foram utilizadas e estavam abandonadas desde 1947 por Tito. Em uma entrevista Tito, suposto dono dessa área de 72 hectares, afirma que até 2006 não havia índios naquela região, desconsiderando totalmente a ancestralidade dos povos originários, “Não se leva em conta os direitos ancestrais indígenas de pertencimento a terra” afirma Davi Martins.

Após a reunião foi feita uma coletiva de imprensa na Aldeia Tekoa Pyau, reunindo lideranças indígenas, ativistas e algumas mídias. Nesta, Davi Martins falou um pouco da luta que os Guaranis Mbya vem travando há anos com os “brancos que se dizem proprietárias dessas terras”. Ele disse ainda ter ouvido de Tito Costa declarações racistas a respeito dos povos indígenas. O grileiro teria dito que “índio é tudo sujo, as mulheres indígenas são gordas e sujas”, além de diversas outras afirmações preconceituosas.

Em vídeo gravado por Thiago Carvalho, Tito Costa afirma por diversas vezes “que nunca …nunca houve índios nessa terra”, contrariando assim o laudo antropológico – que garante o pertencimento das terras à etnia Guarani M´bya. No mesmo vídeo, Tito Costa ainda afirma que dificilmente o Supremo Tribunal de Justiça irá dar uma decisão contrária a ele. A intenção declarada de Tito é plantar eucalipto na região, mesmo sabendo que ali na aldeia Tekoa Itakupe (que em português quer dizer “Casa Atrás da Pedra”) existem várias nascentes. O cultivo do eucalipto consome muita água, prejudica o solo e poderia destruir essas nascentes, agravando os problemas hídricos que enfrentamos hoje na cidade de São Paulo.

Resistir, pelo direito à terra e à cultura
Depois da reunião do dia 22, ao chegar na aldeia Tekoa Pyau para a coletiva, encontrei Richard, um menino de 12 anos de idade. A primeira coisa que ele me perguntou foi – “Quando a polícia vem tirar a gente daqui?”. Essa ameaça da reintegração de posse afeta a vida de todos dentro das Aldeias de São Paulo, e em especial das crianças. Essas crianças já passaram por diversas situações parecidas – inclusive uma tentativa de incêndio criminoso, que ocorreu em agosto de 2014 na Aldeia Itakupe.

Ao conversar com os moradores da aldeia o contraste fica evidente. Antes do estabelecimento da aldeia, a terra estava abandonada; hoje, ao chegarmos em Itakupe, vemos plantações de batata doce, milho tradicional, mandioca, mamão, amendoim, cana-de-açúcar e ervas medicinais. Para Lucas, filho do Cacique Ari, se puderem continuar nessa terra fértil, os Guaranis poderão continuar perpetuando sua cultura, preservando-a de geração em geração e educando seus filhos em suas tradições.

Alguns coletivos de ativistas junto a lideranças da T.I. Jaraguá estão organizando para o próximo 2 de maio um ato que acontecerá na Av. Chica Luisa, próximo ao nº 1000. Será feita também uma campanha nas redes sociais com a hashtag #AbraceItakupe para chamar a atenção da população e da imprensa para o que está acontecendo com os Guarani Mbya da T.I Jaraguá.

Os Xondaros já avisaram: não baixarão a cabeça para homem branco, e convocam todos os ativistas a unir forças e esforços e se somar à luta. Nós estaremos presente!!!

Para mais informações sobre o ato, entre em contato pelo e-mail [email protected].