“Sempre no campo dos trabalhadores”

Abaixo publicamos uma entrevista com Arlette Languiler, candidata à presidência da república nas últimas eleições francesas pela organização trotskista Lutte Ouvriere (Luta Operária). O Conjunto da extrema-esquerda trotskista obteve mais de 10% dos votos no primeiro turno destas eleições, transformando-se numa das mais importantes forças políticas do país.

OS – Quais foram os resultados de sua candidatura no primeiro turno das eleições presidenciais francesas?
Alicia
– Eu obtive 5,72% dos votos, um resultado ligeiramente superior ao de 1995, 5,3%. O notável é que o nosso eleitorado se agrupou em torno de reivindicações radicais, como o controle dos trabalhadores sobre o funcionamento das empresas, a supressão do sigilo bancário e de negócios, a proibição das demissões coletivas sob pena de requisição estatal, reivindicações que, há anos, nós defendemos e popularizamos. Nosso slogan de campanha foi “Sempre no campo dos trabalhadores”.

OS – Você acredita que o primeiro turno das eleições presidenciais representou um abalo sísmico, como toda a imprensa sustentou?
Alicia
– Seguramente não. Aliás, os resultados do segundo turno (18% para Le Pen e 82% para Chirac) mostram que tínhamos razão de afirmar que Le Pen era somente um balão inconsistente. Os políticos da esquerda conscientemente inflaram esse balão. Eles queriam apenas fazer com que fossem esquecidos os votos que perderam e a sua responsabilidade na escalada de Le Pen e da Frente Nacional.
Pois, se a presença de Le Pen no segundo turno dessas eleições presidenciais, com 17% dos votos, chocou muita gente, faz quase vinte anos que a extrema direita tem resultados altos. Entretanto, em 1981, quando Mitterrand foi eleito, Le Pen nem mesmo pôde se apresentar, e fazia mais de quinze anos que a extrema direita não chegava a 1% dos votos. Mas rapidamente a política da esquerda decepcionou e Le Pen e a Frente Nacional tiraram proveito: 11% em 1984, 14% nas presidenciais de 88, 15% nas de 95, quando De Villiers, um outro candidato de extrema direita, obteve 4,74%. A extrema direita, com os 16,95% de Le Pen e os 2,35% de seu ex-braço direito Mégret, mantém-se num nível muito elevado. Mas isso não é um abalo sísmico.

OS – Então, o que aconteceu para que Le Pen passasse para o segundo turno?
Alicia
– O fato novo é a queda do candidato do Partido Socialista, o Primeiro Ministro Jospin. Ele chegou a 16,12%, enquanto em 1995 obteve 23,30% no primeiro turno. Ele perdeu 2,5 milhões de votos. Sim, para seus partidários e para toda a esquerda governamental (PS, PC, Verdes, Radicais de Esquerda), trata-se de um abalo sísmico. Entre seus eleitores, muitos se abstiveram, outros votaram em candidatos da extrema-esquerda. Erro de quem? Erro de sua política antioperária, patronal.

OS – Não havia, portanto, um risco de Le Pen chegar à presidência?
Alicia
– É evidente que não. Mas, além de nós, ninguém queria dizê-lo. Toda a esquerda, portanto, chamou o voto em Chirac, falando de uma “Frente Republicana”. Ela afirmava a seus eleitores que assim eles iriam “barrar a rota ao fascismo”.
Entretanto, no primeiro turno devido à disputa de cargos, a esquerda governamental apresentou quatro candidatos (sem contar Chevènement, ex-ministro de esquerda): Hue, do PC; Mamère, dos Verdes; Taubira, do Partido Radical de Esquerda; e Jospin, do PS. Juntos, eles totalizaram 27% dos votos. Unidos, poderiam conduzir Jospin, com quem governavam há cinco anos, à liderança do escrutínio. Mas foi a nós que eles dirigiram a crítica de tê-lo deixado cair!

OS – Qual foi a política da Luta Operária para esse segundo turno?
Alicia
– Nós militamos para que Le Pen tivesse o mínimo possível de votos. Entretanto, nós tampouco chamamos o voto em Chirac. Ele não é nenhuma proteção contra o Le Pen. As medidas que Le Pen preconiza, Chirac pode realizar. Aliás, ele estava de acordo com Jospin quando incriminou imigrantes e clandestinos, quando privatizou e reduziu os serviços públicos. E ele, como Jospin, prometeu combater o atual sistema de aposentadoria, em benefício dos fundos de pensão.
Nós dizíamos, em nosso editorial: “Contra Le Pen, mas não por Chirac: um envelope vazio na urna!”.

OS – E o Partido Comunista, o que aconteceu com ele nessas eleições?
Alicia
– Seu candidato, Robert Hue, passou de 8,64% dos votos para 3,37%. Esta debandada vem do fato de o PC ter sido duramente atingido pelo seu apoio à política antioperária do governo Jospin.
Foram os ministros, os deputados e prefeitos do PC que vimos defender as privatizações e todas as medidas tomadas por Jospin. E em seguida eles chamaram freneticamente o voto em Chirac, demonstrando que esquerda e direita não são muito diferentes.

OS – Em contrapartida, a extrema-esquerda trotskista se saiu bem?
Alicia
– Efetivamente, ela obteve mais de 10% dos votos no primeiro turno. Mas, justamente, pôde-se constatar que os três candidatos que a representavam adotaram políticas muito diferentes.
Daniel Gluckstein, do Partido dos Trabalhadores1 , obteve 0,47%. Ele denunciou as inúmeras injustiças que sofrem os trabalhadores, mas responsabilizando apenas as propostas gerais da União Européia. Ele não indicou voto no segundo turno.
A Liga Comunista Revolucionária2 apresentava Olivier Besancenot, um carteiro de 27 anos, que obteve 4,25%. Mas no dia seguinte do primeiro turno, a LCR se juntou rapidamente ao coro dos que, à esquerda, chamavam o voto em Jacques Chirac, sob o pretexto de “barrar Le Pen”.
Fomos os únicos a dizer que, sobretudo, não se podia votar em Le Pen, mas tampouco plebiscitar Chirac, e a chamar a votar branco ou nulo.
Essa categoria de votos passou, do primeiro ao segundo turno, de 3,4% a 5,4 % dos inscritos, o que significa 800 mil pessoas a mais: eleitores de esquerda ou de extrema- esquerda que não se deixaram enganar. Oitocentos mil é pouco, mas é a prova de que era possível resistir à essa capitulação de toda a esquerda diante de Chirac
Post author Opinião Socialista
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