Racismo da Caixa: Embranquecendo Machado

No final do século 19, quando Machado de Assis estava produzindo a melhor parte de sua obra, teóricos brasileiros, como Silvio Romero e Nina Rodrigues, em livros como “Os africanos no Brasil” (1890) criaram a “Teoria do Embranquecimento”, denfendendo que a eliminação da negritude seria possível nos desenvolvermos como país. Embalados pelo pensamento Positivista (que, dentre outras coisas, pregava que as elites dominantes deveriam servir como padrão para a “evolução social” e o que o “meio” determinava completamente o caráter das pessoas) e por teses pseudocientíficas como a da “eugenia” (que defendia a supremacia “genética” dos brancos) os dois defendiam que a negritude era um obstáculo instraponível no caminho do progresso.

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Para se ter uma precisa idéia do que estamos falando, vale citar duas passagens do livro mencionado, escrito por Rodrigues e prefaciado por Romero:
1)”A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestes serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravidão (…) há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo”.
2)”A constituição orgânica do negro, modelado pelo habitat físico e moral em que se desenvolveu, não comporta uma adaptação à civilização das raças superiores, produtos de meios físicos e culturais diferentes”.

Por mais absurdas que sejam as idéias de Rodrigues e Romero fizeram, e ainda fazem, escola num país marcado pelo racismo, como o nosso. Para se ter uma idéia do que estamos falando, basta lembrar que baseado nas teses dos autores, João Batista Lacerda, o cientista que representou o Brasil no Congresso Universal das Raças, realizado em Londres, em 1911, defendeu que até o início dos anos 2000 o Brasil teria atingido a branquitude necessária para poder, enfim, adentrar no mundo “civilizado”.

Pois bem, é exatamente neste ponto que entra uma das últimas do governo Dilma, aliados e parceiros. Eles, finalmente, conseguiram realizar os sonhos dos racistas do século 19, embranquecendo, por completo, um dos símbolos da cultura nacional: Machado de Assis. Na propaganda que comemora o aniversário da Caixa Econômica Federal (não custa lembrar, administrada pelo governo Dilma), radicalizando a conhecida negação que Machado fazia de sua própria negritude (leia matéria no site), o escritor é representando por um ator quase albino, de tão branco. Se isto nào bastasse, um olhar mais atento, revela que não há um único negro sequer entre as dezenas de coadjuvantes que circulam pela propaganda (que se passaria num momento no qual, segundo o Censo da época, três quartos da população carioca era negra).

Ou seja, parece, definitivamente, que “a história escrita por todos os brasileiros”, sonhada por Dilma, os publicitários que ela contratatou e seus aliados, não pode ter por trás sequer uma mão negra. Lamentável.

Depois de incontáveis protestos, principalmente na internet, o vídeo e a campanha foram finalmente abandonados pela Caixa Econômica Federal. Mas não esconde o racismo da campanha, do banco e do governo.

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