O segredo oculto da sociedade capitalista: a violência de classe

Navio negreiro. A transformação da África em reserva comercial de escravos para fornecer matérias-primas para a Europa foi uma das maiores tragédias humanas que o capitalismo promoveu.

Uma das mais importantes descobertas de Marx em O Capital é o segredo oculto da sociedade capitalista, aquilo que tornou sua existência possível. Quase todas as análises sobre essa obra falam da exploração dos trabalhadores, da mais-valia, da crise, do valor e de muitas outras coisas. No entanto, essas análises normalmente se silenciam sobre o processo histórico que dividiu toda a humanidade em duas classes sociais fundamentais: a burguesia e o proletariado.

De um lado, está um grupo de indivíduos que é proprietário dos grandes meios de produção e subsistência. De outro, a enorme maioria da humanidade perdeu a propriedade e a posse de tudo que é necessário para trabalhar. Como isso aconteceu?

Quase todas as análises, já na época de Marx, diziam mais ou menos assim: Numa época muito distante, havia, por um lado, uma elite trabalhadora, inteligente e sobretudo econômica; por outro, uma cambada de vadios que desperdiçavam tudo o que tinham. Os primeiros acumularam riquezas, e os últimos acabaram pobres e não tinham nada para vender, a não ser sua própria pele. Desse pecado original, surgiu a pobreza da grande massa, que ainda hoje, apesar de todo trabalho, continua a não possuir nada para vender a não ser a si mesma. Surgiu, também, a riqueza dos poucos, que cresce cada vez mais, embora há muito tenham deixado de trabalhar.

Esse mito fundador do capitalismo é difundido até os dias de hoje. Assim, o capitalismo seria supostamente justo. A concentração de riqueza nas mãos de uns poucos seria produto do trabalho de seus antepassados. Já os trabalhadores atuais, se querem romper com sua situação, devem batalhar para ficarem ricos. Afinal, Silvio Santos não teria sido um camelô? Não existem tantos exemplos de pessoas que conseguiram subir na vida?

A história real desse processo foi bem diferente. Apesar de a sociedade de classes existir há milênios, Marx mostra que as classes sociais eram bem diferentes antes do capitalismo. Um camponês ou um servo, por exemplo, possuíam a propriedade ou a posse de um pedaço de terra por toda a vida. Mesmo que uma parte de sua produção fosse destinada à Igreja ou a um nobre, ele tinha garantida, bem ou mal, sua sobrevivência. Até um escravo tinha a sua subsistência garantida por seu proprietário. Sem isso, o escravo morreria de fome, e seu senhor perderia sua propriedade: o próprio escravo.

O trabalhador assalariado, ao contrário, não tem a posse nem a propriedade de nada. Não tem garantia alguma de sua sobrevivência. Por isso, deve vender sua força de trabalho no mercado. Mas como surgiu essa situação? Como o trabalhador perdeu a posse dos meios para produzir, da terra e dos meios de sobrevivência?

Guerras imperialistas foram promovidas para que capitalistas pudessem controlar áreas onde pudessem escoar suas mercadorias. Quadro representa a Guerrado do Ópio, onde chineses foram subjugados pela Inglaterra e obrigados a abrir seus portos.

A violência, a repressão e o roubo
Marx explica que “na história real, o papel principal foi desempenhado pela conquista, a repressão, o assassínio para roubar, em suma, pela violência”. Foi pela força que todos os meios de produção foram retirados dos antigos produtores, transformando-os em trabalhadores assalariados.

Na Inglaterra, onde o capitalismo surgiu em sua forma clássica, os camponeses foram expulsos de suas terras de diversas formas. Leis foram criadas para permitir que certos camponeses fossem expulsos das terras em que suas famílias viviam há séculos. Foi proibido o acesso às terras comuns em que se coletava lenha e outros produtos.

A reforma protestante expropriou as terras da Igreja, e quem morava nas terras nelas ficou sem ter onde morar, tornando-se proletariado. Grande parte da população se transformou em massas destinadas ao mercado de trabalho ou à mendicância e ao roubo.

Estamos tão acostumados com o trabalho assalariado que acreditamos que sempre foi assim. Contudo, no início do capitalismo, as pessoas não aceitavam trabalhar por um salário. Trabalhar para enriquecer outros e receber uma pequena fatia em troca não era tolerado. Não fazia sentido. Foram criadas leis para obrigar as pessoas a trabalhar, que as obrigavam a vender sua força de trabalho. Se fossem pegas vadiando ou mendigando eram severamente punidas “por meio da forca, do pelourinho e do chicote”.

Escravidão indígena nos países latino-americanos vizinhos para exploração em minas de ouro e prata

Marx dizia: “a História nada sabe das ilusões sentimentais segundo as quais o capitalista e o trabalhador estabelecem uma associação [voluntária]”. Em primeiro lugar, a “população rural teve sua terra violentamente expropriada, sendo dela expulsa e entregue à vagabundagem”. Em seguida, foi “obrigada a se submeter, por meio de leis grotescas e terroristas e por força de açoites, ferros em brasa e torturas, a uma disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado”. Somente depois de décadas de trabalho assalariado surgiu uma classe trabalhadora acostumada com esse sistema, que por educação, tradição e hábito reconhece essa forma de trabalho como sendo normal.

Marx mostra, ainda, que não foi um processo puramente europeu e inglês. Para que um punhado de proprietários possuísse riqueza suficiente para empregar essa massa de despossuídos, muito mais sangue foi derramado em outros continentes. Podemos citar como exemplo o extermínio da população nativa nas minas de ouro e prata do Peru, da Bolívia e do México, a escravidão no Brasil para fornecer matérias-primas para a Europa, a transformação da África em reserva comercial de escravos, a conquista e o saque da Índia pela Inglaterra.

Além disso, para criar um mercado mundial, foi preciso um conjunto de guerras para dividir o mundo entre as potências europeias. Era necessário explorar as matérias-primas das Américas, da África e da Ásia, bem como abrir seus mercados para as fábricas europeias que surgiam. Houve guerras entre Holanda e Espanha; depois entre Holanda e Inglaterra; a guerra do ópio, entre Inglaterra e China; e muitas outras. Como se vê, “o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés”. Em todos esses casos, os personagens e os países envolvidos “lançaram mão do poder do Estado, da violência concentrada e organizada da sociedade”.

Desde os primórdios: colonização e dívida pública
Várias empresas dos primórdios do capitalismo possuíam um exército numeroso com o objetivo de conquistar as potenciais colônias. Esse é o caso da Companhia das Índias Orientais, que dominou, com o aval do Estado inglês, toda a Índia, destruindo sua forma tradicional de sociedade. Para se ter uma ideia, estima-se que a destruição de sua estrutura tradicional levou à morte de 10 milhões de pessoas em apenas uma temporada de chuvas.

O processo não termina por aí. A violência e o sangue não estão presentes apenas no nascimento do capitalismo, mas em seu crescimento e desenvolvimento. Aí entra o mecanismo da dívida pública que, segundo Marx, é a “única parte da riqueza nacional que realmente integra a posse coletiva dos povos modernos”. Afinal, a dívida é paga com os impostos extraídos de toda a classe trabalhadora. Por meio da dívida pública, a exploração dos trabalhadores em uma parte do mundo se transforma em acumulação dos capitalistas em outra. Marx explica que “grande parte dos capitais que atualmente ingressam nos Estados Unidos sem certidão de nascimento é sangue de crianças que acabou de ser capitalizado na Inglaterra”.

Além disso, na competição entre capitais e empresas capitalistas, o peixe grande engole o pequeno. “Cada capitalista mata muitos outros.” Isso faz da vida dos trabalhadores um oceano de insegurança e de medo, onde não se tem garantia de nada. Emprego, salário, aposentadoria, direitos nada está garantido numa sociedade que se baseia na guerra de todos contra todos para sobreviver.

Revolução Russa, encenação da tomada do palácio de inverno, 7 de novembro de 1917

“Soa a hora derradeira, e os expropriadores serão expropriados”
Apesar desse cenário tenebroso, O Capital de Marx termina apontando para outra possibilidade. Ao lado de todas as mazelas produzidas pelo capitalismo, cresce a “revolta da classe trabalhadora que, cada vez mais numerosa, é instruída, unida e organizada pelo próprio mecanismo de produção capitalista”.

Como se vê, a ditadura do proletariado e a tomada do poder pelo proletariado não é uma violência sem sentido. Em todo o processo que vimos, “tratava-se da expropriação da massa do povo por poucos usurpadores”. Agora, a tomada do poder pelo proletariado é a “a expropriação de poucos usurpadores pela massa do povo”. “Soa a hora derradeira da propriedade privada capitalista, e os expropriadores serão expropriados.”

O que foi narrado neste artigo é como termina o primeiro livro de O Capital. O último capítulo do último livro, infelizmente, não foi terminado. Marx escreveu apenas algumas páginas. Em carta a Engels, ele anunciou como pretendia encerrar sua obra principal: “as fontes de ingresso das três classes – proprietários de terras, capitalistas e trabalhadores assalariados – temos, então, como conclusão, a luta de classes, por meio da qual o movimento se dissolve e a dissolução de toda essa merda.”

O Capital termina, portanto, anunciando a possibilidade da revolução socialista e a tomada do poder pelo proletariado. Só assim é possível pôr fim nesse oceano de sangue, tortura e sofrimento que é a sociedade capitalista. Só assim o homem pode colocar a enorme capacidade produtiva que o capitalismo produziu a serviço das necessidades e dos interesses do próprio homem.

Gustavo Lopes Machado, de Belo Horizonte (MG)