Para onde vai a Argentina?

No primeiro turno das eleições argentinas, Apesar da apatia, prevaleceu o voto útil e não o “voto bronca” e o “que se vayan todos” de 2001. O que aconteceu? leia a avaliação do FOS (Frente Obrera e Socialista), organização filiada À LIT no paísNa Argentina, há um ano nenhum dos 17 que se candidataram a presidente podia andar nas ruas. Hoje, tiveram cerca de 70% dos votos. Em outubro de 2001 houve uma avalanche de “voto bronca” e uma votação expressiva na esquerda. Agora estes votos não se expressaram. O que refletiu o resultado eleitoral na Argentina?
Não há dúvidas de que estas eleições se deram em uma conjuntura difícil. Em nível internacional ocorreu a ocupação imperialista do Iraque. Em nosso país vivemos um refluxo nas lutas, que foi aproveitado pelo governo para atacar os pontos mais avançados da revolução: as fábricas ocupadas e a UTD (União dos Trabalhadores Desocupados) de General Mosconi.

A aparente recuperação econômica, a abertura do “corralito” e a distribuição de grandes quantidades de comida; a devolução de 13% nos salários dos funcionários públicos e aposentados e o aumento salarial aos trabalhadores – tudo isso feito com dinheiro do Banco Mundial – serviram para reduzir os protestos sociais.
Além disso o governo também contou e conta com a colaboração e a trégua dos dirigentes da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), CTA (Central dos Trabalhadores Argentinos) e CCC (Corrente Sindical Classista e Combativa).
Mas, apesar de que todos estes fatores têm peso, não são eles que explicam o resultado do processo eleitoral.

A possibilidade de uma nova direção e o resultado frustrado

Em outubro de 2001 houve um rechaço massivo aos políticos tradicionais e uma busca por uma saída à esquerda. A partir da insurreição de dezembro, parecia que esta busca iria ter resultados. Centenas de milhares foram às ruas com panelas, realizando os “cacerolazos”. Dezenas de milhares se encontravam nas assembléias populares e na Assembléia Nacional Piqueteira. Foram aprovados programas revolucionários, que antes só eram defendidos pelas organizações revolucionárias. Nas assembléias populares e no movimento piqueteiro os partidos de esquerda ganhavam peso dirigente.

A expectativa de setores de massa na esquerda crescia como parte da formação de uma nova direção. Esta referência de esquerda aparecia inclusive dentro das fábricas.
A revolução deu à esquerda revolucionária uma oportunidade histórica de construir uma alternativa de direção de massas, ainda que minoritária. Mas os principais partidos e dirigentes, como Zamora, PO e o MST rifaram esta possibilidade.
Estes partidos se culpam mutuamente pela falta de uma alternativa unificada da esquerda. Nenhum deles assume sua responsabilidade e não conseguem abandonar sua lógica eleitoral. Porque o problema não é que não houve uma “alternativa unificada da esquerda” para as eleições. O que aconteceu foi muito mais grave. Esteve colocada a possibilidade de avançar na construção de uma nova direção e havia novos organismos que permitiam buscar esta mudança por fora das eleições. E esta possibilidade se frustrou porque não se avançou na unificação do novo que surgia – Assembléias Populares, Movimento Piqueteiro, fábricas ocupadas. A partir dos novos movimentos que surgiam não se teve uma política de golpear a burocracia sindical que mantém o controle da maioria dos trabalhadores.

Não prevaleceu a lógica da luta que impõe a unidade. Nas eleições, se negaram a chamar o rechaço ao processo, como apontavam as organizações do movimento e chamavam o “voto positivo” priorizando a lógica eleitoral. A falta de unidade da esquerda nas eleições foi o reflexo das disputas burocráticas, que se expressavam na luta pela melhor localização das faixas nas passeatas até a luta intestina dentro dos novos organismos para convertê-los em seus próprios “corralitos”.

A perspectiva para os trabalhadores

Mas seria um erro acreditar que depois da ressaca e instalado o novo presidente, o imperialismo e seus sócios locais vão ter tudo resolvido. Por mais que o “voto bronca” não tenha prevalecido, o novo governo encontrará o FMI instalado em Buenos Aires, exigindo o pagamento da dívida externa e com um movimento de massas que não está derrotado e segue exigindo trabalho, salário, educação e saúde.
Por isso o FOS segue propondo unidade para lutar e democracia operária nos nossos organismos.

A repressão a Brukman conseguiu nos unir. A quase totalidade das organizações piqueteiras, as assembléias populares, a oposição da CTA, os partidos de esquerda, todos nos unimos no primeiro de Maio para exigir a saída do imperialismo do Iraque, apoiar os trabalhadores da Brukman e exigir a liberdade de nossos presos. Esta unidade é a que devemos seguir e aprofundar, para organizar a luta contra o novo governo.

Para avançar neste objetivo é importante encarar o debate sobre o significado do processo eleitoral na Argentina.
Post author Alicia Sagra e Gabriel Massa,
da direção do FOS
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