Sinhá Moça: a abolição vista da Casa-Grande

Cena da novela da Globo
Divulgação

Há muito os telespectadores da novela global “Sinhá Moça” têm notado que não é somente a textura imagem (produzido por uma câmera especial) que causa certa estranheza. Muito mais “estranha” é a forma como a telenovela tem representado os anos que antecederam a abolição da escravidão no Brasil.

Em poucas palavras, o que se tem visto é uma radicalização da “história oficial”, que há décadas contamina os livros didáticos e os discursos embasados no falso mito da democracia racial. Na trama, a luta pela liberdade surge quase como que uma concessão ou “dádiva” protagonizada por iluminados sinhozinhos e sinhazinhas brancos, indignados com o sofrimento dos negros.

Inspirada no romance de Maria Pacheco Fernandes – e adaptada pelas filhas de Benedito Ruy Barbosa, autor da primeira versão da novela, há 20 anos – a novela e seus descalabros acabaram chamando a atenção do Ministério Público da Bahia que, na semana passada, instaurou um inquérito civil alegando que a novela não só estaria prejudicando a auto-estima da população negra e afro-descendente como também deturpando a história da escravidão no Brasil.

Como declarou o promotor de justiça e coordenador do Grupo de Atuação Especial do Combate à Discriminação (GEDIS) Almiro Sena Soares Filho, a novela, além de apresentar negros e negras como pessoas passivas, completamente dependentes de “heróis brancos”, distorce completamente a História na medida em “omite os quilombos e as revoltas lideradas por negros”.

Nada mais correto. Aliás, no que se refere aos quilombos, a novela é, literalmente, uma piada de péssimo gosto. O “mocinho” da história, o advogado branco Rodolfo (Danton Mello) incorpora – vestido a “la Zorro”, diga-se de passagem – o personagem “irmão do Quilombo”, sendo que o tal quilombo jamais mereceu sequer uma única cena na novela.

Uma história há muito mal contada
Escrito em 1950, o romance original e todas as versões levadas às telas – há também, uma versão cinematográfica, de 1953 – sempre bateram na mesma e surrada tecla da Abolição como um feito quase que exclusivo de intelectuais e políticos republicanos, desconsiderando por completo a história de lutas e resistência do povo negro neste processo.

Pra começo de conversa, um dado fundamental é sistematicamente omitido: em 1888, quando a Lei Áurea foi assinada, 95% dos africanos e seus descendentes já haviam conquistado a liberdade, seja através da luta quilombola, seja por meio de fugas generalizadas ou pela própria falência do sistema escravocrata no Brasil e no mundo. Além disso, as inúmeras e importantes rebeliões do século 19 (como a Revolta dos Malês) ou as radicais ações libertárias de grupos negros organizados em todo o país sequer merecem menção na ficção global.

Se isto não bastasse, como também já é comum nas novelas globais (vide “Terra Nostra”, exibida há uma década), há uma completa distorção da composição racial do país daquela época. Segundo todo e qualquer dado estatístico, por volta de 1870, dois terços da população brasileira era negra – muitos deles alforriados e desempenhado diferentes papéis na sociedade, apesar da violenta opressão racista existente. Já no mundo de “Sinhá Moça”, há um único escravo livre e (que surpresa!) branco – Rafael (Eriberto Leão), transformado em uma versão masculina da “Escrava Isaura”.

Enquanto isso, dezenas de outros personagens negros vagam pelas senzalas à espera do “salvador branco” ou, ainda pior, transitam pelas casas-grandes representando os mais abomináveis estereótipos: do moleque irresponsável, malandro e sempre feliz à empregada “faz-tudo” que mantém uma fidelidade canina ou “fraterna” com a maioria dos seus senhores.

Aliás, no que se refere aos senhores, também é necessário se lembrar que, dentro da estrutura deformada e maniqueísta da novela, o único realmente “mal” e incondicionalmente escravocrata, o Barão de Araruna (Omar Prado), é retratado quase como uma exceção, um “diabo na terra”, auxiliado por seu perverso capataz e pelo ainda mais malvado capitão do mato, um negro – como, de fato, era a maioria daqueles que se prestavam a este lamentável ofício – que, na novela, contudo, parece existir apenas para justificar que também entre os negros sempre existiram “racistas” e malfeitores.

Façamos nós a nossa própria história
Em resposta ao Ministério Público, a Globo, com sua hipocrisia de sempre, emitiu uma nota afirmando que a acusação de racismo é completamente descabida principalmente porque a novela é fruto de uma simples adaptação de uma obra literária que tem como objetivo “entreter, informar e educar”.

As perguntas que a emissora dos Marinhos certamente se recusaria a responder são simples: Entreter a quem? Informar o que? Educar como? Pois o que vemos é apenas a mesma história de sempre: uma romantização mentirosa de uma história de lutas, a omissão proposital do papel que os negros cumpriram nesta história e a perpetuação do mito da democracia racial. Entretenimento, informações e educação que só servem para consolidar a discriminação, o racismo e o preconceito na sociedade.

E como se a hipocrisia ainda fosse pouca, a nota da Globo ainda acrescentou um parágrafo que dispensa comentários: “O caminho dos negros é longo, árduo e penoso, mas a liberdade lhes aguarda no fim, tal qual aconteceu na história do Brasil”.

Neste sentido, iniciativas como a do Ministério Público Baiano só podem ser saudadas. Contudo, não temos a menor ilusão de que esse tipo de pressa irá fazer com que a Rede Globo ou qualquer outro veículo de comunicação comece, de fato, a retratar a história de negros e negras ou de quaisquer outros setores oprimidos e explorados deste país de forma digna e real. Isto só será possível quando, no processo de luta contra o sistema capitalista, tomarmos em nossas mãos os meios necessários para que nós próprios escrevamos e representemos nossa própria história.