O retrato da desigualdade social no Brasil e no mundo

Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

Ana Maria trabalha como auxiliar de produção numa fábrica de bebidas. Depois dos descontos, seu salário no fim do mês é R$ 900, menos do que um salário mínimo. Com isso, deve alimentar dois filhos, vesti-los, pagar o aluguel e o transporte. Jorge Paulo Lemann, maior acionista do setor de bebidas no Brasil, tem uma fortuna de R$ 93,3 bilhões.

Ela faz parte do exército de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros (43 milhões de pessoas) que devem sustentar uma família com menos de um salário mínimo. Enquanto isso, o Sr. Lemann se preocupa em como vai gastar os mais de R$ 90 bilhões que tem nas mãos.

O que os gráficos sobre a desigualdade social não dizem é a razão de tanta diferença. A razão mais básica é o fato de que, no sistema capitalista, para que uma pessoa tenha R$ 90 bilhões, a outra tem de ganhar R$ 900. Em outras palavras, quem gera a riqueza do Sr. Lemann é o trabalho de Ana Maria e dos milhões de pessoas obrigadas a viver com R$ 900.

Os R$ 90 bilhões do Sr. Lemann não são fruto de seu trabalho, mas do título de propriedade das empresas que o seu fundo de investimentos, chamado de 3G, tem, na forma de ações da AB InBev e do Burger King no Brasil, entre outras empresas. Enquanto uma pequena minoria for dona de fábricas, lojas e bancos e a maioria tiver de vender o seu trabalho para sobreviver, a desigualdade social existirá.

O recente estudo do ex-funcionário do Banco Mundial, Branko Milanovic, “Desigualdade na era da Globalização”, demonstra como a desigualdade mundial se aprofundou a partir de 1850, período em que o capitalismo se expandiu pelo planeta. A desigualdade entre as classes dentro dos países também corresponde à desigualdade entre os países, pois a dominação do mundo por um punhado de países, o imperialismo, concentra ainda mais riqueza nas mãos de grandes empresas e bancos dos países industrializados.

O estudo demonstra que o 1% mais rico do planeta aumentou sua renda em 60% desde 1988. Cerca de metade desses é dos Estados Unidos. O resto é composto por britânicos, japoneses, franceses e alemães. Eles são os proprietários e controladores do sistema capitalista, responsáveis pelas políticas do imperialismo.

EXPLORAÇÃO
Por que o Brasil é o décimo país mais desigual do mundo?

A principal explicação para a desigualdade no Brasil é o grau de exploração dos capitalistas brasileiros e das multinacionais sobre os trabalhadores. Enquanto 77 milhões de brasileiros estão no desemprego ou no subemprego e 44,5 milhões dos que trabalham recebem menos do que um salário mínimo, existem 31 brasileiros na lista dos maiores bilionários no mundo segundo dados da revista Forbes.

Essa é a primeira e mais importante cara da desigualdade do país. Os altos lucros de empresários e banqueiros são produto direto dos baixos salários. Ao mesmo tempo, o desemprego e o subemprego são utilizados para manter os salários baixos na base da pirâmide, rebaixando o salário de todos os trabalhadores. Além disso, a classe dominante utiliza o racismo, o machismo e a LGBTfobia para rebaixar ainda mais os salários de mulheres, negros e LGBTs.

O Sr. Lemann, que citamos acima, é o primeiro brasileiro na lista dos bilionários do planeta. Ele é também o retrato de uma classe dominante covarde que se associa aos grandes bancos e empresas imperialistas para massacrar os trabalhadores. Sua fortuna, além de depender dos baixos salários, depende dos capitalistas belgas e estadunidenses. Sem eles, não teria conseguido ser o proprietário da maior empresa de bebidas do mundo e concentrar outras empresas.

O capitalismo como sistema mundial é profundamente desigual. Ele se alimenta dessa desigualdade para gerar os lucros dos empresários e banqueiros. No Brasil, essa desigualdade extrema e a profunda violência com a qual ela se expressa são a forma como os capitalistas brasileiros, associados ao capital imperialista, produzem os seus lucros. Isso explica o fato de a classe dominante brasileira não ter nenhum interesse em resolver um problema que não lhe afeta.

JÁ DIZIA CHICO SCIENCE
“O de cima sobe, e o de baixo desce”

O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas

(…)

Sempre uns com mais
E outros com menos

A cidade não para
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
(Chico Science)

Durante a ditadura militar, ficou famosa a frase do ministro Delfim Netto, “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Ou seja, o capitalismo brasileiro necessitava crescer para depois distribuir a renda. Ao fim da ditadura, tínhamos um país ainda mais desigual, justamente porque o capitalismo brasileiro cresceu baseado no aprofundamento da desigualdade.

Os governos do PT disseram que era possível conciliar o crescimento da economia capitalista com a distribuição de renda. Porém, no auge do crescimento da economia capitalista, que abarca os governos petistas (2000-2015), os lucros das empresas cresceram 231% em média, e os salários, somente 74%. O resultado final é que a concentração de renda nos de cima foi absurda. E, quando veio a crise, as primeiras medidas de Dilma foram ataques aos de baixo.

Como diz Chico Science, mesmo quando a cidade cresce, “o de cima sobe, e o de baixo desce”. E, quando vem a crise, os de baixo descem ainda mais.

O ÚNICO CAMINHO
Uma revolução para acabar com as desigualdades

Neste ano, teremos eleições. Tanto os partidos da burguesia quanto os partidos reformistas apresentarão suas medidas para acabar com a desigualdade. Uns dirão, como Delfim Netto, que primeiro é necessário sair da crise, que o capitalismo precisa crescer e, então, podemos pensar em distribuir a renda. Essa cantilena é a mesma de sempre.

Os partidos reformistas, como PT e PCdoB, mas também PSOL, dirão que é possível acabar com a desigualdade unindo crescimento capitalista com reformas. A vida, no entanto, demonstrou que isso não passa de uma ilusão passageira que foi pelos ares quando estourou a crise econômica.

Não se pode acreditar de novo que o PT vai distribuir renda aliado a José Sarney, que governou durante décadas um dos estados mais desiguais do país. Ou Katia Abreu, representante do latifúndio. Isso para não falar de Renan Calheiros.

Somente os de baixo têm interesse em acabar com a desigualdade e destruir esse sistema de exploração e violência. Uma revolução socialista é necessária para acabar com a desigualdade social. Só quando a riqueza produzida pelos milhões de trabalhadores for arrancada dos parasitas, criaremos as condições para se ter outro país.

Publicado no Opinião Socialista nº 549