O retorno da COB

A partir de 1952, um nome ficou associado à idéia de revolução operária na América Latina: COB – a sigla da Central Operária Boliviana. Foi ela que dirigiu a insurreição armada que então destruiu o exército a partir de suas milícias operárias encabeçadas pelos mineiros com suas dinamites. No programa, as famosas Teses de Pulacayo, que defendiam a expropriação da burguesia e o poder dos trabalhadores.

Mas a gloriosa COB, coluna vertebral também da insurreição de 1985, depois da derrota desse processo pela falta de alternativa e a subseqüente vitória na eleição presidencial do MNR de Paz Estenssoro e Sanchez de Losada passou por um declínio nos 17 anos seguintes, que corresponderam para a Bolívia ao auge do neoliberalismo, com as privatizações e com os ataques à própria estrutura das minas. Durante os últimos anos, a direção da COB era hegemonizada por um setor governista. Mas em 2003, mesmo após esse eclipse e apesar dos duros golpes com a demissão de milhares de mineiros e fechamento de minas, a COB volta a estar no centro das mobilizações e aparecer como real alternativa de poder.

A partir de seu último congresso, no qual mudou a direção e aprovou um plano de luta, a COB passou a cumprir um papel decisivo, que ficou mais claro com a greve geral em 29 de setembro. Esse papel ficou ainda mais cristalino quando a coluna dos mineiros de Huanuni entrou em La Paz, aclamada pelos demais trabalhadores e camponeses que viam neles uma direção que chegava para dar o golpe final em Sanchez de Losada. Os companheiros do Movimento Socialista dos Trabalhadores, seção da LIT na Bolívia, tiveram o mérito de perceber essa tendência de que a COB estaria recuperando seu papel histórico e participaram com força de seu Congresso, onde apresentaram uma proposta que apontava a derrubada de Goni e a greve geral como ferramenta de luta.

O método da greve geral e a insurreição urbana

E a COB pôde cumprir esse papel de protagonista de uma insurreição novamente, ao usar a arma clássica da classe operária nas revoluções: a greve geral e a insurreição urbana. Para os teóricos que teimaram em prever o “fim da classe operária”, a revolução boliviana está sendo uma lição viva e prática. À medida que os trabalhadores iam parando o país, La Paz, El Alto, Cochabamba, Oruro – apesar da tremenda repressão – cercando a capital, e entrando em La Paz em marchas com contingentes de milhares, o governo Goni ia perdendo o controle, até que não lhe restou opção a não ser entregar o poder, abrindo uma crise revolucionária.
A COB não é só uma central sindical, mas uma organização de todos os explorados

A experiência da COB é pouco conhecida pelo movimento latino-americano. Ela agrupa não só o movimento sindical, mas o movimento camponês, estudantil e popular. Só não participam empresários, militares e o clero. Ela organiza camelôs, cegos etc. Ao mesmo tempo, seu estatuto prevê que a presidência deve ser sempre operária. Tem ainda características de poder alternativo até nas secretarias. Embora não tenha tido uma milícia nos últimos anos, ainda possui uma “secretaria de milícias”, herança da tradição revolucionária de 1952.
Post author José Weilmovick,
da revista Marxismo Vivo
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