Seminários debatem como deve ser uma nova central

Um novo Seminário Nacional das entidades e organizações que compõem a “Comissão para a reorganização” está convocado para o início de novembro. Até lá, seminários estaduais e regionais debaterão os desafios da conjuntura e, principalmente, as polêmicas sobre a unificação destes setores em uma nova central. Abaixo expressamos a posição da Conlutas, por uma central sindical e popular, que agrupe organizações classistas da juventude e movimentos contra a opressão

O seminário realizado em abril, convocado por Conlutas, Intersindical, MTL, MTST, Pastoral Operária de São Paulo e MAS, avançou significativamente ao identificar pontos de unidade para construir uma nova organização de frente única.

É patrimônio deste primeiro seminário os acordos quanto à estratégia socialista e a necessidade de superação do capitalismo; o combate ao corporativismo e ao economicismo; o papel da classe trabalhadora no processo de transformação social; a defesa da ação direta como instrumento prioritário de luta; a independência política e organizativa frente ao Estado e à burguesia e a defesa do internacionalismo.
No entanto, persiste uma diferença fundamental: qual o caráter que a nova entidade deve ter?

Os setores da Intersindical, MTL e o MAS (organizado pelos prestistas) defendem que a nova central deve ter um caráter puramente sindical.

A posição defendida pela Conlutas
O debate das formas de organização que deve se dotar a classe trabalhadora para as suas lutas não se encerra num problema meramente organizativo. É esse enfoque estratégico que nos permite responder que estamos construindo a Conlutas a serviço de organizar o conjunto dos setores explorados e oprimidos para lutar em defesa de suas reivindicações, articuladas com um programa e a luta pela transformação socialista.

A Conlutas, embora seja uma organização minoritária, desenvolve uma experiência pioneira, avançando para além da limitação das outras centrais, de só organizarem os trabalhadores que estão nos sindicatos.

O papel do novo instrumento que nos propomos a construir deve ser o de uma organização que possa dar conta do enfrentamento global com o sistema capitalista.
Uma central sindical implicaria para a Conlutas na renúncia à experiência, até agora vitoriosa, da construção de uma central sindical e popular, em conjunto com movimentos e entidades da importância do MUST, Terra Livre, MPRA, Conlutas no campo, ANEL e setores do MTST, dentre outros.

Uma central, com essa composição, deixa de ser classista?
A incorporação à nova central das organizações que representam os movimentos populares e da juventude não só vai continuar como reforçará o caráter classista que esta organização deve ter, já que a nova organização buscará unir toda a classe trabalhadora e setores explorados.

É através dos seus princípios e programa que a central resgatará a herança classista e socialista acumulada pela nossa classe. As organizações populares e da juventude que estejam dispostas a marchar, sob a direção desse programa, devem ser parte desse instrumento organizativo.

A idéia, errônea, de que estamos abdicando de ter uma organização sindical nacional não passa pela prova da realidade. A Conlutas tem demonstrado o contrário: seu caráter sindical e popular não a impediu de estar presente em todas as principais batalhas recentes do movimento sindical.

Os sindicatos são a principal forma de organização da classe trabalhadora em nosso país. A Conlutas conseguiu dar passos importantes neste debate de concepção, definindo não só a centralidade da classe trabalhadora em seu projeto, mas, superior a isso, definiu a classe operária industrial como o setor mais importante na luta pela transformação revolucionária da sociedade, pelo seu papel na produção capitalista.

Ao mesmo tempo não fechou os olhos para a realidade de nossa classe, o que inclui o desemprego estrutural, a fragmentação, a precarização, o esvaziamento e burocratização dos sindicatos.

Esta análise não se confunde com as posições de segmentos da esquerda que não veem na classe trabalhadora o setor social capaz de encabeçar a luta pela transformação revolucionária da nossa sociedade. Mas é impossível pensar num projeto de transformação socialista em nosso país abdicando da disputa de um segmento tão amplo de trabalhadores que, nos momentos agudos da luta de classes, deve ser parte do exército do proletariado.

Exemplos recentes na América Latina trouxeram à tona processos de reorganização de nossa classe que passaram por fora dos sindicatos. Surgiram desses processos novos organismos, alguns temporários, outros permanentes. Outros processos possibilitaram a reconstrução ou tomada de direção de organizações sindicais que se encontravam distantes dos movimentos reais dos trabalhadores.

A experiência histórica tem demonstrado a necessidade de construir as alianças dos movimentos tradicionais dos trabalhadores com os chamados setores populares. E o mesmo vale para a juventude, que desencadeou inúmeros processos de contestação aos regimes políticos na América Latina, no passado recente.

Da mesma forma, existe a necessidade de uma política consciente de incorporação dos movimentos classistas contra a opressão na estrutura da nova central. O risco de uma dupla representação (pelo sindicato e pelo movimento de opressão) invocado por alguns companheiros no debate, deve ser evitado, mas com a participação plena desses segmentos na construção da nova entidade.

O esforço por unir em uma só organização estes setores tem, então, dois objetivos estratégicos: estabelecer os laços para as grandes lutas futuras, pela transformação da sociedade capitalista; e ajudar na compreensão de nossa classe de que a luta econômica imediata deve se elevar ao patamar de uma luta política, de classe contra classe.

* Sebastião ‘Cacau’ é membro da Secretaria Executiva Nacional da Conlutas

Post author Sebastião Carlos “Cacau”*,de Belo Horizonte (MG)
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