Os limites da vitória militar imperialista no Iraque

a resistência das massas demonstrou os limites da ofensiva recolonizadora
e cria dificuldades para que o imperialismo consiga seus objetivos políticos

Depois de jogar sobre a população iraquiana 15 mil bombas “inteligentes”, 7.500 bombas não guiadas e 750 mísseis de cruzeiro, destruindo o que restava do país, os EUA não foram capazes de demonstrar ao mundo as tais “armas de destruição massiva”, motivo alegado para matar crianças, homens e mulheres.

Rapidamente a máquina de propaganda muda o discurso oficial. O objetivo da barbárie imperialista é a “libertação dos iraquianos”, o que foi prontamente desmentido pelas manifestações populares contra a ocupação americana.

Na terça-feira, 29, a cidade de Fallujah foi palco da ação do “exército libertador”. Uma manifestação que tentava impedir que tropas americanas ocupassem uma escola foi reprimida a bala, com 15 mortos e mais de 75 feridos. Quase ao mesmo tempo, na cidade de Mossul, a repressão a outra manifestação deixava seis mortos.
Apesar da clara vitória militar do imperialismo, as contradições políticas no Iraque e na região tendem a crescer. Em outro nível, ela também aumenta em escala mundial.

Uma crise aberta

O reforço do secretário de Defesa Rumsfeld e do vice-presidente Cheney, tidos como os falcões do governo norte-americano e dispostos a seguir com a guerra de conquistas dentro do Oriente Médio, criou problemas em todos os lados. Ao mesmo tempo em que abriu uma crise nas relações interimperialistas, colocou em xeque a ONU e desmascarou de vez a posição do imperialismo ianque frente às amplas massas, à exceção dos próprios EUA.

Do lado de cá, a força do movimento contra a guerra não desapareceu com a vitória militar. A profunda consciência antiimperialista despertada foi reforçada pelas cenas da guerra e pelo “desmascaramento” de todos os pretextos. As massas em todo mundo reconhecem o caráter colonialista das ações do imperialismo.

Isto pode significar uma resistência maior das massas em distintas regiões do mundo, nas quais o imperialismo investe para impor sua estratégia de recolonização. Por exemplo, a ALCA tende a ganhar uma oposição mais consciente da maioria da população.

A crise nas relações internacionais não está fechada. Apesar da reacomodação dos governos imperialistas da França e Alemanha, e da conseqüente aceitação pela ONU do fato consumado da ocupação, está em questão o futuro desta organização, assim como o da OTAN e de outros organismos imperialistas como a OMC, que paralisou a atual rodada de negociações para maior abertura comercial dos países no setor de serviços e no agrícola.

Nada resolvido no Oriente Médio

Na região do Oriente Médio, a disposição de luta das massas árabes foi afetada pela traição de Saddam. Mas, caso a resistência das massas tenha continuidade e coloque em xeque a ocupação, há uma tendência a fortalecer a mobilização na região.
A situação no Iraque tende a se complicar na medida em que o governo Bush não tem setores burgueses de peso em quem se apoiar para sustentar o protetorado. A administração colonial que estão instalando tenta agora construir uma base social com algumas lideranças locais dóceis, que dê a aparência de “democracia iraquiana”.
O candidato a esse papel é Ahmed Chalabi. Um milionário ligado à cúpula do governo Bush, há 45 anos fora do país e com ordem de prisão na Jordânia por fraude. Sua volta ao Iraque foi promovida pelo Pentágono e é garantida pelas tropas dos EUA.
Instalado num clube de golfe em Bagdá, sob a proteção de tanques dos EUA e de uma guarda pessoal de 700 mercenários. Chalabi e seus grupos tentam auto-proclamar prefeitos de Mossul e Bagdá, recebendo em resposta o repúdio da população.
Em Mossul, o auto-empossado prefeito do CNI, quando se dirigia a população defendendo os EUA, gerou uma mobilização contra a ocupação que foi reprimida pelos soldados norte-americanos, causando 15 mortos. O “prefeito” de Bagdá não é reconhecido sequer pelos ocupantes, cargo que já foi destinado a uma norte-americana.

O tal governo de transição prometido pelo general Jay Garner, o administrador nomeado por Rumsfeld, pode ser uma entidade sem nenhum respaldo real na população, pelo menos a primeira reunião foi boicotada pelos grupos mais representativos.

Xiitas e curdos

A rápida entrada em cena dos xiitas é ainda mais preocupante para Bush. Por ocasião de uma comemoração religiosa, os xiitas realizaram uma marcha multitudinária de todo o país para a cidade de Kerbala. Este ato se converteu no principal protesto contra a ocupação, a palavra-de-ordem que centralizou o protesto foi: “que os iraquianos formem seu governo sem EUA nem Saddam”.

Acontece que, diante do vazio político deixado após a queda do regime de Saddam, a única organização com respaldo em grande parte da população é a dos clérigos xiitas, que em sua maioria já se posicionaram contra a ocupação. Na falta de organizações políticas no país, as mesquitas se constituem em um espaço político para qualquer reunião ou articulação.

A influência do Irã entre os clérigos xiitas pode converter a luta contra a ocupação numa luta por uma república islâmica no Iraque. Os porta-vozes do governo Bush já disseram que isso é inadmissível para os EUA. A grande contradição é que em eleições burguesas normais os xiitas, com 60% da população, se bem organizados tendem a ser maioria, criando assim um problema tremendo para os planos imperialistas.

Mesmo entre os curdos, cuja direção apoiou a ocupação, existe uma grande contradição. Os curdos lutam por sua independência e exigirão dos EUA mais autonomia e mais peso no governo iraquiano.

Qualquer concessão aos curdos estimulará a luta da população curda espalhada por outros países da região. Em particular na Turquia, que persegue ferozmente e não reconhece a mínima autonomia para a população curda.
Ante o mosaico étnico/religioso do Iraque, a forma que tende a tomar o protetorado é o de uma ditadura ainda mais feroz que a de Saddam. Os EUA, diante da falta de interlocutores burgueses com respaldo social, fora dos xiitas e curdos, terão que buscar apoio entre as forças de repressão do partido Baath e reforçar as forças de ocupação.

Esta situação causa várias contradições para a política do imperialismo. O reforço de sua presença militar – estima-se em 200 a 300 mil soldados – aumentará a hostilidade da imensa maioria da população. Sobretudo não se pode descartar a resistência armada, em um país muito mais importante que o Afeganistão. Neste caso, seria um estímulo a luta das massas árabes. Hipótese que ainda não está descartada.

O custo da ocupação é um peso grande para economia dos EUA que continua sem dar sinais de melhoria real. Essa situação mostra que o triunfo militar por si só não garantiu o sucesso do projeto dos EUA.

Esse projeto não é somente ocupar o Iraque, mas é o de redesenhar todo o mapa do Oriente Médio, acabar com todos os regimes que não se curvam ante os EUA, como Síria e Irã. Por isso, logo após a queda de Bagdá, a Síria foi acusada de possuir “armas de destruição em massa”.

No entanto, diante da instabilidade no Iraque e a oposição dentro dos EUA a novas aventuras militares imediatas, Bush optou por diminuir a temperatura e ficar na chantagem sobre os governos sírio e iraniano.

A ofensiva recolonizadora também demostrou seus limites, pois a tendência a resistência das massas conduzirá a enfrentamentos cada vez maiores, o que dificulta ao imperialismo dominante conseguir os objetivos políticos que determinam esta ofensiva, a resolução de sua crise.

Post author João Ricardo Soares, da redação,
e José Weill, especial para o Opinião Socialista
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