Rio de Janeiro: presidir uma CPI ou lutar pelo Fora Cabral?

    Candelária, quinta feira, 8 de agosto. Centenas de ativistas recebem o esperado anúncio: a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) foi ocupada exigindo o Fora Cabral! Cumpria-se assim a resolução do Fórum de Lutas do Rio de Janeiro, ocupar a Alerj.
    A passeata fechou a Av. Rio Branco. O “Fora Cabral” foi um dos gritos mais ouvidos junto ao ritmado “Cabral é ditador ôôôô”. Chegando à Alerj, os portões da frente e detrás foram cercados pelos manifestantes. Mas já havia um grupo de manifestantes nas galerias da assembleia.  
    A superioridade militar do aparato repressivo impediu a entrada no prédio. Paulo Mello, presidente da Alerj, foi quem ordenou a brutal repressão às mulheres e homens que ocupavam o plenário. Resistiu-se enquanto deu, mas a superioridade numérica da Polícia Legislativa e as armas químicas lançadas contra os ocupantes (gás de pimenta) impediram a permanência.
    A manifestação, em passeata, rumou para a Cinelândia, a ideia era montar um acampamento na frente da Câmara de Vereadores. A plenos pulmões ouviu-se pelas ruas do Rio: “Não adianta me reprimir, esse governo vai cair!”
     
    Qual política adotar frente às mobilizações
    A passeata e a ocupação da Alerj estavam objetivamente a serviço da luta por derrubar o governo Cabral. No entanto, a passeata foi surpreendida por um grupo ocupou a Câmara de vereadores. Solidários, os manifestantes e as organizações presentes decidiram permanecer em frente à Câmara. Impulsionado pela ANEL, um acampamento começou a ser montado.
    Mas uma ofensiva da PM retomou a lateral da Câmara e desmontou o início de acampamento. Porém, não conseguiu dispersar o conjunto do ato que, infelizmente, diminuía. 
    Durante a madrugada, os militantes do PSTU rechaçaram fisicamente um ataque de grupo fascista. Durante o ato, fora da Câmara, no carro de som (uma Kombi do Sindicato dos Comerciários de Nova Iguaçu e Região, filiado à CSP-Conlutas) as mais diferentes posições políticas puderam se manifestar, incluindo aquelas que chamam contra a organização do Dia nacional de Lutas e Mobilizações, 30 de agosto.
    Foi lida a posição dos que ocupavam a Câmara: presidência da CPI dos transportes para o vereador do PSOL, Eliomar (quem propôs a CPI); substituição dos vereadores que não assinaram pela CPI; audiências públicas e publicação dos documentos da CPI.
    Neste momento, ficaram explícitas as diferentes políticas frente às lutas e mobilizações que tem o Rio de Janeiro como um dos pontos altos.
    A ocupação de prédios do legislativo é uma forma de ação radical, mas é preciso ver a serviço de qual política. A ocupação da Alerj foi uma ação pelo Fora Cabral, governador que amarga uma enorme rejeição em todo o estado. A ocupação da Câmara Vereadores foi por… Eliomar presidente da CPI dos transportes. Ou seja, a primeira enfrentava claramente o regime político. A segunda, desviava a luta para dentro das instituições do regime, das instituições do Estado burguês.
    Isto com a decisiva participação de organizações que priorizam o calendário eleitoral, e que estão dentro do PSOL; por organizações que afirmam ter como eixo central acabar com qualquer tipo de Estado; e por aquelas que fazem centro em rejeitar a farsa eleitoral. 
    Na manifestação no Ministério Público, várias organizações políticas e vários dirigentes políticos fizeram cara feia ao coro impulsionado pelo PSTU: “Nenhuma ilusão! O MP também é enganação!”. 
    Este é outro debate a ser feito – por mais que máscaras escondam rostos – as políticas são formuladas por pessoas de carne e osso, as organizações e seus dirigentes se reúnem antes para elaborar as políticas. Fazer isso é conformar-se como partido. Negar isto é parte de tentar enganar o ativismo.
     
    Quando as CPIs são bem-vindas?  
    CPIs podem e devem ser utilizadas pela esquerda para denunciar os governos de turno. Explicitar injustiças, irregularidades ou casos de corrupção. A CPI das Milícias, do deputado Marcelo Freixo (PSOL), cumpriu esse papel denunciando o poder dos milicianos e suas relações com Sérgio Cabral.
    A luta parlamentar deve estar a serviço da luta dos trabalhadores e do povo e não o contrário. A política de CPI dos Transportes, lançada pelo PSOL, é um erro neste momento. A população sabe que a Fetranspor (Federação Patronal do Tranporte) é uma máfia e que os empresários lucram milhões com o direito de ir e vir dos cidadãos. A CPI de Eliomar quer provar o óbvio e alimenta ilusões.
    É preciso avançar
    A Câmara foi novamente ocupada na sexta feira, dia 9. O PSTU esteve dentro dessa ocupação e nos atos de sexta à noite e sábado pela manhã. A maioria decidiu desocupar, assim nos retiramos. Porém, discordando da decisão individual de alguns em permanecer, seguiremos defendendo os ativistas que estão na Câmara.
    Não podemos concordar, também, com o novo manifesto lançado que denuncia o funcionamento da Câmara, as manobras da base governista, vinculações da máfia dos transportes com Cabral e Eduardo Paes, e que exige transparência.
    A ocupação não chamou a fortalecer a luta dos profissionais da educação, ao contrário: “Convocamos toda a população (…), os professores das Redes Municipal e Estadual que acabaram de deflagrar greve, para vir construir a ocupação da Câmara , fazer atos em apoio à Ocupação e nossas pautas, e trazer doações (comida, água, material de higiene e etc.).”
    Aos profissionais da educação em greve na defesa de uma educação pública e de qualidade pelo Fora Cabral, é um equívoco propor construir a ocupação, ao invés de construir sua greve. A ocupação deveria se colocar a serviço da vitória dessa categoria, e a serviço de fortalecer a luta pela derrubada desse governo inimigo dos trabalhadores e do povo.
     
    Bandeira que sumiu
    Os ônibus desaparecem de madrugada. O metrô não supre as necessidades da população. Trens andam superlotados, passando direto das estações. As barcas se perdem no caminho. Não há manifestação na cidade em torno dos transportes que não levante a bandeira da estatização. Mas, para os que insistem em desviar as lutas para dentro das instituições do regime, esta bandeira desapareceu. 
    Desviar as lutas para dentro das instituições do regime, rebaixando as reivindicações, enfraquece a luta por derrubar o governo do estado. Afasta a possibilidade de discutir como construir um governo dos trabalhadores e do povo pobre em nosso estado.
    Objetivamente, tais políticas, além de darem fôlego a Cabral, criam ilusões nas instituições do regime e, por este caminho, acabam fortalecendo o estado burguês. Assim, é necessário derrotar tais políticas.

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