Seminário sobre a Revolução Russa reuniu 300 pessoas na UFF

O Seminário de comemoração dos 90 anos da Revolução Russa, organizado pelo Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Instituto José Luís e Rosa Sundermann começou no dia 19 de novembro. Na mesa de abertura, estavam representantes dos dois institutos debatendo A Revolução Russa e o Século XXI. Os debatedores eram João Ricardo Soares, que também faz parte da direção nacional do PSTU, e Maurício Vieira, professor de Sociologia do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFF.

Na manhã do dia seguinte, 20, fez-se o debate sobre A Revolução Russa e a América Latina, que abordou temas como o chavismo, a ocupação militar do Haiti, o impacto da Revolução Russa sobre o movimento operário latino-americano e uma discussão e homenagem ao Dia da Consciência Negra.

No mesmo dia, às 18h, ocorreu o debate que foi o ponto alto do seminário: A Revolução Russa e o Partido, com Valério Arcary e Daniel Aarão Reis. O auditório lotou com a presença de cerca de 180 pessoas e a participação de vários militantes do movimento social.

Valério Arcary iniciou com a discussão sobre o partido leninista. “O partido leninista é um partido que está construído em torno de uma estratégia: a luta pelo poder para o proletariado”, disse. Ele conclui dizendo que “a maioria das organizações operárias do século XX perderam o instinto de poder e não conseguem pensar um projeto de sociedade que vá além do capital”.

Daniel Aarão começou sua fala dizendo que “há uma certa tendência a uma cristalização da forma de partido construída por Lênin” e que “ainda em vida, Lênin fez questão de deixar claro que as orientações presentes no Que Fazer? não eram uma fórmula dogmática a ser usada a qualquer tempo e lugar”. Para Aarão, “o partido de Lênin no Que Fazer? era adequado às condições vigentes sob o Império Czarista”. Ele conclui que “em 1917, quando foi possível atuar à luz do dia, o partido bolchevique teve uma grande flexibilidade para atuar. Na queda do czar em fevereiro de 1917, o partido bolchevique contava com 20 mil membros e, em outubro, já contava com 200 mil membros, chegando próximo a um partido de massas”.

Seguindo na sua argumentação contra o partido leninista e enfatizando a polêmica partido de vanguarda versus partido de massas, Aarão entra também no debate sobre a burocratização do partido e do Estado soviético. “A guerra civil contribuiu enormemente para militarizar e verticalizar o partido bolchevique”, argumentou. Por fim, opina que “a idéia de que a consciência da classe vinha de fora, de uma elite, elaborada por Kautsky e adotada por Lênin no Que Fazer? ajudou a construir uma relação autoritária do partido com os trabalhadores, autorizando o partido mesmo a reprimir os trabalhadores”, enfatizando que “quando as massas criaram os sovietes, nenhuma vanguarda lhes havia recomendado isso, foi a auto-organização dos trabalhadores”.

Da platéia, diversos ativistas e militantes do movimento social se manifestaram. Foi travada a polêmica sobre a forma-partido defendida por Lênin no Que Fazer?, que permanece atual, pois o aparato repressivo, longe de ter sido quebrado, no caso brasileiro, por exemplo, com a redemocratização vem se aperfeiçoando. As insurreições e revoluções na América Latina, atualmente, demonstram a necessidade de um partido revolucionário para impulsionar as massas e convencê-las desta estratégia nos seus organismos democraticamente.

Daniel Tomazine, militante do PSTU e diretor do DCE da UFF, ressaltou a importância da democracia operária, inclusive dentro do partido, e enfatizou que “a disciplina dentro do partido revolucionário é construída na base da confiança”.

Por fim, Valério Arcary encerrou falando do processo de burocratização e do stalinismo. “A guerra civil, a contra-revolução, explicam em grande medida a burocratização, mas não só. Mesmo a democracia socialista, se não se estender à escala mundial não se mantém. A Rússia era um país atrasado e precisava passar por uma etapa de transição antes de chegar ao socialismo. Se triunfa a revolução em países mais adiantados, as conquistas econômicas e democráticas podem ser estendidas. A democracia para os trabalhadores vai se estendendo, conforme avança a revolução mundial”, afirmou.

Ele conclui ressaltando o caráter profundamente democrático dos primeiros anos da Revolução Russa e do Partido Bolchevique antes da contra-revolução stalinista: “os bolcheviques, quando tomaram o poder, deram uma gráfica para os anarquistas. Lênin assinou um decreto garantindo a moradia de Plekhanov na Rússia, tornando sua casa intocável. O stalinismo é uma monstruosidade. Defendemos para as próximas gerações um socialismo com democracia operária”.

Na manhã do dia 21, Valério e Virgínia Fontes debateram O impacto da Revolução Russa na História. À noite, foi debatida A restauração capitalista na URSS, com Eduardo Henrique, servidor da UFF, e José Welmoviki, editor da revista Marxismo Vivo, que apontou o papel desempenhado pela burocracia em todos os processos de restauração. Eduardo Henrique falou da importância da democracia operária desde já na nossa construção cotidiana no movimento.

No decorrer do debate, a militante do PSTU, Danielle Bornia, fez uma fala ressaltando o papel cumprido pelo stalinismo na contra-revolução que se deu na família e nos direitos da mulher, conquistados com a revolução.

O seminário reuniu cerca de 300 pessoas ao todo e serviu para relembrar a importância da Revolução Russa para a luta dos trabalhadores e de todos os oprimidos e explorados do mundo e a necessidade da revolução, desafio este que está hoje colocado para a nossa e para as próximas gerações.