O twitter e as ruas

Reconhecendo a vitória do lulismo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso balançou recentemente as estruturas da oposição de direita no artigo “O papel da oposição” (Interesse Nacional, n. 13, abril de 2011). Mostrando-se constrangido por ter que relembrar aos tucanos que cabe à oposição o papel de “se opor ao governo”, FHC propôs redefinir os rumos do PSDB por meio de uma improvável aproximação entre os oposicionistas e a chamada “nova classe média”. Eis aqui o primeiro ponto de acordo de FHC com o lulismo: o ex-presidente concorda que não pode concorrer com Lula da Silva pelo coração do “povão”. Além disso, FHC reconhece que é impossível disputar com o PT o apoio dos movimentos sociais. Restaria, então, à oposição de direita, o diálogo com aqueles setores “emergentes” da sociedade brasileira conectados às chamadas “redes sociais”: Facebook, YouTube, Twitter…

Não pretendo aqui criticar a noção de “nova classe média”. (Chamar trabalhadores pobres, super-explorados, desprestigiados, com baixíssima escolarização e recém-saídos da miséria, de “nova classe média”, corresponde a uma operação ideológica que merece um tratamento crítico adequado.) Verdade seja dita, mesmo FHC, rememorando seus tempos de sociólogo, parece se sentir pouco à vontade com a noção. Cabe aqui, contudo, destacar outro ponto de acordo da liderança tucana com o lulismo: não haveria alternativa à reprodução da ortodoxia rentista somada às políticas redistributivas. Para FHC, as vozes oposicionistas deveriam se concentrar, por meio das mídias digitais, em convencer as “novas classes médias” que os tucanos seriam mais hábeis que os lulistas em dirigir o atual modelo de desenvolvimento capitalista.

Esse consenso todo me fez lembrar Antonio Gramsci. Em seus Cadernos do cárcere (Caderno 13, parágrafo 5), o comunista sardo distinguiu duas modalidades de política: a “grande política” compreenderia as questões vinculadas à “fundação de novos Estados, à luta pela destruição, defesa e conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais”, enquanto a “pequena política” corresponderia àquelas questões parciais surgidas no interior de uma “estrutura já estabelecida pelas lutas de preeminência entre as diversas facções de uma mesma classe política”. E ainda acrescentou: “Por isso, excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo à pequena política é fazer grande política”. Superadas as disputas entorno da “fundação de novos Estados”, restaria às “diferentes facções” lutar pelo aperfeiçoamento da “estrutura já estabelecida”. Ao fim e ao cabo, o novo “Que fazer?” tucano parece mais um elogio à “hegemonia da pequena política” lulista do que um manifesto da oposição.

A despeito do apelo de FHC aos seus partidários, foi a voz da oposição de esquerda no YouTube que se transformou em fenômeno virtual mês passado. Um vídeo mostrando o discurso na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte de uma professora grevista, Amanda Gurgel, alcançou em poucos dias quase 2 milhões de acessos. A repercussão foi tamanha que, logo em seguida, ela já estava em horário nobre da Globo, conclamando o auditório do “Domingão do Faustão” a aplaudir a greve dos professores nordestinos. De quebra, ela ainda lançou uma campanha pelo Twitter reivindicando o investimento imediato de 10% do PIB na educação pública. Ao longo das últimas semanas, Amanda Gurgel transformou-se em uma legítima representante dos professores brasileiros, submetidos a salários de fome e condições de trabalho degradantes. A altivez demonstrada pela jovem professora ao enfrentar os políticos tradicionais sintetizou a revolta de uma importante parcela da população contra o desprezo com que os sucessivos governos tucano-lulistas têm tratado a educação pública brasileira.

Assisti pela internet a entusiasmada acolhida que Amanda Gurgel recebeu dos professores grevistas no Ceará e na Paraíba. Muitos deles vestiam camisetas da CUT. Lembrei-me do primeiro ponto de acordo entre FHC e o lulismo: seria mesmo impossível disputar com o PT o apoio dos movimentos sociais? Na realidade, também as bases petistas parecem órfãs de representantes capazes de exigir dos governos salários dignos e melhores condições de trabalho. Diuturnamente ocupadas com os esquemas subterrâneos da “estrutura já estabelecida”, as envelhecidas lideranças do PT e da CUT não podem mais cumprir esse papel. (Bastaria lembrar dois episódios recentes: a prisão do vice-prefeito de Campinas, o ex-sindicalista Demétrio Vilagra, por envolvimento com fraudes na companhia de abastecimento de águas da cidade e a escandalosa compra do novo apartamento do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, em São Paulo.) Sem vaidade ou sectarismo, a ativista potiguar emprestou sua voz para todos aqueles que lutam pela educação pública brasileira. Sejam eles petistas ou não. Os professores sentiram-se representados como há muito não se sentiam. E o sucesso da campanha “10% do PIB, já!” nos conduz ao segundo ponto do acordo de FHC com o lulismo: não haveria realmente alternativa ao atual modelo de desenvolvimento capitalista? Apoiados pelos diferentes públicos das redes sociais, os grevistas estão dizendo: sim, é possível transformar a educação em prioridade, desde que derrotemos a ortodoxia rentista. Ao redor desta bandeira, neste exato momento, trabalhadores da educação mobilizam-se por todo o país. É difícil prever o resultado desta campanha. Entretanto, uma coisa é certa: os incontáveis lutadores da educação que viram sua indignação refletida na altivez de Amanda Gurgel não desejam participar dos sórdidos esquemas da “pequena política” lulista. Tampouco se iludem com as lutas entre as diferentes “facções da mesma classe política”. Ninguém precisa lembrá-los que cabe à oposição o papel de “se opor ao governo”. Pelo Twitter e nas ruas, o que estes incorrigíveis lutadores querem mesmo é fazer “grande política”.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista.

Originalmente publicado no Blog da Boitempo