`Rompemos com o P-SOL para construir uma estratégia revolucionária`

Ativistas do movimento estudantil do Rio de Janeiro, Daina Bach e Bruno Alves dos Santos romperam com o P-SOL (e com a Corrente Socialista dos Trabalhadores) e ingressaram no PSTU. As razões da ruptura são expostas na carta abaixo, escrita pelos companheiO PT, durante vinte anos, dirigiu a classe trabalhadora brasileira e, ao ser eleito em 2002, carregava consigo as esperanças e expectativas desta. Porém, ao chegar ao poder, tornou-se motivo de decepção para todos estes trabalhadores: taxou os aposentados, descumpriu o acordo de pagamento das dívidas com os aposentados do INSS e privatizou a previdência dos servidores, com a Reforma da Previdência.

Neste contexto nasceu o PSOL, com o caráter de ser um pólo de reagrupamento da esquerda após a experiência da classe trabalhadora com a traição do PT. Diversos segmentos dedicaram-se então a esta construção, inclusive a CST, corrente na qual militávamos. O projeto inicial do PSOL se pautou pela oposição ao governo Lula: não aceitar a continuidade da submissão do país aos interesses dos bancos e do FMI, rejeitar a ALCA, o pagamento da dívida externa, a autonomia do Banco Central, o corte dos direitos trabalhistas, previstos nas propostas de reformas sindical, trabalhista e universitária.

Ao longo de sua construção, no entanto, o PSOL foi demonstrando no movimento as contradições resultantes de seu modelo organizativo.

No Movimento Estudantil, a traição e o governismo da UNE, seu apoio à privatização das universidades públicas e o entrave das lutas são cada vez mais evidentes. Mesmo assim, o PSOL continua agindo como se a UNE ainda fosse disputável: continua participando de seus fóruns e, com isso, legitimando a entidade. Mesmo que indiretamente, esta atitude do PSOL contribui para o fortalecimento desta correia de transmissão do governo Lula no Movimento Estudantil, criando a falsa ilusão em uma possível “reconquista da UNE”.

O mesmo acontece no terreno sindical, onde o atrelamento da CUT ao governo é também evidente, como demonstra a nomeação de Luiz Marinho (presidente da CUT) como ministro do trabalho. Deste fato se seguiu o anúncio do apoio do governo à proposta do deputado Delfim Neto – o chamado “Déficit Zero” – que significa um aperto ainda maior no ajuste de caráter neoliberal implementado no país. Esta atitude desmoraliza a falsa defesa de mudanças na política econômica, de que falava a Central. Ainda assim, há uma grande resistência por parte de setores do PSOL em aderir a CONLUTAS, mantendo seus cargos na CUT, mesmo após estes episódios.

Entre os parlamentares, as contradições são ainda mais graves e evidentes. Começaram com a presença de Heloisa Helena no Encontro nacional do PDT, no fim de 2004, onde elogiou figuras como Carlos Lupi, afirmando: ‘Aqui no PDT, assim como em outras poucas organizações que sobrevivem, estão os que não se dobram, os que não se curvam, os que não se ajoelham covardemente´. Mais tarde, quando se iniciou a crise de corrupção no governo Lula, e a população começou em grande parte a perder a confiança não só no governo, mas em todo o congresso, no parlamento burguês, os parlamentares, seguindo orientação da Direção Nacional, defenderam a antecipação das eleições, proposta baseada no fato de que a popularidade de Heloisa Helena havia subido nas pesquisas, enquanto a de Lula caiu.

Depois veio a aceitação temporária de figuras como Maninha e Ivan Valente, que se diferenciaram dos radicais no período da expulsão e disseram que esse projeto não daria certo, cumprindo assim o papel de segurar a base petista mais tempo no PT, e sustentando a ilusão na Frente Popular. E o mais complicado deles, Chico Alencar, que votou a favor da Reforma da Previdência, e agora entra como membro efetivo do PSOL. Isto resultou na defesa da base do governo por parte de alguns destes parlamentares, com os votos em Aldo Rebelo (PCdoB) para a presidência da Câmara.

Por último o senador Geraldo Mesquita e o escândalo de cobrança de “mensalinho”, denunciado por seu ex-funcionário, que foi demitido em janeiro por reclamar do confisco salarial. O mesmo deputado praticava nepotismo, e em abril a imprensa já havia noticiado a contratação de nove parentes em seu escritório. O P-SOL saiu em defesa do senador. Em nota oficial, afirmou que: “O senador não cometeu nenhuma ilegalidade. Seus funcionários trabalham e, independentemente de vínculos familiares, são pessoas qualificadas”. Com isso, assumiu o mesmo tipo de postura de Severino Cavalcanti, que defendia a contratação de seus filhos, por serem “competentes”. Por baixo do pano, o senador, para abafar o escândalo, demitiu os parentes, admitindo na prática o erro.

Todos estes equívocos partem de uma opção política equivocada, de priorizar o parlamento burguês, quando sabemos que a corrupção é característica deste. A atuação no parlamento deve servir aos interesses das lutas da classe trabalhadora, não a interesses pessoais. Para isso é necessário que os salários dos parlamentares sejam administrados pelo partido e nivelados pelo de um operário médio. Assim os parlamentares não mudam seu nível de vida e todo o salário ganho é entregue ao movimento de massas.

Um partido sem esta estrutura acaba sendo administrado pelos parlamentares, que deliberam políticas individualmente, desrespeitando as decisões do partido, como o PSOL já tem demonstrado.

Esta opção é fruto do caráter político com que se configura o PSOL. O PSOL é uma frente anticapitalista, que une setores reformistas, centristas e revolucionários. Esta estrutura proporciona uma maior influência de massas, mas também limita sua atuação política aos consensos, o que a engessa e retarda, como nos exemplos do movimento já descritos.

Por este motivo é essencial a construção de um partido revolucionário, um partido que não seja refém de consensos com setores que não têm compromisso com a revolução.
Respeitamos a opção feita pela CST, assim como reconhecemos a luta dos demais valorosos companheiros que se dedicam à construção do PSOL, mas descordamos da opinião de que é possível ganhar o PSOL para a revolução, e por isso fazemos um chamado a estes e todos os que acreditam na construção da Revolução Socialista, para que venham construir conosco esta importante ferramenta de luta para a classe trabalhadora, que é o partido revolucionário. Venham construir conosco o PSTU.

DAINA BACK e BRUNO ALVES DOS SANTOS