Quirguistão recarregado

Como há cinco anos, revolução popular derruba governo e desenvolve auto-organização dos trabalhadoresNo início de abril, no Quirguistão, repetiu-se como há cinco anos atrás, um audaz processo revolucionário, que encurralou o governo, desta vez o de Kurmambek Bakiyev. A causa do levante foi a grave deterioração no nível de vida da população do país, devido aos efeitos da crise econômica mundial. A elevação das tarifas públicas (de quatro vezes na energia elétrica e quase dez vezes na calefação e água quente, entre outras), símbolo do empobrecimento do povo durante o governo Bakiyev, transformou-se no detonador da insatisfação popular.

Um país pobre em uma região estratégica
Quirguistão fez parte da União Soviética, mas o país mais pobre da Ásia central. Compartilha fronteira com Cazaquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e China, e não tem saída para o mar. Na época soviética era conhecida por seu alto nível cultural, possuindo grandes universidades. Era, também, um país industrializado, centrado na indústria pesada de máquinas-ferramentas, eletrodomésticos e carros. No entanto, a industrialização foi feita ao modo estalinista, com todas as fábricas, engenheiros, técnicos e inclusive operários vindos da Rússia. A imposição estalinista chegou ao ponto de rebatizar a capital do país Frunze, em homenagem a um dirigente do Exército Vermelho. Mas no idioma quirguiz não há o som “f”, o que fazia com que o povo não pudesse pronunciar o nome de sua própria capital corretamente, dizendo então “Porunze”! Hoje a capital a ser chamada pelo velho nome, Bíshkek.

Assim, a indústria sempre foi como um “corpo estranho” no país, e por isso para a nova burguesia quirguiz e o imperialismo foi muito fácil desmantelar toda a infra-estrutura industrial. Esse é um dos motivos que fez que das ex-repúblicas soviéticas da região, o Quirguistão foi a que mais rapidamente avançou nos planos neocoloniais e restauracionistas. Em 1990, o país já era um “exemplo” de aplicação das políticas liberais, o que seguia mais de perto as orientações das organizações financeiras internacionais.

Com a restauração capitalista, o nível de produção no país caiu à metade, fundamentalmente devido ao fechamento das empresas industriais. Hoje depende da exportação de matérias primas e de mão de obra. O Quirguistão tornou-se um país pobre, que exporta algodão, lã, carne, fumo, ouro, mercúrio e urânio (em um total de 1,8 bilhões de dólares), enquanto importa máquinas e equipamentos, alimentos, petróleo bruto e gás (em um total de 3,8 bilhões de dólares) – com um grande saldo comercial negativo da ordem de 40% do PIB. A grande riqueza do país, as estações hidroelétricas, em sua maioria estão em mãos de companhias energéticas da Rússia, associadas ao capital ocidental. Na mineração, outra riqueza do país, também participam ativamente corporações estrangeiras (em especial canadenses).

Desde 2004, foram investidos no Quirguistão 18 bilhões de dólares de capital externo, o que significa uma renda per capita superior ao da Rússia, que já é um dos mais altos do mundo. O PIB per capita do país é de 2.200 dólares (6 vezes menor que do vizinho Cazaquistão). Devido ao desemprego, emigraram para trabalhar em outros países (fundamentalmente para a Rússia) um milhão de quirguizes (20% da população do país e um terço da força de trabalho nacional). As remessas de dinheiro para seus familiares somam 1,2 bilhões de dólares (um quarto do PIB e valor equivalente à metade de todo o orçamento do país). A diminuição das remessas dos operários emigrados devido à crise econômica foi o que agravou a situação econômica do país. A dívida externa é de 2,5 bilhões de dólares, isto é, a metade do PIB. Mais de 60% da população vive no campo. A república está dividida geograficamente entre o sul e o norte, dirigidos por diferentes clãs.

Investimentos externos na economia do Quirguistão entre 2004 e 2008, pela importância do país, em %

Fonte: Comitê de Estatística Nacional do Quirguistão

No entanto, este pobre país encontra-se em uma região estratégica, próxima do Afeganistão, e por isso sempre atraiu a atenção do imperialismo. Ao mesmo tempo, encontra-se na zona de influência histórica da Rússia. Fazendo uso dessa importante posição geopolítica, os governos de Quirguistão sempre jogaram com as contradições entre diferentes interesses (em especial com relação à guerra no Afeganistão), passando da área de influência da Rússia à influência americana. Símbolo desta situação, atualmente no país há duas bases militares estrangeiras, a base militar americana de Manas (transporte aéreo e centro de abastecimento para as operações no Afeganistão) e uma base russa (como parte da Organização do Acordo de Defesa Coletivo, ODKB na sigla em russo, bloco militar que reúne a Rússia, ex-repúblicas soviéticas da Ásia central e Bielorússia). Através do Quirguistão bem como da Rússia, dá-se o transporte de cargas para as tropas da OTAN no Afeganistão.

Repetição de uma revolução
A revolução de 2005, conhecida como Revolução dos Tulipanes, que derrubou ao governo de Askar Akayev, e agora a de 2010, que derrubou Bakiyev, são extremamente parecidas entre si por suas dimensões, pelo grau de espontaneidade da cólera popular, pela disposição das pessoas à luta, pelas figuras políticas fundamentais e pelas medidas tomadas pelos novos governos. A atual cabeça do novo governo provisório, Roza Otunbayeva, fez parte tanto do governo de Akayev como do recém derrubado Bakiyev. A elite política tinha se dividido, dando origem à oposição contra Akayev (com Bakiyev e Otunbayeva na cabeça desta), que ocupou o poder quando as massas se levantaram e expulsaram Akayev. A nova equipe dirigente nunca pôde se consolidar firmemente: entre os blocos dirigentes sempre se deu uma luta pelo controle dos diferentes departamentos, com permanentes atritos entre os clãs. Com a chegada de Bakiyev ao poder, as empresas mais rentáveis passaram as mãos de seu clã, diretamente a seu filho, Maxim Bakiyev. A ele já tinha sido entregue à direção da Agência Central para o Desenvolvimento, Investimento e Inovação, que controla as ações de todas as empresas estatais do país. Setores estratégicos foram transferidos para as mãos de companhias estrangeiras e de offshores.

A crise econômica agravou as contradições e levou a uma forte divisão na elite política dirigente que disputam os pobres recursos do país, no marco de um forte ataque governamental contra os trabalhadores. Perdendo o próprio chão onde pisava, o governo Bakiyev decidiu endurecer o regime e atacar as liberdades democráticas, prendendo seus adversários políticos do bloco concorrente (Otunbayeva e Cia.). Mas isso só aumentou a insatisfação da população, agravando a situação.

Uma tentativa de reação democrática e o surgimento dos “kurultays”
Há cinco anos atrás, quando se derrubou Akayev, surgiram por todo o país em uma série de localidades, os “kurultay” – palavra quirguiz que significa assembléias populares – elementos nascentes de duplo poder, em geral em nível local – o único poder que tinha quando Akayev fugiu. Estes jogaram um papel importante na organização das massas para depor Akayev, no entanto, com a relativa estabilização no poder de Bakiyev-Otunbayeva, os kurultay quase desapareceram. Com o incremento da crise econômica e política, eles começaram agora a reaparecer.

Ao não ter a possibilidade de atuar só em base aos métodos repressivos, Bakiyev organizou um “Kurultay Supremo”, o que, no entanto, foi um acontecimento burocrático, onde os homens de negócios pró-Bakiyev e representantes da elite faziam agitação a favor de Bakiyev. Esta profanação não foi aceita pelo povo e foi denunciada pela oposição, que organizou kurultays alternativos. Apelando aos kurultays, os políticos burgueses jogaram com fogo, arriscando-se a liberar a insatisfação popular, o que de fato ocorreu. A necessidade de apelar ao povo reflete a grande crise política que atravessa o país. No dia 7 de abril devia realizar-se o kurultay da oposição. Para impedi-lo, o governo Bakiyev na véspera começou a prender os oposicionistas. E este foi o detonador da explosão da indignação popular. O comício que se realizou contra as detenções na cidade de Talas, no noroeste do país, se converteu em uma ofensiva popular, ocupando os edifícios da administração e da polícia. A repressão não pôde parar as pessoas e no dia seguinte o levante já tinha incendiado todo o país e em poucas horas derrubou Bakiyev. Agora Otunbayeva e Cia ficaram com o poder, e Bakiyev fugiu para o sul do país (onde estão as bases de seu clã) e, dali, continua articulando as condições de sua renúncia.

O exército e a polícia: em crise, paralisados, mas não destruídos
O exército e a polícia de Quirguistão estão em uma situação de crise total. Faz cinco anos que Akayev já não pôde se apoiar no exército: soldados mal alimentados, vindos do povo, que viam a debilidade do governo; a divisão nas elites e a visível massividade das manifestações do outro lado; não tinham nenhum desejo de disparar contra as pessoas. Por isso o governo em 2005 não decidiu utilizar a força das armas, com medo de que a situação se tornasse ainda pior. Hoje, porém, o governo decidiu disparar contra o povo, matando dezenas de pessoas (mais de 100 pessoas, segundo algumas fontes) e ferindo outras 1.500. No entanto, pela crise das Forças Armadas e a massividade do levante, este instrumento não se revelou efetivo.

Os disparos contra as pessoas foram dados, fundamental, pelas divisões de elite (franco-tiradores) e polícias, sob a observação passiva das tropas do exército. A debilidade das Forças Armadas ficou muito clara nas imagens do Quirguistão, onde se pôde ver o povo surrando os policiais, quando os manifestantes triunfalmente tomaram os carros blindados, veículos policiais e armas. Segundo os meios de comunicação, dois polícias foram mortos e 600 ficaram feridos. A violência revolucionária contra os verdugos e assassinos do povo chama ainda mais a atenção por vir de um povo conhecido em toda a região por sua bondade e docilidade, diferente de seus vizinhos uzbeques, que têm a fama de ser um povo “guerreiro”. Já na noite de 7 de abril, as Forças Armadas tinham passado para o lado da oposição. Ao mesmo tempo, apesar da longa crise desta instituição (agravada após os recentes acontecimentos), elas não estão destruídas e passaram as mãos do novo governo.

A luta pelas bênçãos do imperialismo e os primeiros passos do novo governo
A posição do imperialismo americano – o mais importante na região – no processo atual foi de expectativa. Não teve pressa em reconhecer a legitimidade nem ao novo governo, nem ao velho. O imperialismo – expressou suas preocupações – e exigiu o principal: a manutenção de sua base militar.

Tanto o novo governo como Bakiyev quiseram em primeiro lugar reforçar seu juramento de fé ao imperialismo. Bakiyev chamou a uma intervenção da ONU para “garantir a ordem”. Assim, ele tentou salvar sua pele e seu poder a custas da ocupação de seu próprio país pelo imperialismo e propondo seus serviços como marionete colonial. Já o novo poder, logo declarou que se manterão todos os acordos internacionais já assinados, e que a base americana de Manas ficará no país. Isto é, o novo governo garantiu ao imperialismo a manutenção de seu controle sobre o país e a garantia da continuação da guerra no Afeganistão. A própria Otunbayeva vem do velho PC. Foi representante do Ministério do Exterior da URSS para a UNESCO. E no Quirguistão já independente também sempre foi responsável pelo contato com o imperialismo, encabeçando o Ministério do Exterior do Quirguistão e sendo Embaixadora do país nos EUA. Não sem razão, Hillary Clinton disse que “as pessoas que chegaram ao poder agora no Quirguistão são pessoas com quem nós trabalhamos já faz muito tempo”.

A Rússia, sentindo o perigo da desestabilização da região (o presidente russo, Medvedev, falou sobre o risco de o Quirguistão tornar-se um novo Afeganistão), quase imediatamente reconheceu o novo governo. Até porque com Bakiyev, o Kremlin teve dificuldades para trabalhar, pois fez promessas não cumpridas ao Kremlin, e não deu nada em troca do que recebeu, se voltando totalmente para seu grande chefe – o imperialismo americano.

Com todas suas divergências, todos os participantes a exceção do povo, isto é, o novo governo de Otunbayeva, Bakiyev, EUA, Rússia e até o ex-presidente Akayev, que vive em Moscou, têm um grande acordo: em primeiro lugar há que re-estabelecer a ordem, isto é, deter a revolução, fazer com que as pessoas voltem para as suas casas, defender a propriedade capitalista, sob ameaças ao povo sublevado e restaurar o abalado Estado burguês semi-colonial do Quirguistão. Durante o levante as pessoas empobrecidas tomaram das lojas toda a comida, roupas e produtos de primeira necessidade. E isso não é nenhum crime. Como há cinco anos atrás, o novo governo apressou-se a lutar contra estes “saqueadores”, dando permissão para atirar para matar, defendendo com sangue a propriedade da burguesia. Inclusive o saque de eletrodomésticos das lojas – que não é o melhor uso de energia que se pode fazer durante uma revolução e atrai menos compreensão. Os saques, porém, não são nada em comparação com os crimes dos capitalistas e de seu governo, que mantém o povo na miséria. Ao mesmo tempo, os que tomaram estas mercadorias não podem ser condenados à morte, menos ainda sem julgamento. E o principal, sob a desculpa de lutar contra os saqueadores, o governo pode agora matar qualquer um nas ruas. Na verdade, a luta contra os saqueadores é um toque de recolher contra o povo sublevado.

A vida vai melhorar?
A queda de Bakiyev repete os acontecimentos de cinco anos atrás. Naquele momento se tinha muita expectativa de que o novo governo traria mudanças positivas. No entanto, não houve melhoras. A situação só piorou. Muitos jornalistas burgueses outra vez levantaram a tese sobre a “inutilidade das revoluções”. Mas, por que nada mudou com a queda de Akayev?

A resposta a esta pergunta é dada pelo próprio imperialismo, ao exigir agora em primeiro lugar a inviolabilidade dos acordos internacionais assinados, acordos que ferem a soberania do país. Também exige “ordem” e garantias à propriedade privada e a restauração do estado burguês semicolonial e de suas Forças Armada. As mesmas exigências que teve após a queda de Akayev. Em lugar de um clã burguês, chegou ao poder outro, somente para seguir administrando uma economia semicolonial. Isto é, o saque ao povo e a colonização do país aprofundaram-se. É por isso que tudo piorou.

Enquanto não se romper totalmente a subordinação ao imperialismo; enquanto se mantiver os vergonhosos acordos sobre a manutenção de tropas estrangeiras no país; enquanto não sejam nacionalizadas as grandes companhias e enquanto a propriedade e terras se mantiverem em mãos de um punhado de ricos, devastadores do país, a situação só vai piorar.

As revoluções de 2005 e de 2010 foram vitórias do povo. Mostraram que o povo com sua força é capaz de derrubar governos e impor a sua vontade. O novo governo acaba de anunciar a anulação dos aumentos das tarifas implementadas por Bakiyev e se comprometeu rever as privatizações dos setores estratégicos. Isso é uma vitória dos sublevados.

Para compreender o papel destas revoluções, é suficiente comparar a situação do Quirguistão com a de seu vizinho Uzbequistão, onde uma tentativa de levante há pouco tempo foi sufocada, e por isso a população vive hoje sob um regime policial. O governo Bakiyev era mais débil do que o de Akayev. Provavelmente, o governo de Otunbayeva venha a ser ainda mais débil que o governo de Bakiyev, já que não tem recursos econômicos para poder se consolidar. O que significa que será mais difícil o governo conduzir suas reformas antipopulares.

No entanto, há que compreender que o novo governo de Otunbayeva continuará seu trabalho em favor dos capitalistas; continuará os esforços para colocar o peso da crise sobre os ombros do povo e seguirá com os mesmos ataques iniciados por Bakiyev contra os trabalhadores. Porque o novo governo também não é um governo dos trabalhadores e do povo, é outra vez um governo da burguesia e por isso nunca poderá libertar o país do jugo imperialista, da pobreza, do diabólico controle dos clãs ricos e corruptos (isto é, de si mesmo). Isso somente pode fazer um governo dos trabalhadores e do povo. Para isso os trabalhadores têm que tomar o poder, o que não ocorreu no Quirguistão, nem há cinco anos nem agora.
Apesar do desenvolvimento dos kurultays e de importantes elementos de auto-organização dos trabalhadores, o poder se mantém ainda em mãos da burguesia. E esse é o problema central. Enquanto os trabalhadores não tomarem o poder com suas organizações, se chamem estas soviets, assembléias ou kurultays, então na melhor das hipóteses só se repetirão processos como os de 2005 e o atual, mas sem afirmar uma alternativa.

Desenvolver o movimento dos kurultays e construir uma alternativa operária
A revolução no Quirguistão é um alerta a mais sobre a necessidade de uma alternativa operária. Todos os políticos oficiais do Quirguistão, bem como seus partidos, são burgueses e servem aos interesses de seus grupos. Mas é necessária uma alternativa operária e um partido operário, que lutem autenticamente pela soberania do país, pela libertação da humilhante subordinação a algumas grandes potências, o que só será possível com a realização de uma radical mudança socialista em favor das pessoas comuns. A ausência de tal alternativa no Quirguistão coloca a descoberto o vazio deixado pela ausência de uma direção revolucionária, vazio que é preenchido pela burguesia que só assim consegue se manter no poder após a cada assalto revolucionário das massas.

Hoje não deve ter nenhuma ilusão e nenhuma confiança no “novo” governo, que ainda não se consolidou no poder e mesmo assim já começou a atirar contra o povo e brigar pelas “bênçãos” do imperialismo e do governo russo. Nenhum diálogo com Bakiyev! Julgamento público para Bakiyev! Julgamento público e cárcere para aqueles que atiraram contra o povo e os que deram as ordens! Proibir o uso de armas de fogo pela polícia e dissolver os esquadrões de elite! Nacionalizar toda a riqueza roubada pelos grupos ligados a Bakiyev! Estatização das companhias privatizadas e entregues às multinacionais no período Bakiyev! Não reconhecer as dívidas contraídas durante seu gerenciamento e romper os acordos sobre as bases militares estrangeiras que ameaçam constantemente a soberania do país! Nenhum novo acordo com as potências externas! Anular imediatamente os aumentos das tarifas públicas do governo Bakiyev! Expropriar as terras de todos os grupos latifundiários e colocar, por prazo indefinido, as terras nacionalizadas em mãos de todos os que queiram nelas trabalhar!

A dimensão do processo revolucionário é tal que o novo governo até agora não pôde estabelecer seu controle sobre a situação, no país continuam se dando processos espontâneos de tomadas de terras, continuam as expropriações nas grandes lojas. Um exemplo claro das dificuldades do novo governo é que em uma semana depois que o ministro do interior (polícia) de Bakiyev sofreu uma forte surra nas ruas pelo povo, sucedeu o mesmo com seu sucessor, o ministro do interior do novo governo! O governo, em nome da “paz”, tenta recuperar das mãos do povo as armas tomadas da polícia e das tropas de elite que atiravam contra ele. Não se pode cair nessa armadilha do governo. O novo governo teme que não possa subjugar o povo com facilidade enquanto este mantiver armas em suas mãos.

Do mesmo modo, não se pode cair no erro de defender o novo governo de Otunbayeva, que se diz revolucionário e progressivo. É verdade que Bakiyev tenta salvar sua pele fugindo para o sul do país, onde tenta formar uma base de apoio, confundindo à população com demagogia e dividindo os trabalhadores segundo o tradicional princípio asiático de clãs. No entanto, bastaria por parte do novo governo um decreto sobre a expropriação das terras e sua divisão entre aqueles que nelas queiram trabalhar (bem como atender a outras reivindicações populares) para golpear mortalmente a Bakiyev e tirar-lhe o chão sob os pés. É isso o que se deve exigir ao novo governo. E o governo de Otunbayeva não o faz, precisamente, porque não tem nada de progressivo, é simplesmente outro grupo da elite local, que sempre defendeu os interesses do imperialismo, dos ricos e latifundiários, e que chegou agora ao poder conduzido por uma forte vaga de insatisfação popular (assim como há cinco anos atrás chegou ao poder o mesmo Bakiyev, junto à mesma Otunbayeva). Não se pode ajudar ao novo governo a “restabelecer a ordem” e não se pode também não submeter a este a luta popular. É necessário uma luta independente dos trabalhadores do Quirguistão pela terra e demais reivindicações.

Segundo os meios de comunicação, teve incidentes onde a insatisfação popular se dirigiu não contra o governo, e se contra as minorias nacionais que vivem no país (uzbeques, turcomenos etc.). No caso de que estes incidentes se arrastem, então esse seria o mais forte golpe contra a luta dos habitantes de Quirguistão por seus direitos, já que introduziria entre os trabalhadores dimensões nacionais, em um momento quando se precisa como nunca de sua união acima das nacionalidades e precisamente em um momento no qual os trabalhadores de diferentes nacionalidades têm a força necessária para defender seus interesses conjuntamente. As fontes da pobreza no Quirguistão não são nem os uzbeques, nem os tadjiques, nem os turcomenos, e sim a rica elite local, aliada do imperialismo, cuja queda é a tarefa de todas as pessoas comuns do Quirguistão, independentemente de sua nacionalidade.

A tarefa atual mais urgente do povo do Quirguistão é desenvolver por todo lado o movimento dos kurultays e construir uma alternativa política operária. Nos últimos anos mostraram que deixando as coisas em mãos do governo e sem um partido operário, o povo ficará com nada nas mãos. Essa é uma importante lição da revolução quirguiz.

*Partido Operário Independente (POI), seção da LIT-QI na Rússia*