PSTU marca presença na Marcha contra a Homofobia

PSTU na luta contra a homofobia
Sérgio Koei

Diante da homofobia e do descaso do governo, um algo novo no arNo dia 19 de fevereiro, cerca de 1.500 pessoas foram à Avenida Paulista para protestar contra a violência brutal que homossexuais têm sofrido. A ideia da marcha surgiu após uma onda de agressões em São Paulo, principalmente na região da Paulista. Os manifestantes exigiram a aprovação do Projeto de Lei 122/2006, que torna crime a discriminação em função da orientação sexual, deficiência, idade ou gênero.

Enquanto a concentração aumentava, o microfone foi aberto para todos aqueles que se envolveram na organização e convocação da Marcha. Falando em nome do GT GLBT (Grupo de Trabalho GLBT) da CSP-Conlutas, o militante do PSTU Douglas Borges, iniciou sua intervenção lembrando que os responsáveis pela homofobia não são apenas aqueles que explodem lâmpadas em nossas caras, mas também aqueles que a acobertam e são cúmplices pela omissão.

Como lembrou Douglas, “se temos que estar aqui, hoje, é porque se passaram oito anos do governo Lula, do qual muitos esperavam medidas efetivas contra a homofobia, contudo, nada foi feito. Não veio nada. Assim como tudo mais que prometeu para o povo, Lula nos deixou do lado da mesa, esperando migalhas e, enquanto isso, a homofobia correu solta”.

Continuando, o militante da CSP-Conlutas lembrou que “Lula, infelizmente, não é o único responsável nesta história. Aqueles que transformaram a Parada num carnaval fora de época, mais voltado para o mercado e o turismo do que para a luta por direitos e a defesa da comunidade, também têm sua parcela de responsabilidade. Despolitizar o movimento nos desarma”.

Douglas destacou que, por isso mesmo, naquela tarde de sábado, era possível sentir que “o ar daqui tem cheiro de algo novo e que, ao mesmo tempo, faz parte da verdadeira história do movimento GLBT. É este tipo de Marcha, organizada pela base, com amplo direito de expressão – e não as Paradas, onde nada disso é mais possível -, que resgata o espírito de Stonewall, a luta nas ruas. E, ao mesmo tempo, a forma como esta Marcha foi convocada e organizada e o clima que está pairando aqui lembra a Praça Tahrir, lembra a mensagem que o mundo todo recebeu do povo egípcio há dias atrás: é na rua que se faz e que se muda a História”.

Essa sensação de renovação do próprio movimento foi destacada, também, pelos ativistas GLBT mais antigos. Não foram poucos os que se lembraram das primeiras paradas, em meados dos anos 1990, também realizadas em torno de uma “kombi-de-som”. Ou, como lembrou Marisa Fernandes, do Coletivo Lésbico Feminista e ativista há 32 anos, “esta Marcha e a forma como ela foi convocada têm, de fato, algo de ‘novo´, mas também é símbolo de uma continuidade, de uma renovação, na luta por políticas públicas em defesa dos nossos direitos. Há trinta anos, quando ainda apenas sonhávamos com as Paradas, já era isto o que nos movia com os instrumentos que tínhamos em mão; hoje, esses meninos e meninas estão escrevendo a parte deles da História”.

Governo Lula e homofobia: descaso ou impotência?
Quando a passeata estava prestes a sair, uma comissão de “ilustres” chegou, atrasada, ao local. Tendo à frente a senadora Marta Suplicy, o grupo era composto por membros do governo, como a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) e boa parte da direção majoritária do movimento GLBT brasileiro, como membros da Associação Brasileira (ABGLT) e da Associação da Parada de São Paulo. Na comitiva, estava o deputado federal Jean Willys (PSOL), que também se dirigiu aos manifestantes, como fizeram os deputados Ivan Valente e Carlos Gianazzi, também do PSOL.

O atraso foi motivado pelo fato de que, enquanto os ativistas tomavam as ruas, eles estavam numa solenidade de ampliação dos serviços de um disque-denúncia, que passará a registrar, também, ataques homofóbicos. A pífia iniciativa do governo foi utilizada, pela senadora Marta Suplicy para justificar o atraso e para tentar limpar a barra do governo Lula em relação ao engavetamento dos projetos de leis relacionados aos direitos GLBT. Num exercício de cinismo razoável, Marta iniciou sua fala afirmando que “se temos um aumento da intolerância, a culpa é da omissão do Congresso, pois enquanto o Judiciário e o governo federal avançam em medidas contra o preconceito, o Congresso é marcado pelo retrocesso, e barra a aprovação das leis”.

Uma farsa, contudo, que não resiste aos próprios fatos. Foi uma pena que Marta e sua comitiva tenham ficado presos no coquetel e perdido a fala de Babi Borges, da Secretaria GLBT do PSTU. Pouco antes, ela saudou a marcha: “não podemos esquecer que a violência homofóbica não vem só dos fascistinhas que fazem ataques covardes nas ruas. Pra começar a história, a mesma PM que, agora, se diz ‘preocupada´ com os ataques, está no topo da lista dos agressores e da propagação da ideologia homofóbica”.

Mas, como disse Babi, “eles não são os únicos. Diferentemente do que o governo e seus aliados dizem, se o PLC ou a união civil não foram aprovados até agora isso não é apenas culpa de um Congresso reacionário que fica sabotando as boas intenções do governo. Isto não é verdade. Se o governo quisesse, há muito já teríamos uma legislação anti-homofóbica”.

Exemplos disso não faltam. “A verdade é que quando querem forçar o Congresso a votar algo que interessa ao governo e seus aliados, eles não medem limites. Não faltou ‘força´ para aprovar, recentemente, um salário mínimo de fome. Mas o PT, PCdoB e demais partidos governistas, dizem que não têm como votar o PLC. É mentira. Eles se curvam diante das alianças e compromissos reacionários que assumiram para governar com a elite deste país”, lembrou a dirigente lésbica.

Seguir na luta, na net e nas ruas
Babi encerrou convocando todos a se manterem mobilizados: “Não podemos cair na mesma ilusão da maioria do movimento e ficar esperando que o governo faça algo”. Uma conclamação que foi seguida pela palavra de ordem, que ganhou força no meio da multidão: “Oh! Dilma, eu quero ver o PLC acontecer!”

Ela propôs que todos se unam em torno das atividades do Dia Internacional da Mulher, no 8 de março, principalmente ao ato, que será no dia 12. “É preciso que marchemos lado a lado das mulheres, porque a luta delas também é a nossa: o combate à opressão. Como também, é preciso que sigamos juntos, nas ruas, para resgatar o espírito de luta das Paradas”, afirmou.

Uma possibilidade também destacada por Milton Barbosa, do Movimento Negro Unificado (MNU), que defendeu que “os grupos continuem nas ruas e levem este mesmo clima para a Parada; é preciso retomar a Parada para os verdadeiros interesses da comunidade GLBT e não dos grupos econômicos que, hoje, veem a Parada única exclusivamente como um evento do mercado”. Uma defesa que foi tão fortemente aplaudida quanto a sua proposta de que “a comunidade GLBT tem que discutir mecanismos de autodefesa; como diz a moçada do meu pedaço, não dá pra seguir levando porrada à toa; temos que dar o troco”.

Essa unidade é mais do que possível e foi demonstrada na própria Marcha, na qual guarda-chuvas nas cores do arco-íris foram ladeados por faixas do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e, inclusive, do movimento internacional “Skinheads contra o preconceito”. Um protesto em que palavras de ordem e reivindicações políticas se revezaram com demonstrações de irreverência e raps improvisados contra a homofobia.

Uma Marcha que, ao invés de uma passagem carnavalesca pela avenida, foi marcada por demonstrações políticas, como o momento em que parou diante da rede Viena para protestar contra a demissão homofóbica do jovem Marcelo Fernandes, que estava na passeata. Enfim, o tipo de Marcha que, há muito, o movimento precisava resgatar.