Revogado o aumento da tarifa, segue a luta pelas demais reivindicações

Zé Maria na Marcha a Brasília em abril
Foto: Raíza Rocha

Uma vitória muito importante da onda de protestos que ocorre em todo o país foi conquistada ontem: a revogação do aumento da tarifa dos ônibus em São Paulo, no Rio e em várias outras cidades brasileiras. Sem dúvida uma vitória muito importante, mas que não esgota o processo de lutas em curso.

O aumento das tarifas de ônibus longe de ser a causa única destes protestos, foi apenas a gota d’água que fez transbordar um mar de insatisfações da população brasileira. E a luta precisa continuar, para dar conta de todos os demais problemas que estão martirizando a vida dos trabalhadores e jovens do nosso país.

Há alguns destes problemas que se evidenciaram nestes dias de manifestações. Revogar o aumento é importante, mas o preço segue sendo muito caro. É preciso baixar o preço do transporte, implantar a tarifa social ou tarifa zero, afinal transporte é direito de todos e obrigação do estado, conforme diz a Constituição. Não pode ser um direito apenas dos que tem dinheiro para pagar (na cidade de São Paulo, 34% dos deslocamentos são feitos a pé ou de bicicleta, porque as pessoas não têm dinheiro para pagar ônibus). 

Para tudo isso, é necessário estatizar todo transporte público de São Paulo. É preciso parar de dar dinheiro para os empresários, garantindo assim o direito dos trabalhadores ao transporte público e de qualidade.
 

Outro questionamento que segue sem resposta é: porque tanto dinheiro para a Copa, se os governos dizem que não tem recursos para melhorar a saúde e a educação? Particularmente nestes dias de Copa das Confederações, mas também até a Copa do Mundo do ano que vem, temos de seguir nas ruas, cobrando nossos governantes sobre esta questão.

A luta contra a corrupção e a impunidade é outro tema importante. Neste sentido, foi muito bom ver nas manifestações cartazes contra a PEC 37 que quer ampliar a impunidade dos políticos corruptos. Ou mesmo a bandeira contra a repressão e a criminalização dos movimentos sociais.

As bandeiras da classe trabalhadora e seus métodos e luta:
Outra coisa muito importante, na continuidade deste processo, é estimular que a nossa classe participe dela de forma cada vez mais organizada. Ontem no Rio Grande do Sul, em uma reunião convocada por iniciativa do CPERS, se organizou um comitê de sindicatos e movimentos sociais para organizar a luta. Já tem manifestação convocada para amanhã, sexta feira. Exemplos assim, temos de reproduzir em todo o país.

Para isso vai ser fundamental agregar, nas bandeiras que têm sido levantadas nas manifestações, as reivindicações relativas às demandas mais sentidas da classe trabalhadora. Aumento dos salários, congelamento dos preços dos alimentos e das tarifas, fim do fator previdenciário, anulação da reforma da previdência de 2003, contra o projeto de lei da terceirização (PL 4330), contra as privatizações, pagamento do piso nacional dos professores, reforma agrária, respeito ao direto dos trabalhadores do campo, investimentos na saúde, educação, moradia, saneamento básico, e um longo etc. Na verdade, as demandas dos diversos setores da nossa classe apontam para a necessidade de outro modelo econômico para o país.

É preciso que todas as organizações da classe trabalhadora assumam este desafio e esta tarefa. A CSP-Conlutas está participando do processo e está buscando mobilizar suas bases neste sentido. As grandes centrais sindicais deveriam, na verdade, convocar uma greve geral neste momento. A necessidade agora é que todos estejam na luta. Nada menos que isso é aceitável para qualquer organização da classe trabalhadora.

Neste mesmo sentido, é importante reforçar o chamado a que todos venham para a luta. Ainda ontem participei de uma reunião onde ouvi críticas à possibilidade de a juventude do PT participar das manifestações com suas bandeiras. Penso o contrário. Que bom que a juventude do PT quer somar-se à luta pela redução da tarifa, agora, da redução do preço da passagem e pelas demais demandas do povo que está nas ruas. Alguns podem dizer que trata-se de uma contradição, pois o governo é do PT. Eu diria que é uma boa contradição. Quanto mais gente do PT estiver nas ruas lutando, menos força terão os governos do PT para fazer o que estão fazendo contra o povo e, isso, de alguma forma vai levar a uma superação desta contradição. Que venham então as bandeiras do PT para somar-se à luta pelas reivindicações dos trabalhadores e da juventude brasileira.

O caráter de classe das manifestações:
Se os trabalhadores entram nesta batalha, de forma organizada, não só participando das mobilizações de rua, mas também com seus métodos de luta tradicionais (greves, paralisações, ocupações), teremos muito mais força para conquistarmos nossas demandas. Outro aspecto fundamental aqui é que a entrada da classe trabalhadora é decisiva para assegurar a esta onda de protestos um caráter classista, fechando espaços para a utilização que a direita possa fazer deste processo.

Já vimos em nossa história o apelo contra a corrupção ser utilizado pela direita para manipular o povo e fortalecer seus projetos (lembremos o que foi o fenômeno Jânio Quadros). É preciso levantar bem alto a bandeira contra a corrupção, pois ela é generalizada, seja nos governos do PSDB, do PMDB e, lamentavelmente, mesmo nos governos do PT. Mas é preciso dar a esta bandeira um viés de classe, agregando a ela as bandeiras e demandas da classe trabalhadora contra a exploração capitalista.

As manifestações e os partidos:
Uma das contradições mais evidentes que pudemos observar nestas manifestações foi a resistência à presença das bandeiras dos partidos políticos. O senso comum da população aponta hoje, compreensivelmente, para o rechaço, quando não repúdio aos políticos e partidos políticos. Compreensível porque a prática que a população vê, destes partidos e destes políticos, é a pior possível, com a generalização da corrupção e do estelionato eleitoral.

No entanto, este não é o problema mais grave. Este problema, venceremos com paciência e perseverança, pois as massas vão acabar por compreender a diferença entre estes partidos tradicionais e seus políticos e aqueles partidos e políticos que estão na luta do povo. E vai acabar por entender a importância dos partidos efetivamente comprometidos com os trabalhadores para a transformação do nosso país. O PSTU, partido do qual sou militante, é um destes partidos, que não só está nesta luta ao lado da juventude e dos trabalhadores, mas que tem como objetivo ser um instrumento de luta política da classe trabalhadora e da juventude brasileira para construirmos uma sociedade socialista.

O mais grave neste processo é a utilização instrumental deste senso comum das massas por setores organizados que se dizem de esquerda (alguns se apresentam como anarquistas, ou punks), para atacar os partidos e agredir militantes que levam suas bandeiras nas manifestações. Eu sou de uma geração que lutou pelo fim da ditadura em nosso país. Fui preso e torturado para que, entre outras coisas, houvesse liberdade de organização para a nossa classe e para que todos pudessem manifestar publicamente suas opiniões. Inclusive pela liberdade de manifestação destes setores que hoje atacam nas ruas o direito à existência do nosso partido.

Sei perfeitamente que não são todas as organizações anarquistas nem todos os punks que tem esta postura, faço esta ressalva porque não quero cometer injustiças. Mas não posso deixar de apontar a gravidade do erro cometido por estes setores. Começo por lembrar que, historicamente, em nosso país, quem sempre quis acabar com os partidos políticos foram as ditaduras militares. Há saudosos da ditadura em nosso país que acham que a solução dos problemas começa com a supressão das liberdades. De que lado se encontram estes grupos que querem proibir a existência dos partidos?

Por outro lado, para aqueles que reclamam da esquerda brasileira, lembro que os partidos políticos são expressões organizativas criadas na luta da nossa classe contra o capitalismo. São não apenas necessários, mas imprescindíveis, se temos como objetivo da nossa luta acabar com o capitalismo e construir uma sociedade socialista. A apologia do autonomismo, expressa em frases como “o povo unido governa sem partido”, serve apenas para manter o povo prisioneiro dos partidos que hoje governam a sociedade.

Disseminam a ilusão de que basta o povo querer que o capitalismo acabe, levando assim à paralisia do povo ante tarefas que são decisivas para sua libertação da exploração e opressão do capitalismo: a organização de instrumentos, de massas e políticos, que lhe permitam planejar e organizar, de forma consciente, a luta contra este sistema para, aí sim, colocar fim ao capitalismo. Ao disseminarem ilusões, ajudam a perpetuar a dominação da direita e não a libertação da classe trabalhadora.

É preciso acabar com esta contradição: lutar contra a repressão da PM e tentar ao mesmo tempo reprimir a existência de partidos políticos. É preciso dar um caráter de classe às lutas que estão em curso. Massificá-las ainda mais com a entrada da classe de forma organizada nestes protestos. E agregar às demandas atuais as reivindicações dos trabalhadores que apontem para outro modelo econômico em nosso país. Vamos à luta!