Relatório do IPCC mostra que pobres pagam a conta da destruição ambiental

Diante da catástrofe ambiental, é preciso procurar saídas anticapitalistas em oposição ao discurso “cidadão”É isso que diz o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) divulgado em Bruxelas (Bélgica) na semana passada. O relatório prevê que as mudanças climáticas no planeta, aceleradas pela alta emissão de gases-estufa pelos países imperialistas, afetará, sobretudo, países e continentes onde vive a parcela mais pobre da população mundial.

Segundo o Texto, a falta de água em regiões secas, como o sertão nordestino e partes da África, e o excesso dela em áreas sujeitas a inundações, como os superpopulosos deltas de rios asiáticos, colocarão em risco milhões de pessoas nos próximos 70 ou 80 anos.

O documento ainda diz que cerca de 250 milhões de pessoas sofrerão com a falta de água na África, com uma redução de até 50% na produção agrícola em alguns países, até 2020. O mesmo pode ocorrer com regiões inteiras da Ásia, afetando mais de um bilhão de pessoas.

Com a relação à América Latina, a previsão do relatório aponta para a desertificação de regiões mais secas. O texto aponta que o Nordeste do Brasil pode perder 70% da recarga de seus aqüíferos.

Cortes
Houve protestos de alguns cientistas em relação a cortes e supressões de partes do relatório. As omissões foram produtos das pressões políticas e tinham como objetivo minimizar as conseqüências da emissão de gases-estufa aos impactos do aquecimento global. Um exemplo foi a pressão para retirar a expressão “confiança muito alta”, para qualificar o grau de certeza da afirmação de que o aquecimento já está afetando sistemas naturais.

No entanto, em fevereiro desse ano, um primeiro relatório do IPCC apontou, pela primeira vez, que a atividade humana, principalmente com a queima de combustíveis fósseis, é responsável pelo aquecimento do clima. Segundo o texto, até 2100 a temperatura da Terra aumentará entre 1,8ºC e 4ºC. O pior de tudo é que o IPCC diz que o aquecimento já produziu fenômenos irreversíveis. O reconhecimento da ação humana sobre a mudança climática teve grande repercussão mundial e provocou enorme desgaste das potências imperialistas, sobretudo dos Estados Unidos, responsáveis pela emissão de 20% de todo os gases-estufa na atmosfera.

O desmatamento e a poluição são resultado de um modelo industrial de consumo de combustíveis fósseis, que lança na atmosfera os derivados de carbono. Os EUA são os maiores consumidores dos recursos naturais, mas a transformação da China (segundo maior poluidor mundial) em uma plataforma de exportação imperialista aumenta ainda mais a degradação ecológica.

Adaptação
Os dramáticos resultados do desequilíbrio ecológico estão aí para todo mundo ver. Há décadas o planeta sofre uma destruição ambiental provocado pela lógica destrutiva da acumulação capitalista. Fenômenos climáticos extremos (enchentes, secas, ondas de calor, etc.) estão se tornando uma constante e são um golpe naqueles que tentam tapar o sol com a peneira, dizendo que o aquecimento do planeta é algo natural. É certo que o clima do planeta não é algo estanque e imutável. Ao longo de bilhões de anos, a Terra passou por inúmeras e bruscas mudanças climáticas. Contudo, a intervenção humana está acelerando esse processo a olhos vistos.

O último relatório do IPCC mostra algo que todos já sabiam ou pelo menos desconfiavam. Os países capitalistas ricos destroem o meio ambiente e quem paga a conta é população pobre. As mudanças climáticas e seus efeitos nos próximos 40, 50, 60 anos vão impor profundas adaptações. Cidades costeiras podem ser inundadas com a elevação dos oceanos causada pelo derretimento do gelo polar. Habitantes de continentes e regiões super-habitadas sofrerão com a seca e a diminuição de terras cultiváveis.

No entanto, há uma diferença nisso tudo. Os países imperialistas reúnem melhores condições para se adaptar às mudanças. Podem, por exemplo, impedir que suas cidades sejam devastadas pela elevação dos oceanos. Um exemplo é a Inglaterra. Por muito tempo Londres, capital do país que se encontra praticamente no nível do mar, sofria inundações quando chuvas prolongadas ou a brusca fusão da neve coincidiam com marés altas, afetando o volume de água do rio. A solução foi a construção, em 1982, de um sistema de comportas para regular o fluxo das marés que faziam transbordar o rio Tâmisa. Com a ameaça de uma elevação do nível dos oceanos, estuda-se agora a construção de um novo sistema para impedir qualquer ameaça de inundação.

Por outro lado, os países explorados pelo imperialismo além de não possuírem recursos financeiros para tal adaptação (uma vez que suas riquezas são espoliadas pelas nações imperialistas), ainda enfrentam a degradação ambiental realizadas por multinacionais e grandes corporações.

Além de ser apontada como uma das regiões que mais sofrerão com o aquecimento global em função da seca e da fome, a África se tornou uma espécie de “aterro sanitário” do imperialismo. Lixo radioativo na Somália, derrama de produtos tóxicos por um barco grego junto à Costa do Marfim, mais de 5 mil litros de cloro abandonados nos Camarões são apenas alguns exemplos que tornam o continente o destino de uma boa parte lixo tóxico exportados do mundo. Lixo produzido, fundamentalmente, por multinacionais européias.

Aqui no Brasil, a destruição ambiental segue em escala assustadora. A Amazônia continua sendo devastada pelo avanço da soja e pela indústria madeireira. Agora, o acordo com o governo Lula e Bush sobre o Etanol prevê a ampliação do agronegócio e, conseqüentemente, haverá mais desmatamentos.

Fala-se que o etanol seria a energia limpa, menos poluente que a gasolina. Entretanto, o plantio da cana para produzir o etanol precisa ser feito em grandes áreas (o que ameaça nossa soberania alimentar). Seu cultivo depende de muitos agrotóxicos e superexplora os cortadores de cana. Além disto, o cultivo utiliza o método das queimadas. Basta ir a Ribeirão Preto (SP), grande região produtora de cana, para ver que a população da cidade respira fumaça por messes.

Ações cidadãs?
Diante da catástrofe ambiental, é bastante comum ver a grande mídia e autoridades políticas e até mesmo ambientais levantarem falsos problemas, como, por exemplo, de que a destruição ecológica é culpa do nosso consumismo, da nossa falta de educação, etc. Como saída, apontam soluções individuais “cidadãs”, como plantio de árvores, moderação do consumo de água, uso de materiais recicláveis. A intenção desses senhores é clara: responsabilizar os indivíduos para redimir o sistema capitalista, esse sim o maior consumidor dos recursos naturais.

Não poderia ser diferente, uma vez que o capitalismo tem como força motriz o lucro. A sua busca gera a anarquia da produção que, por sua vez, gera superprodução, crises econômicas e esgotamento dos recursos naturais. Assim, o capitalismo promove uma enorme destruição das condições para a sobrevivência da humanidade.

O problema do consumo dos indivíduos existe, mas está condicionado à existência de uma sociedade que gerou o mito do consumo (como forma de valorização individual e prestígio social) para aumentar a acumulação capitalista.

Qual é a Saída?
A lógica predatória e de concorrência entre os burgueses impossibilita que o capitalismo possa utilizar tecnologias racionais e não poluentes, pois são infinitamente menos rentáveis para os empresários. Portanto, a bandeira ecológica insere-se na luta pela superação completa do regime de exploração. Ou o capitalismo é superado ou a humanidade seguirá para a barbárie e o ecocídio.

É preciso começar a construir essa luta desde já. A luta ambiental deve ser relacionada às lutas sociais. Isso porque elas podem se reunir em torno de objetivos comuns. A luta de comunidades indígenas ou camponesas que enfrentam as multinacionais e o agronegócio tem de desenvolver um combate antiimperialista, mas também social e ecológico.

Outro exemplo, a luta contra a devastação da Amazônia pelo agronegócio deve ser relacionada ao combate pela reforma agrária, do mesmo modo que o combate contra a transposição do rio São Francisco. Também é importante participar das lutas consideradas mais modestas, como a de uma comunidade que se defende contra uma empresa poluidora.

Outra questão que tem tudo a ver com a luta pelo meio ambiente é a questão da moradia. O crescimento urbano virou sinônimo de “favelização”, habitação precária, sem direitos de posse e moradia garantidos, sem serviços sanitários ou de qualquer outro tipo. Hoje, no mundo, segundo os dados da ONU, um bilhão de habitantes são favelados.

Juntar essas lutas será um novo desafio que os sindicatos, entidades do movimento popular e estudantil devem travar.