Os Sonhadores e Edukators: os sonhos de 1968 em dois tempos

cena do filme Edukators

Filmes refletem o fervor que aqueceu corações e mentes no Maio de 68As paixões e ideais que explodiram no Maio de 68 francês ecoam em dois filmes atualmente em cartaz: Os Sonhadores e Edukators. Tendo em comum histórias centradas em três jovens que protagonizam inusitados triângulos amorosos, os filmes, no entanto, se distanciam no tempo, no espaço e, também, na abordagem do tema.

No primeiro, o palco é Paris em pleno Maio de 68, que surge em cores ora vibrantes ora sombrias, invadindo a vida de uma juventude marcada por suas muitas incertezas e dúvidas. No segundo, estamos na Alemanha atual e o ideário de 1968 surge como recordação e referência, cultuadas por jovens rebelados contra o consumismo capitalista e negadas por gente da geração anterior que se acomodou no sistema.

“Toda petição é um poema, todo poema é uma petição”

A frase acima é pronunciada por um dos personagens de Os Sonhadores, ao se referir à campanha relacionada a um dos episódios emblemáticos do “ano que nunca acabou” e serve como ponto de partida para o filme de Bertolucci: a demissão do presidente da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, e as manifestações que se sucederam.

É em torno desse acontecimento – que também serve como marco para discutir a inexistência de fronteiras entre arte e política expressa na frase mencionada – que o jovem norte-americano Matthew se aproxima dos irmãos gêmeos franceses Isabelle e Theo.

Ligados por uma profunda paixão pelo cinema – referência fundamental no decorrer de todo o filme – os três rapidamente embarcam em uma viagem embalada pela melhor música da época (Janis Joplin, The Doors, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Edith Piaf, dentre muitos outros) e uma mescla pouco convencional de política e sexo.

Instalado no apartamento dos irmãos, Matthew não demora muito para descobrir a ardente paixão incestuosa que os une e, passo seguinte, transforma-se no terceiro vértice desta história, dando início a uma relação, que apesar de não explorar o contato físico entre Matthew e Theo – cuja atração é mais do que evidente –, é marcada pela ousadia e um curioso processo de “aprendizado” e descoberta do “outro” e seus limites.

Uma descoberta embalada por falas, trocas de juras de amor, desafios e joguetes sexuais baseados em cenas, diálogos e citações que vão desde os grandes clássicos do cinema à literatura, à música e às artes plásticas (como a sensual reprodução da Vênus de Milo, feita por Isabelle), passando por referências também constantes aos ícones políticos, particularmente Che Guevara e Mao Tse Tung.

Filmado com extrema beleza visual e uma iluminação e enquadramentos que envolvem o espectador, o filme se passa em grande parte no interior do apartamento onde os três jovens mergulham cada vez mais profundamente em seus próprios sonhos, em busca de uma espécie de paraíso perdido, isolado do mundo.

Contudo, a revolução está nas ruas e, em determinado e crucial momento, literalmente invade esse universo. Despertados pelas manifestações e confrontos que acontecem sob suas janelas, Isabelle, Theo e Matthew são envoltos pelo sonho coletivo que varre Paris.

Um sonho que cria um impasse. O jovem norte-americano, pacifista, opõe-se aos confrontos com a polícia. Os irmãos, não. Numa das cenas finais, armado com um coquetel molotov à frente de um batalhão de policiais, o francês é instado pelo americano a desistir do protesto.

“Isto é violência” – grita Mathew.
“Não, isto é maravilhoso!” – responde Theo.

Uma maravilha cujos desdobramentos, tanto nas vidas dos personagens quando no próprio desenrolar da história, Bertolucci deixa em aberto embalada por uma das mais belas canções de Edith Piaf, Je ne regrette rien (Eu não me arrependo de nada), como um lembrete de que nada daquilo foi em vão.

“Todo coração é uma célula revolucionária”

Coincidência ou não, o arrependimento por posturas adotadas no passado está no centro de Edukators, o filme protagonizado por Daniel Brühl, o mesmo ator do excelente Adeus, Lênin!

A frase acima é uma das muitas pichações que Jan, o personagem de Brühl, e seu amigo Peter deixam pelas paredes dos locais onde eles realizam seus inusitados protestos. Auto-denominados de Edukators (Educadores), eles invadem mansões burguesas e, sem roubar nada, desarrumam toda a mobília, rearranjando-a de maneira bizarra, deixando apenas pichações e bilhetes com frases como “Seus dias de fartura estão contados” (título original do filme) ou “Você tem dinheiro demais”.

Com a entrada em cena de Jule – namorada de Peter, que devido a um acidente de trânsito deve uma fabulosa quantia ao empresário Hardnberg – acontece uma sucessão de eventos, quase uma comédia de erros, que levam ao seqüestro involuntário do empresário e ao confinamento de todos numa casa nas montanhas, transformada em cativeiro.

Neste cenário, onde vem à tona o triângulo amoroso que questiona os ideais e as convicções dos jovens, estabelece-se um intricado confronto de gerações e perspectivas políticas. O magnata, arvorando-se de seu passado como revolucionário, em 1968, tenta convencê-los da inutilidade de sua rebeldia. Os jovens, dotados de um forte sentimento anti-capitalista, procuram se manter firmes, apesar de não verem saída nem para situação em que se meteram, muito menos para a revolução que acreditam ser necessária.

Emblemáticos em relação à geração que cresceu sob o nefasto discurso sobre o fim das ideologias e da possibilidade de saídas revolucionárias coletivas, Jan, Jule e Peter, contudo, também são exemplares em relação à juventude que, mesmo assim, aprendeu a odiar o capitalismo e suas mazelas, o que é expresso em passagens memoráveis. Em uma delas, um Jan afirma que os antidepressivos não vão durar para sempre e, portanto, a possibilidade de indignação e rebeldia há de vingar; em outra, surge o debate sobre a capacidade do Capital em se apropriar (e transformar em produto) até os símbolos mais caros dos revolucionários, como a imagem de Che.

Envoltos neste debate e sob a ameaça de serem presos, os personagens caminham para um surpreendente desfecho, marcado por uma última pichação em que se lê “Há pessoas que nunca mudam”. Um lembrete de que os desafios enfrentados em 1968, pelos “sonhadores” persistem, os conflitos de classe permanecem e o fervor revolucionário ainda aquece muitos corações e mentes.

Os Sonhadores
(França/Itália/EUA, 2003)
Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Michael Pitt (Matthew), Evan Green (Isabelle) e Louis Garrel (Theo)

Edukators
(Alemanha/Áustria, 2004)
Direção: Hasn Weingarther
Elenco: Daniel Brühl (Jan), Julia Jentsch (Jule), Stipe Erceg (Peter) e Burghart Klaubner (Hardnberg)
Post author Yara Fernandes e Wilson H. da Silva, da redação
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