Os revolucionários frente ao plebiscito na Crimeia


O curso da revolução ucraniana é ameaçado por duas grandes forças contrarrevolucionárias.

Por um lado, os bandidos imperialistas, norte-americanos e europeus, não poupam nenhum esforço para consolidar o novo governo fantoche de seus desígnios e apostam todas as suas fichas no desvio do processo revolucionário pelo beco sem saída da reconstrução das instituições e da realização das eleições no quadro da democracia burguesa. Este plano contrarrevolucionário é desenvolvido ao mesmo tempo em que as potências mundiais reforçam a cadeia de dominação semicolonial sobre o país, por meio de novos acordos e empréstimos com o FMI, Banco Mundial e a União Europeia (UE) e seus consequentes “planos de ajuste”.

Por outro lado, o futuro da revolução ucraniana se enfrenta à ofensiva contrarrevolucionária do reacionário governo russo de Vladimir Putin, o qual, com a queda de Yanukovich pela mobilização revolucionária das massas, sofreu uma derrota ainda mais direta que a do bloco imperialista, devido a que o ex-presidente ucraniano era um agente direto do Kremlin nesse país.

Como sabemos, imediatamente depois desse primeiro triunfo da revolução, o governo de Putin começou uma agressão militar à soberania ucraniana, invadindo com suas tropas a península da Crimeia, onde milhares de soldados russos tomaram aeroportos, edifícios públicos e cercaram as principais bases militares ucranianas.

Paralelamente a isto, Putin impulsa, através da imposição de novas autoridades completamente servis a seus interesses, a separação desse território da Ucrânia e sua anexação à Federação Russa mediante um fraudulento referendo que será realizado em 16 de março.

Neste sentido, em 11 de março, as autoridades separatistas da Crimeia aprovaram no Soviete Supremo local (Parlamento) uma declaração de independência unilateral, dando mais um passo “legal” no sentido da anexação à Rússia. Estas medidas serão combinadas com o resultado do fraudulento referendo, sustentado em uma ocupação militar estrangeira, que sem nenhuma dúvida será amplamente favorável aos interesses de Putin.

Não é casual que a Crimeia seja escolhida como centro da reação contra a revolução ucraniana, tentando arrastar nesta linha outras províncias do leste ucraniano, como Lugansk, Donetsk, Járkov e Odessa.

A península da Crimeia é a região da Ucrânia onde existe uma clara maioria de origem e cultura russas, sendo que este idioma é falado por quase 60% da população de pouco mais de dois milhões de habitantes. Além disso, a Rússia tem interesses estratégicos na Crimeia, não só econômicos (como os gasodutos) mas também militares, pois na cidade de Sebastopol reside sua poderosa e histórica base naval às margens do Mar Negro.

Nós, como já declaramos [1], condenamos a ocupação militar russa da Crimeia e o referendo separatista, impulsionado pelo Kremlin e sustentado por esta agressão russa à soberania territorial ucraniana.

É uma clara reação de Putin ante a derrota que o movimento de massas lhe assestou em Kiev.

Da perspectiva da revolução, além de um ataque ao direito à independência do povo ucraniano, o separatismo na Crimeia não passa de uma tentativa reacionária de dividir a classe trabalhadora, pela amputação do elemento proletário fundamental (mais concentrado no leste) do processo revolucionário que se está desdobrando com mais clareza em Kiev e no ocidente do país.

No entanto, é um fato inegável que a população russa ou de origem russa é majoritária na Crimeia e, ao mesmo tempo, é evidente que este setor deseja separar-se da Ucrânia e ser parte da Rússia.

Ante esta realidade, seria possível perguntar: Os marxistas não deveriam defender o “direito à autodeterminação nacional” deste setor étnico e cultural (russo) na Ucrânia? Embora não concordemos com sua separação, não será o caso de apoiar seu “direito” de decidir sobre tal questão?

Para responder a esta questão fundamental, como orientava Lenin na hora de encarar qualquer debate que envolvesse a chamada “questão nacional”, é necessário analisar cada caso específico de forma concreta.

Por isso, para entender este problema particularmente complexo e poder definir uma posição revolucionária frente ao referendo convocado na Crimeia, é indispensável conhecer e analisar, mesmo que em seus traços gerais, o processo histórico que determinou a atual composição étnica, linguística e cultural da península.

Dos cimérios ao império russo
Entre os séculos VIII a.C. e VII a.C., o atual território da Crimeia foi habitado por civilizações cimérias e escitas. De fato, o próprio nome da região deriva de Kymeria ou Ciméria (país dos cimérios).

Posteriormente chegaram os gregos, que fundaram muitas cidades e conheceram o lugar como Chersonesus Taurica, nome proveniente de Tauri, uma tribo descendente dos cimérios.

Em 438 a.C. os gregos milésios formaram no local o chamado reino de Bósforo, o qual, em 114 a.C. foi governado por Mitrídates VI Eupator, rei do Ponto e um dos mais fascinantes inimigos do império romano. Quando o rei Mitrídates foi derrotado pelos romanos (ao redor de 64 a.C.), a península passou a formar parte das possessões de Roma, inaugurando um período de dominação de quase três séculos.

En 250 d.C., a atual Crimeia foi conquistada pelos godos, a primeira de uma série de invasões, que se estenderam por um milênio e nas quais se sucederam hunos, alanos, ávaros, jázaros, pechenegas, varengos, romanos e genoveses.

Em meio a esse processo, durante a Idade Média, uma mistura étnica entre clãs genoveses, venezianos e turcos, que haviam conseguido assentar-se nesse território, deu origem aos chamados tártaros da Crimeia, grupo étnico-linguístico que finalmente pode consolidar-se como uma população própria da península.

Os tártaros da Crimeia, muçulmanos sunitas, com o tempo dominaram todo o território e formaram um Estado próprio, o chamado Kanato da Crimeia, que governou a região de 1441 até 1783, sendo parte do antigo império otomano.

O império otomano, através do Kanato da Crimeia, perde o domínio da península como consequência da derrota militar ante o império russo (1768-1774), fato que marcou o começo do controle de fato de todo esse território por parte da dinastia Romanov.

O império russo, então, impôs condições leoninas aos vencidos, como o pagamento de pesadas indenizações e a construção de portos e de uma base naval no Mar Negro, com a qual conseguiram uma saída ao mar Mediterrâneo, e que permanece até nossos dias.

Depois desta guerra, o Kanato da Crimeia sobreviveu só formalmente, dividido entre facções que apoiavam a Rússia ou a Turquia, situação que deu início a uma guerra civil. Esta situação se desenvolveu até que, finalmente, em 1783, os russos ocuparam a Crimeia sob a ordem da imperatriz Catarina II, chamada a Grande, anexando definitivamente a península ao império dos czares.

A partir daí começa um processo de russificação desse território, que teve uma importância estratégica para o czarismo. A Crimeia foi a ponta de lança do expansionismo imperial russo na região, fundamentalmente contra interesses do império otomano, que começava a manifestar sua decadência.

De Sebastopol, onde instalaram a base naval que atuou como posto militar  avançado, os Romanov conseguiram intimidar os otomanos e garantir o domínio russo em toda a região circundante, inclusive o Cáucaso e os estreitos turcos para sair ao Mediterrâneo.

Foi justamente o expansionismo russo e, portanto, a defesa dos interesses das principais potências europeias, sobretudo o Reino Unido, que via seu controle no Oriente Médio (a rota à Índia) ameaçado, o elemento central que detonou a conhecida Guerra da Crimeia (1853-1856), uma espécie de ensaio de contenda mundial que colocou os russos contra uma entente britânico-francesa, turco-otomana e piemontesa, e que terminou com a derrota do império russo após onze meses de um feroz cerco a Sebastopol, episodio bélico que ficou imortalizado nos escritos de Tolstoi.

O genocídio dos tártaros por Stalin
No século XX, depois da vitória da revolução russa e da vitória soviética na guerra civil que lhe sucedeu, a Crimeia converteu-se em uma república autônoma para os tártaros, no marco do respeito aos direitos nacionais que caracterizou os primeiros anos da revolução.

Mas esta política, como sucedeu com todas as nacionalidades não russas do antigo império czarista e da ex-URSS, mudou com o triunfo da contrarrevolução stalinista na década de 1920, que voltou a impor uma política chauvinista gran-russa brutal às nacionalidades oprimidas.

Em 1941, a Crimeia foi invadida pelo Exército alemão. Em junho de 1942, depois de cruentas batalhas e ao custo de um terrível cerco de 10 meses e mais de 170 mil mortes, os alemães conquistaram Sebastopol e a base naval russa. A ocupação nazista se prolongou até 1944, quando suas tropas foram expulsas pelo Exército Soviético.

A situação gerada pela ocupação alemã foi aproveitada por Stalin para dar um salto qualitativo na russificação forçada da Crimeia. O ataque começou com o rebaixamento da categoria de República Autônoma da Crimeia para a de oblast (província).

Mas isto não foi o pior. A russificação brutal da Crimeia impulsionada por Stalin tomou a forma de uma das mais brutais e criminosas limpezas étnicas da história moderna.  Referimo-nos à política de extermínio dos tártaros, a população histórica da península.

Foi assim que, em 1944, com a acusação de que os tártaros da Crimeia haviam colaborado de forma generalizada com o ocupante nazista, Stalin simplesmente declara que essa nacionalidade estava “abolida” e começa um processo de assassinatos e deportações em massa dos tártaros e, em menor medida, de outras minorias gregas, búlgaras e armênias com destino à Ásia central e outras regiões da URSS.

Este terrível desterro e limpeza étnica é conhecido, entre os descendentes dos tártaros da Crimeia como o Sürgün (exílio, em tártaro). O Sürgün começou em 17 de maio de 1944 em todas as localidades da Crimeia. Participaram da operação mais de 32 mil efetivos da sinistra NKVD. Desta forma, foram deportados mais de 190 mil tártaros (fala-se em 250 mil) ao Uzbequistão, Mari, Cazaquistão e a outros oblasts russos.

Entre maio e novembro de 1944, mais de 10 mil tártaros da Crimeia morreram de inanição no Uzbequistão (ao redor de 7% dos deportados a essa ex-república soviética). Do total de desterrados, aproximadamente 20% morreram no exílio durante o ano e meio seguinte, segundo dados da polícia política soviética. No entanto, segundo ativistas tártaros, o número real de mortes representaria 46% dos deportados.

É claro, embora estes fatos sejam pouco conhecidos, que o stalinismo aplicou uma política sistemática não só de segregação, mas de extermínio físico da nação tártara. De fato, as organizações de descendentes de tártaros da Crimeia reivindicam que o Sürgün seja reconhecido oficialmente como um genocídio pelos organismos internacionais.

A população tártara na Crimeia foi dizimada e expulsa de sua própria terra, para depois ser substituída por colonos russos. Portanto, podemos afirmar que a atual “maioria” russa na Crimeia vem daquele processo de russificação iniciado no fim do século XVIII e, especificamente, do atroz genocídio de 1944-45.

Com a dissolução da URSS, os remanescentes da diáspora tártara foram retornando à sua terra de origem, mas sob uma nova composição demográfica, na qual não superam 12% da população da Crimeia e, ao lado dos ucranianos (24%), são atualmente uma minoria em sua própria pátria, e por isso se opõem à unificação com a Rússia, seus verdugos históricos.

Esta é a base objetiva do permanente separatismo da população de origem russa na Crimeia, o qual se acentuou quando, em 1954, o ex-líder soviético Nikita Kruschev “presenteou” a península à Ucrânia, em teoria para comemorar o tricentenário do tratado de 1654 que uniu a Ucrânia e a Rússia.

Na realidade, esta medida era uma necessidade do Kremlin para equilibrar relações e atenuar tensões a nível da própria burocracia governante no período imediato à morte de Stalin, onde um dos problemas latentes eram as tendências separatistas na Ucrânia soviética. Nesse sentido, com aquele “gesto”, Kruschev buscava aplacar certos ânimos hostis em setores da burocracia, sem deixar de controlar a península através da Ucrânia.

Em síntese:

1. Os revolucionários não podem apoiar em nenhum sentido a política separatista concretizada no referendo que o Kremlin e seus representantes na Crimeia realizam, devido a que a população russa ou de origem russa na península, em primeiro lugar, não constitui uma nacionalidade oprimida. Ao contrário, historicamente é o chauvinismo gran-russo que oprime a Ucrânia como um todo e as demais ex-repúblicas soviéticas não russas.

2. No caso concreto da Crimeia, a atual “maioria” russa se deve a um processo agressivo de “russificação” desse território há mais de dois séculos e que inclui a abominável limpeza étnica (através de um genocídio e deportações massivas) que foi realizada por Stalin contra a população tártara originária e outras minorias étnicas.

Esse processo de “russificação” na Crimeia é inseparável não só da política geral de opressão nacional exercida tanto pelo czarismo quanto pelo stalinismo, mas da necessidade de garantir o controle total do território sede da base naval em Sebastopol, histórico posto militar avançado dos interesses russos na região e que atualmente conta com treze mil soldados.

Devido ao exposto anteriormente, concluímos que os setores russos ou pró-russos na Crimeia não têm nem podem ter o direito democrático à autodeterminação nacional (separação) que as nacionalidades oprimidas têm.

3. Neste sentido, não existe comparação possível com os casos das nacionalidades catalã ou basca, citando exemplos mais conhecidos, que são oprimidas pelo Estado espanhol. Em tais casos, embora os marxistas possam discordar em relação à separação dessas nacionalidades do Estado espanhol, expressam o reconhecimento incondicional ao seu legítimo direito de decidir livremente sobre sua autodeterminação nacional.

4. Se o fundamental para definir uma posição revolucionária se encontra nas considerações anteriores, não se pode deixar de assinalar que, em qualquer caso, o referendum que está em marcha na Crimeia carece de qualquer tipo de legitimidade por estar sendo imposto por uma ocupação militar estrangeira, neste caso o exército de Putin. Esta agressão militar, além de violentar a soberania ucraniana, é uma reação direta às primeiras vitórias do processo revolucionário com epicentro em Kiev, e tem um caráter profundamente contrarrevolucionário.

Neste sentido, apresentar este referendo como um exercício democrático de expressão popular quando as botas russas pisoteiam a soberania ucraniana e Putin extorque o país aumentando o preço do gás e ameaçando com o corte de fornecimento, é um absurdo que não merece uma qualificação menor que a de farsa.

5. Estamos ao lado do povo ucraniano na defesa de sua soberania e sua revolução. Exigimos a imediata retirada de todas as tropas russas e seus representantes políticos da Crimeia, assim como a invalidação do fraudulento referendo.

Estamos ao lado dos que, na praça Maidán, gritam: Unidade! A Ucrânia é indivisível! A Crimeia é a Ucrânia! Estamos ao lado, na Crimeia, das minorias tártara e ucraniana, que lutam contra o separatismo reacionário.

Reafirmamos que a única saída para que o processo revolucionário avance, partindo da enorme vitória com a queda de Yanukovich, é a retomada das grandes mobilizações e das ocupações de praças e edifícios públicos. Estas mobilizações devem ser democraticamente organizadas por organismos operários e populares, que por sua vez estejam unidos por um plano de luta nacional, ao qual se incorporem as reivindicações democráticas e econômicas mais sentidas do povo, das minorias e, sobretudo, do proletariado ucraniano.

Neste sentido, a tarefa mais urgente do momento é a luta pela expulsão do invasor russo e a defesa da soberania e da unidade territorial da Ucrânia.

Nesta luta, o movimento de massas ucraniano só deve confiar na força de sua própria mobilização.

Não pode confiar nem por um momento no novo governo liderado por Yatseniuk-Turchinov, que assiste impassível à consolidação das posições de Putin na Crimeia e, fundamentalmente, apesar de seus discursos “nacionalistas” e frases como “não cederemos um centímetro de terra ucraniana”, estão vendendo o país aos capitais imperialistas europeus e estadunidenses.

Os setores neonazistas e de ultradireita têm a mesma posição, como o “Setor de Direita” e o Svoboda: enquanto enchem a boca de “nacionalismo”, integram o novo governo servil e apoiam integralmente a entrega do país à UE e ao FMI.

O povo ucraniano tampouco deve confiar na falsa retórica sobre a “defesa da soberania” ou o “respeito ao direito internacional” de Obama e dos líderes da UE. Estas potências só querem colonizar a Ucrânia, sujeitá-la com mil cadeias a seus desígnios e, portanto, são inimigas irreconciliáveis do povo ucraniano.

Os líderes imperialistas da UE mantêm negociações com Putin e, nos fatos, estão “deixando correr” a vergonhosa anexação da Crimeia à Rússia, pois não se animam sequer a aplicar reais sanções econômicas ao Kremlin, devido à dependência europeia ao gás de Putin [2] e aos investimentos dos oligarcas russos nos países europeus. Isto, sem falar do temor de prejudicar os numerosos investimentos de capitais imperialistas na Rússia.

Por seu lado, neste conflito Obama prefere mover-se com cuidado, para não romper o pacto contrarrevolucionário que tem com Putin para derrotar a revolução síria e estabilizar o Oriente Médio.

Por isto, a luta contra a anexação da Crimeia e a bandeira histórica de uma Ucrânia independente e unida! recai nas mãos da classe operária e do povo pobre, que ao calor do processo revolucionário necessita urgentemente construir uma direção socialista revolucionária que combine esta luta democrática com a estratégia de uma Ucrânia operária e socialista.

[1] Ver: http://litci.org/artigos/53-ucrania/4262-ifuera-putin-de-ucrania-ipor-uma-ucrania-independiente-e-unida

[2] A dependência europeia do gás russo é enorme e se resume em três cifras: uma quarta parte da energia consumida pelos europeus tem o gás como fonte, um terço deste gás é russo e 15% de todo o gás europeu chega através do gasoduto que atravessa a Ucrânia.