Os símbolos deles e os nossos

Daniel Sugasti

A impressionante onda de protestos desencadeada pelo assassinato de George Floyd nos EUA não apenas ultrapassou as fronteiras do país – impactando sobre uma nova realidade mundial – mas também apresentou fatos particularmente emocionantes, típicos de períodos intensos da história.

Um desses momentos aconteceu no dia 7 de junho, quando uma estátua coberta com tinta rolou pelas ruas de uma cidade inglesa, empurrada por milhares de manifestantes até ser jogada nas águas do rio Avon.

A efígie atingida não era outra senão a de Edward Colston, “filho ilustre de Bristol”. Colston [1636-1721] acumulou uma enorme fortuna traficando seres humanos sequestrados da África para depois serem escravizados no Caribe e em outras partes da América.

Estima-se que mais de 84.000 cativos foram traficados em seus navios. As condições horrendas da travessia custaram à vida de entre 10% e 20% da “carga” [1]. O empresário bem-sucedido chegou a ser subdiretor da Real Companhia Africana (RAC, em sua sigla em inglês), que naquela época monopolizava o comércio de escravos. O diretor era nada menos que o irmão do rei Charles II, depois rei James II. O poder que acumulou através de seus negócios o tornou membro do Parlamento britânico no século XVII. Portanto, seus louros como empresário foram associados à “prosperidade” de Bristol, construída sobre carne e sangue africanos. A burguesia local, demonstrando uma profunda consciência de classe e um compromisso (não menos profundo) com os seus, não podia deixar de eternizá-lo, dando seu nome a ruas, edifícios, escolas, além de outros monumentos espalhados pela cidade.

Há muito tempo ativistas sociais fomentavam uma campanha para remover da vista pública o monumento a este genocida. Bem, a história concede revanche. Para o espanto das autoridades inglesas – que viram a cena como uma atrocidade, um “ato criminoso”, um condenável ato “de vandalismo” – aqueles que protestavam em Bristol obtiveram uma vitória que, sem dúvida, elevou a moral de milhões de lutadores e lutadoras em todo o planeta.

O símbolo dos protestos de Bristol era a imagem de George Floyd estampada em cartazes de todos os tipos. O símbolo do racismo e o colonialismo na cidade é Colston. Resultado do embate: a estátua do escravista está no fundo do rio… uma pequena grande vitória.

De fato, os protestos contra estátuas de personagens racistas, colonialistas, genocidas, tiranos de todo tipo, varreram meia Europa. Em Londres, entre outras, derrubaram a estátua do escravista escocês Robert Milligan. Nem o próprio Churchill escapou da explosão da fúria popular: no pedestal de sua estátua na capital britânica, os manifestantes escreveram, com razão, “era um racista”.

Isto acionou o alarme. O governo protegeu o monumento com uma caixa metálica e ordenou uma guarda policial permanente. No sábado, 14 de junho, uma manifestação de extrema direita se reuniu para, junto à polícia londrina, “defender” a memória do “herói” inglês.

Na Bélgica, as dezenas de estátuas de Leopoldo II, que reinou entre 1865 e 1909, agora estão na mira de milhares de manifestantes. Na base de seu monumento equestre em Bruxelas, pode ser lido numa pichação: “este homem matou quinze milhões de pessoas”. Na Antuérpia, sua estátua foi incendiada. Isso é muito simples de entender. No contexto da partilha colonial da África, a atual República Democrática do Congo teve a particularidade de ter sido uma propriedade pessoal do monarca belga. Primeiro, ele enriqueceu explorando o marfim da região. Mas por volta de1890, a alta demanda pela borracha elevou a exploração colonial a níveis de barbárie. Dotado de um exército privado, obrigava os congoleses a cumprir com quotas de borracha cada vez mais elevadas. A crueldade da submissão gerou êxodos e rebeliões, embora fossem afogadas em sangue. Aqueles que não cumprissem com as metas ditadas por Leopoldo II e seus sócios poderiam ser assassinados ou, entre outras atrocidades, ter suas mãos amputadas. Adam Hochschild, historiador norte-americano, estima que a metade da população desapareceu entre 1880 e 1920.

Tanto no Reino Unido como na Bélgica, algumas autoridades removeram algumas estátuas dos espaços públicos para exibi-las em museus. Uma medida que evidentemente foi tomada para evitar que se repitam cenas como as de Bristol.

No outro lado do Atlântico, o assassinato de George Floyd não apenas provocou protestos em massa, mas também jogou mais lenha ao debate sobre a memória histórica nos Estados Unidos. Nas últimas duas semanas, estátuas de líderes ou generais confederados e as de Cristóvão Colombo foram atacadas em meio a protestos, em cidades como Nova York, Boston ou Richmond, precisamente a antiga capital do antigo Sul escravista. A estátua do ex-presidente confederado, Jefferson Davies, concentrou a raiva do movimento antirracista que sacode os EUA. Em consequência, o governador de Richmond decidiu rapidamente remover o monumento que homenageia o general confederado Robert E. Lee. Mas um juiz adiou a medida, apelando a uma jurisprudência que o considera “perpetuamente sagrado. A verdade é que dezenas de monumentos que rendem homenagem a políticos e militares do lado perdedor da Guerra Civil Americana [1861-1865], mecas da ideia da supremacia branca e da causa escravista sulista, estão no centro do debate.

A força do movimento fez com que Donald Trump expressasse, através de um Tweet, que “ele nem sequer considerará” mudar o nome de locais ou retirar estátuas. No entanto, o Comitê das Forças Armadas do Senado, liderado pelos republicanos, instou o Pentágono a renomear as bases militares que tenham nomes de líderes confederados. Esse elemento da crise política nas altas esferas do governo dos EUA ficou claro quando a Marinha norte-americana anunciou em outro Tweet a ordem de “proibir o uso da bandeira confederada em todos os espaços públicos e áreas de trabalho das instalações da Marinha, bem como em navios, aviões e submarinos”.

A América Latina não está alheia ao impacto da rebelião que acontece nos EUA e em outras partes do mundo. Também está colocada a polêmica sobre os monumentos que homenageiam ditadores e genocidas. Para citar um exemplo, em São Paulo existem rodovias com nomes de generais da última ditadura militar. Sem contar os inúmeros monumentos ou nomes de ruas que exaltam as “glórias” dos comandantes do genocídio cometido contra o povo paraguaio durante a Guerra do Tríplice Aliança [1864-1870], como Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro. Mas são as estátuas dos controversos “bandeirantes” que despertaram um debate particularmente acalorado. Não é para menos. Os bandeirantes foram a vanguarda armada da expansão colonial no interior do Brasil atual nos séculos XVI e XVII.

Como explica Rodrigo Ricupero, professor de História da USP, as conquistas territoriais atribuídas aos hoje considerados “heróis nacionais” são inseparáveis da captura e escravização de dezenas de milhares de indígenas, da destruição dos “quilombos” (zonas libertadas de escravos fugitivos que resistiram ao colonizador e escravizador europeu): “eles eram simplesmente a face mais visível da violência fundamental que marcava aquela sociedade […] foram peças fundamentais para a formação e reprodução da sociedade escravista […]”. Os bandeirantes, sustenta Ricupero, foram o outra face da moeda dos senhores de engenhos de açúcar, dos mineradores, dos grandes comerciantes, e do próprio Estado português no Brasil colonizado [2].

Apagar a história?

Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, defendeu a permanência dos monumentos de figuras racistas e colonialistas argumentando que “devemos atacar a substância do problema, não os símbolos” [3].

Muitos historiadores acadêmicos e jornalistas da mídia burguesa se posicionaram no mesmo sentido: as estátuas devem ser mantidas porque, segundo eles, não se pode “apagar a história”. A história é a história, com suas arestas “boas” e “ruins”, dizem. Ou seja, se poderia aprofundar o debate sobre o papel histórico deste ou daquele indivíduo ou período, mas jamais “violentar” os símbolos do passado.

Assim, sob o manto da defesa do “patrimônio histórico” ou urbanístico, ou de um apelo a “estudar” e “contextualizar” a história, escondem uma rejeição – ora aberta, ora velada – e um medo (justificado) pelo conteúdo explosivo da enorme caixa de Pandora aberta com o assassinato de Floyd. O problema para esses políticos e acadêmicos é que esse debate está ocorrendo… nas ruas.

Exposto o anterior, algumas reflexões.

– Não se trata de “apagar” ou negar a história, mas de qual relato historiográfico é reivindicado. Isso dependerá da perspectiva de classe que se tenha. Os monumentos são reivindicações de algo ou de alguém. A decisão sobre o que ou quem merece ser eternizado sempre foi eminentemente política. Em termos concretos, a definição de quem passa à posteridade ou é relegado ao anonimato sempre foi arbítrio das classes dominantes de qualquer sociedade.

– Consequentemente, a ação de repudiar ou derrubar tal ou qual monumento – que reivindica aquilo que as classes dominantes querem que seja reivindicado – é também uma ação política, mas em sentido oposto. É uma rejeição a um tipo de pensamento e ação passados ou presentes. Portanto, se sabemos que as estátuas e monumentos são símbolos, o que convém questionar é: símbolos de que? Porque não existe “patrimônio histórico” abstrato. Isso é sempre ditado pelos vaivéns da luta entre as classes. Se aceitarmos que na sociedade de classes não existe interpretação histórica neutra – como pretendem os positivistas e suas variantes pós-modernas – as massas exploradas e oprimidas – que fazem sua própria história – têm todo o direito de rejeitar tal ou qual monumento ou simbologia impostos por seus exploradores. Nesse caso, os ataques aos monumentos de figuras históricas racistas, colonialistas e, portanto, genocidas, são completamente justificados.

– Se a luta de classes se expressa, entre muitas outras formas, em uma luta ideológica, não há motivos para abdicar da disputa pela simbologia e a memória histórica. A luta simbólica cumpre um papel importante na luta geral. Se não, que o diga o imperialismo, que utilizou ao máximo as cenas das multidões derrubando algumas estátuas que simbolizavam as décadas de tirania estalinista, durante os conhecidos processos da Europa Oriental entre 1989-1991. Ao contrário do que sustenta a propaganda imperialista, as massas não expressaram sua fúria contra “o socialismo”, mas contra um regime que representava a negação do marxismo, o estalinismo. Um regime tão oposto aos postulados da Revolução Russa de outubro de 1917, que chegou a encabeçar a restauração do capitalismo nos antigos Estados Operários. Portanto, esses monumentos foram considerados pelas massas da extinta URSS como símbolos de opressão do “cárcere dos povos”. Mas, na luta simbólica, o imperialismo utilizou essas cenas como “provas” de que havíamos chegado ao “fim da história” e que o capitalismo tinha se mostrado “superior”. Mais de 30 anos após esses eventos, pode-se dizer o contrário. O capitalismo não só falhou em demonstrar sua “superioridade” – é incapaz de lidar com uma pandemia – como é possível que esteja atravessando sua pior crise desde a década de 1930. As massas exploradas de todos os continentes, fartas de penúrias e discriminação, agora orientam sua raiva de diversas maneiras contra os males do capitalismo. Uma delas é destruir a imagem de seus heróis.

– Derrubar as estátuas de expoentes racistas, genocidas, tiranos, é a solução “de fundo” contra o racismo e o colonialismo? Evidentemente, não. Mas são expressões legítimas de rejeição e saturação contra um sistema que nos explorou e nos oprime há séculos. Inclusive, em um sentido, expressam um avanço na consciência. Se o ataque às delegacias e aos patrulheiros da polícia nos EUA demonstrava uma primeira onda de fúria contra as instituições que assassinaram George Floyd e a muitos outros mártires da classe trabalhadora negra, o repúdio às estátuas de traficantes de escravos e representantes do colonialismo sugere que setores da classe identificam que a violência racial possui raízes mais profundas.

– Isso significa que o questionamento desses símbolos é inseparável do justo movimento antirracista, antifascista e, em certa medida, anticapitalista, que sacode os EUA e impacta muitos outros países.

– É evidente, que é necessário estudar a história com o afã de compreender a “substância” das coisas, mas existem personagens cuja reivindicação é inaceitável. Se na Alemanha ninguém pensou em erguer um monumento a Hitler, “adornar” uma praça com uma suástica, ou é inconcebível uma escola chamada Himmler, por que a classe trabalhadora britânica deve aceitar ver todos os dias a estátua de um sequestrador e comerciante de pessoas como foi Colston? Por que os belgas com alguma noção democrática – principalmente a comunidade africana – estão obrigada a aceitar os monumentos de Leopoldo II, um tirano que exterminou entre 10 e 15 milhões de congoleses?

Por que os afro-americanos devem tolerar as estátuas dos generais sulistas e as bandeiras confederadas, o setor de proprietários que arrastou à nação a uma guerra civil para defender a escravidão negra? Por que os brasileiros negros ou indígenas devem se acostumar às estátuas que celebram as “façanhas” dos “temerários bandeirantes”. Por um acaso estão equivocados os manifestantes que, há umas duas semanas, foram até a Universidade de Oxford para exigir a remoção da estátua de Cecil Rhodes, um colonizador racista até a medula que criou um império de extração de diamantes na África do Sul e, com razão, é considerado um dos pais do apartheid? Rhodes foi o fundador da companhia De Beers, que atualmente controla 60% do mercado mundial de diamantes em bruto, mas que em outro período chegou a comercializar 90%. Em 1895 chegou a dizer que: “Anexaria planetas se pudesse. Entristece-me vê-los tão claramente e, ao mesmo tempo, tão distantes”.

O capitalismo, com suas instituições e seus porta-vozes, apresenta como “vândalos” aqueles que agora recusam a política de erguer santuários à barbárie. Para eles, a verdadeira violência não reside no racismo, o colonialismo, ou no genocídio de povos inteiros, mas na ação de pichar ou derrubar estátuas de seus símbolos.

Embora a luta contra o racismo, o colonialismo e todas as atrocidades históricas e presentes cometidas pelo capitalismo não pode ser limitado – nem se limita – a derrubar estátuas, não é menos verdade que, em uma sociedade nova, socialista com democracia operária, nenhuma homenagem a qualquer genocida deverá permanecer de pé.

Neste sentido, devemos entender o fenômeno do questionamento popular – violento ou não – aos símbolos dos crimes (e os criminosos) imortalizados pelas classes possuidoras como mais uma expressão de um processo progressivo, que, além disso, é muito mais amplo e profundo, que está em pleno desenvolvimento dentro e fora dos EUA.

As impactantes cenas de Edward Colston sendo “estrangulado” e depois empurrado até cair no rio devem servir de incentivo para ir além do simbólico, para continuar nas ruas até derrotar os governos burgueses, os genocidas do século XXI, no sentido de um programa socialista revolucionário.

Notas:

[1] A travessia do Atlântico podia durar entre seis e oito semanas. Os escravos, amontoados no meio de seus próprios excrementos, morriam por assassinatos, torturas, doenças ou suicídio.

[2] Consultar: https://www.pstu.org.br/meus-herois-nao-viraram-estatua/

[3] Consultar: https://www.publico.pt/2020/06/15/mundo/noticia/reino-unido-cria-comissao-desigualdades-raciais-devemos-atacar-substância-problema-nao-simbolos-1920561

Tradução: Rosangela Botelho