Por questão de segurança

O tema central das campanhas de 2006 parece mesmo ser a questão da segurança pública. Propagandas eleitorais de diferentes candidaturas têm priorizado esta temática. Antes mesmo de começar oficialmente a disputa eleitoral, os principais pré-candidatos ao governo dos estados do Rio e de São Paulo já diziam que a violência, ou a segurança pública, seria o tema número um de suas campanhas.

Candidatos da extrema direita a progressistas dos direitos humanos dedicam hoje boa parte de seu tempo de TV, ou de seus materiais de campanha, para discutir a violência urbana. Em torno do tema, trabalhadores e patrões parecem também se unir na hora do voto. Candidatos, como Luiz Eduardo Soares, hoje, ao lado da “juíza” Denise Frossard, abraçam bandeiras que vão desde o controle da natalidade até prisões “mais humanas”. Em seus panfletos estampam slogans como “todos unidos contra o crime”.

É através do tema da segurança pública que os candidatos efetivamente têm conseguido fugir de questões centrais. Questões estas que são verdadeiramente origem da própria violência. Da disputa pela presidência à corrida por cadeiras no parlamento, o tema mais seguro é a segurança. Neste assunto os políticos não só escapam das denúncias de mensalão, como passam longe das contradições fundamentais de nosso tempo: desemprego, perdas de direitos trabalhistas, arrocho salarial, concentração de renda… Só neste ano, o lucro de empresas como Itaú e Bradesco aumentou 19,5%. O Itaú fechou o primeiro semestre do ano com lucro recorde de R$ 2,958 bilhões. Trata-se do maior lucro da história dos bancos de capital aberto no Brasil (dados da consultora Economática).

Sem falar de setores da indústria de ponta que aumentaram seus rendimentos em 441%. No primeiro semestre de 2006, a Vale do Rio Doce teve faturamento superior em também 19,5%. Para comemorar a festa da lucratividade, participaram de um bom jantar, na casa do ministro Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), Lula e os principais empresários dos setores financeiro, automotivo, de siderurgia, papel celulose e mineração. Em 24 de julho, em discurso na inauguração de seu comitê em Brasília, o presidente Lula, justificou o lucro dos bancos em sua gestão e disse “Banqueiro não tinha porque estar contra o governo, porque os bancos ganharam dinheiro (…) As empresas brasileiras ganharam dinheiro como poucas vezes na história. Aliás, em 2004, foi a primeira vez que as maiores empresas ganharam mais dinheiro que os bancos”. Paralelamente a isso, demissões em massa são anunciadas no Brasil. Exemplo mais recente é o da Volks, que, somado ao aumento de seus lucros em 53,2%, já no primeiro semestre, resolveu demitir cerca de 3.600 funcionários. Como solução frente à mobilização dos trabalhadores, sugere a dispensa de 1.800, com perdas salariais para os que forem poupados.

Para facilitar ainda mais a vida dos que priorizam o debate da segurança pública, o tema se revelou em mais um atalho. É no combate à violência que a conciliação de classe encontra seu melhor espaço. Trabalhadores e empresários unidos contra o crime organizado. Parecem esquecer que o próprio tráfico de drogas, ponto central do debate, também envolve, como todo setor de comércio, empregados e empregadores. Todo o debate se descola da luta de classe, mas têm raiz na luta de classes.

Estudos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) comprovam que o brasileiro tem de trabalhar 145 dias somente para pagar tributos (impostos, taxas e contribuições). Somado a isso, dedica parte considerável do pouco que resta de seu rendimento para ter acesso a serviços antes oferecidos pelo Estado. Os tantos processos de privatizações promovidos por Lula e FHC retiraram investimentos do setor público em serviços básicos. A saúde está nas mãos de convênios particulares. A educação nos braços dos empresários do ensino que hoje curtem os ganhos com o ProUni. Trabalhar parece cada vez mais se adequar ao termo que lhe deu origem: tripalium, instrumento de tortura de três estrelas nas pontas. Não é sem razão que vendedores ambulantes do Rio de Janeiro, violentamente criminalizados pelo prefeito Cesar Maia, brincam diante dos riscos de seu trabalho, ao dizer que o ramo do crime é mais tranqüilo e mais rentável.

Na esteira da alienação da segurança pública escondem-se também reformas em andamento. O chamado SuperSimples, projeto de orgulho de Eduardo Paes, candidato do “Rio que quer Paz”, acaba de ser aprovado na Câmara dos Deputados. Nele, a reforma trabalhista dá seus primeiros passos: acaba com o 13º e as férias dos trabalhadores das pequenas e médias empresas. Sem falar na terceira reforma da Previdência que está a caminho, que pretende elevar para 65 anos o tempo mínimo de aposentadoria.

De fato, diante de um quadro de superexploração da força de trabalho, de baixos salários, de demissões contínuas, altas taxas de lucro, com retorno de epidemias antes esquecidas, como tuberculose e sífilis, e falta de acesso à saúde, fica realmente mais seguro falar em segurança.