Revolução Mutante

A volta de Os Mutantes resgata importância do grupo para o rock e a música brasileiraNão é apenas mais um boato: Os Mutantes estão de volta e deram o pontapé inicial de sua aguardada turnê internacional com um show no centro cultural Barbican, em Londres, na noite do dia 22 de maio, o primeiro em 33 anos, com os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista e o baterista Dinho. Sem Rita Lee, com Zélia Duncan nos vocais, a “nova versão” da banda conta ainda com um tecladista, uma percussionista, um multiinstrumentista e dois backing vocals.

Serginho, que comandou a apresentação, subiu ao palco vestido de mosqueteiro, com colant bege e uma longa echarpe branca, lembrando os velhos tempos da banda.
Surgido nos anos 60 em São Paulo, o grupo inicialmente composto por Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista foi depois reforçado pelo baixista Liminha e o baterista Dinho. Apoiados nas artes de um quarto mutante invisível, o mago da eletrônica Cláudio César Dias Baptista, lançaram alguns dos discos mais geniais que a música brasileira produziu.

A receita mutante, que alcançou o mundo todo, misturava deboche, irreverência, ingenuidade, psicodelia, melodias perfeitas, experimentalismo e muito LSD.

A invasão das guitarras
Os Mutantes, associados ao nascente tropicalismo de Caetano e Gil, foram responsáveis pela introdução da guitarra elétrica na música nacional em meio a uma verdadeira polarização do cenário musical brasileiro nos anos 60.

De um lado, uma ala nacionalista, descendente direta da bossa nova, representada por nomes como Elis Regina e Geraldo Vandré, que defendia a música brasileira “pura”, não só da invasão da guitarra elétrica, para eles um símbolo do imperialismo norte-americano, mas de qualquer influência musical estrangeira. No outro extremo, o iê-iê-iê de Roberto Carlos e a jovem guarda, representando a pura diluição comercial do rock dos Beatles, que contaminou a todos como uma verdadeira febre musical a partir de 1964.

Foi essa contradição que o tropicalismo veio romper. Para eles, estava na hora de fazer uma música que soasse mais universal e esse som passava necessariamente pelo rock e pela guitarra elétrica. Servindo-se do rock americano e de seu instrumental eletrificado, procuraram criar um caminho na música brasileira semelhante ao obtido dez anos antes em relação ao jazz, com a bossa nova.

Tropicalismo mutante
Rita, Arnaldo e Serginho eram verdadeiros beatlemaníacos, mas não integravam a legião de súditos de Roberto Carlos. Achavam esses cantores meio velhos e ultrapassados.
Depois de participar das gravações de discos de Caetano e Gil, o trio funcionava como uma espinha dorsal do tropicalismo.

A diferença básica era que, ao contrário dos baianos, que olhavam o universo do rock de fora, Os Mutantes viviam dentro daquele mundo. Tinham um jeito diferente de se vestir, de falar, de se comportar.

Para Os Mutantes, vaia era sinal de sucesso. Quanto mais polêmica provocavam, mais ficavam conhecidos. Tudo era válido: de gravata com tênis e calça de veludo até bizarras fantasias e adereços.

Nas palavras de Arnaldo Baptista, o tropicalismo mutante introduzia a ironia em todas as formas musicais acabadas. “Essa ironia as embeleza. E nós, Mutantes, queremos fazer uma música, acima de tudo, bela e alegre”.

Faixas como 2001, com ritmo e sotaque caipira de moda de viola misturados com rock, letras como a de Ando Meio Desligado, que, descrevendo a sensação de desligamento provocada pela maconha, acabam falando de amor. Testemunham essa mistura de deboche e inocência, contrastando com a música popular brasileira tradicional, geralmente mais séria e compenetrada.

Uma bomba desativada?
Com a saída de Rita Lee, em 72, a banda perdeu muito em humor e deboche, rendendo-se aos poucos a um rock progressivo com toques religiosos, regado a muito LSD. O álbum “O A e o Z” escancarou de vez essa nova tendência. A ruptura de Arnaldo, em 74, foi o sinal definitivo de que o futuro de Os Mutantes estava seriamente ameaçado.
O recente retorno não é a primeira tentativa de Serginho de manter viva a música de Os Mutantes. Mas desde a separação do trio, o impacto de sua música nunca foi o mesmo. Como dizia Serginho, “é como a química de uma bomba de hidrogênio: faltando algum dos elementos, ela não explode mais”.

Dificultadas pela tentativa de suicídio de Arnaldo (em 82, ele atirou-se da janela do terceiro andar do setor de psiquiatria do hospital onde estava internado e teve que, literalmente, começar tudo de novo), as tentativas de reencontro nunca chegaram a dar muitos frutos.

Na noite do dia 22, no entanto, a platéia foi ao delírio, demonstrando que a música da banda permanece atual (há mesmo quem diga que parece que nunca estiveram ausentes).

Além de ser umas das bandas mais originais do rock brasileiro, Os Mutantes abriram o caminho para a difusão do gênero no país. A partir da década de 70, as guitarras do som universal puderam completar sua ocupação no cenário musical, adentrando pelos anos 80 e inaugurando uma verdadeira era do rock. Por isso, mesmo sem Rita, a reunião dessas verdadeiras lendas vivas tocando os clássicos dos Mutantes tem um imenso significado, não só para a música nacional, mas para o rock em geral.

Infelizmente, a mesma concepção musical estática e atrasada que teve que ser brilhantemente superada pelo grupo nos anos 60, hoje traz como uma de suas conseqüências uma turnê que inicia-se na Europa, segue para os EUA e, se tivermos sorte, pode chegar ao Brasil em 2007.

Voltaremos a ver Arnaldo, Serginho e Rita no mesmo palco? Como eles mesmos não cansavam de afirmar, tudo é possível. Certamente, Os Mutantes sem Rita é como Pink Floyd sem Roger Waters, mas Serginho garante: dessa vez, estão novamente conectados pela conjunção dos astros.
Post author Juliana Oliveira, de São Paulo
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