Os Estados Unidos continuam em um pântano

No dia 30 de janeiro ocorreram as fraudulentas eleições para a Assembléia Constituinte do Iraque montadas pelos invasores imperialistas, encabeçados pelos EUA e pela Grã-Bretanha. Seu objetivo era desmontar (ou pelo menos reduzir) a feroz resistência militar que, com apoio massivo da maioria do povo iraquiano, cresce e se fortalece a cada dia, e disputa com os exércitos invasores o controle efetivo do país. Também buscavam, na medida do possível, conseguir um novo governo títere com maior base popular e, para isso, contaram com a cumplicidade das direções burguesas curdas, no norte do país, e de importantes setores do clero xiita, como o Aiatolá Ali Sistani (máxima autoridade dessa corrente religiosa no Iraque), que chamou o voto e respaldou uma das chapas participantes. Além disso, contaram com o apoio dos imperialismos alemão e francês (que não haviam concordado com a invasão do Iraque) e da ONU.

Todas as informações independentes (e inclusive de alguns meios imperialistas) parecem indicar que o imperialismo e seus cúmplices iraquianos fracassaram em seus objetivos. Para entender melhor esta avaliação, assim como o próprio caráter das eleições, é preciso partir de uma caracterização sobre a situação atual do Iraque.

Uma guerra de libertação em ascenso
O que hoje vemos no Iraque é uma guerra de libertação com apoio das massas que encurrala de forma crescente os ocupantes. Expliquemos melhor. Em março de 2003 ocorreu no Iraque uma primeira guerra de ocupação. Nela, as tropas imperialistas dos EUA, da Grã-Bretanha e de seus aliados alcançaram uma rápida vitória militar sobre o exército iraquiano, derrubaram o governo e o regime de Saddam Hussein, dissolveram seu exército e instalaram um regime colonial, encabeçado por Paul Bremer (depois de um breve período do coronel Jay Garner), assentado nas tropas invasoras. Dentro desse regime tentaram formar diversos governos fantoches, como o do atual primeiro ministro Allawi (ex-agente da CIA), e construir um exército iraquiano fiel, até agora sem grande sucesso.

A partir desse momento teve início uma segunda guerra, a do povo iraquiano contra os invasores pela liberação do país, similar à do povo do Vietnã do Sul nas décadas de 1960 e 1970 ou à da resistência nos países ocupados pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Como disse um iraquiano ao jornalista americano Dahr Jamail: “A invasão foi a guerra dos EUA contra o Iraque. Agora estamos vendo a guerra do Iraque contra os EUA” (Liberation, 23/12/04). Essa é a guerra que vem crescendo e pondo cada vez mais contra as cordas as tropas invasoras e seus colaboracionistas iraquianos.

A resistência militar
O dados dos própios serviços de inteligência imperialistas estimam que a resistência militar conta com 40 mil a 60 mil combatentes. Se se consideram aqueles que lhes dão apoio logístico, a cifra supera os 200 mil integrantes. Eles são só a vanguarda da resistência, já que recebem o apoio massivo (e seguramente a cobertura) da ampla maioria do povo iraquiano. Na mesmo entrevista, Jamail diz que “a maioria dos iraquianos considera os membros da Resistência como ´patriotas´ e ´combatentes pela liberdade´. Em uma estimativa muito conservadora, recebe hoje o apoio de pelo menos 80% da população. (…) As pessoas ovacionam quando outra base ou patrulha americana é atacada ou dança em júbilo sobre equipamentos militares americanos em chamas”.

Trata-se de uma resistência muito ampla e heterogênea, formada por diversos setores religiosos e políticos que lutam contra a ocupação. Em linhas gerais, podemos considerar três setores. Um, composto pela oficialidade média e baixa do ex-exército iraquiano, majoritariamente sunita, que se passou à clandestinidade depois da invasão, levando consigo uma parte do arsenal militar. É considerado o setor de maior capacidade militar. O segundo são os grupos organizados por frações religiosas ou políticas, como a Aliança Patriótica ou o exército Mahdi, do clérigo xiita al-Sadr. Finalmente, há um setor muito grande de pessoas comuns que se somou a essa luta depois da invasão e de sofrer suas consequências. “A maioria de seus membros são (…) fundamentalmente pessoas que se limitam a resistir à ocupação de seu país por uma potência estrangeira. São pessoas que tiveram familitares mortos, presos, torturados e humilhados pelos ocupantes ilegais de seu destroçado país” (entrevista citada).

Apesar da tentativa do imperialismo de usar as barreiras religiosas entre xiitas e sunitas, que se intensificaram com as perseguições da ditadura de Saddam, a ação dos diversos grupos começa a unificar-se e a avançar em uma ação centralizada ou, pelo menos, de colaboração entre suas diversas alas. “Durante o cerco à Najaf xiita as mesquitas sunitas organizaram coletas de alimentos, e combatentes sunitas forneciam armas e munições ao exército de Mahdi. Durante o cerco a Faluja em abril passado os xiitas contribuíram decisivamente com ajuda e participaram em uma ação pacífica que possibilitou que alguns víveres pudessem atravessar um cordão americano e chegar até a cidade”, disse Jamail.

As ações militares
Estima-se que a resistência está produzindo em média 100 fatos diários, que incluem verdadeiras insurreições militares, como as de Faluja e Najaf, operativos organizados contra as tropas invasoras, policía e o exército oficial, até atentados suicidas individuais com bombas. Isto confirma a massividade da resistência e o ódio popular contra os invasores e seus cúmplices. O jornalista inglês Robert Fisk calcula que nos últimos 12 meses ocorreram 190 atentados suicidas, uma cifra que quadruplica o que ocorre na Palestina em e Israel.

Essas ações militares provocaram a morte de 1.300 soldados americanos e cerca de 10 mil feridos, assim como uma cifra mais difícil de estimar de mortos e feridos entre os iraquianos colaboracionistas, que exercem cargos políticos ou são membros do atual exército e da polícia.

Esses colaboracionistas gozam de um ódio muito profundo por parte da população e são também um alvo militar mais frágil. “As ´forças de segurança´ iraquianas, a polícia e a guarda nacional são consideradas pela maioria da população como cupinchas do exército americano. A maioria das pessoas os consideram colaboradores e traidores. Apesar das pessoas compreenderem que muitos dos integrantes dessas forças se envolveram nelas por puro desespero pela falta de postos de trabalho, continuam odiando-os como odeiam as tropas de ocupação estrangeiras”, afirma Dahr Jamail). Não é por acaso que pouco antes das eleições tenham sido assassinados o prefeito de Bagdá e o segundo chefe da polícia. São ações legítimas da resistência contra os invasores e seus colaboradores.

Existem também outras ações de origem duvidosa e metodologia condenável: sequestros e decapitação de pessoal subalterno de empresas estrangeiras, sequestros de trabalhadores voluntários ou jornalistas estrangeiros (inclusive de jornais de esquerda, contrários à ocupação) ou atentados contra a população xiita em mesquitas ou festas. A maioria deles são atribuídos a uma fantasmagórica organização liderada por al-Zarqawi (supostamente vinculada à Al-Qaeda, de Bin Laden), com muito espaço na imprensa imperialista. Exista ou não essa organização, muitos jornalistas independentes crêem que esses atentados são, na verdade, impulsionados (quando não diretamente organizados) pela CIA, com o objetivo de desprestigiar a resistência no exterior, especialmente dentro dos EUA, e de manter a divisão entre xiitas e sunitas dentro do Iraque. Os meios de comunicação americanos justificaram o ataque a Faluja “para buscar esses grupos”. Mas, como vimos, a imensa maioria da resistência não tem nada a ver com esses métodos e sua violência é a justa resposta contra a cruel invasão de seu país, o roubo de suas riquezas e a tortura de seus habitantes.

Post author Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (www.litci.org)
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