Está colocado o problema do poder na Bolívia

Esta é mais uma revolução que se dá na América Latina contra um regime democrático burguês. O governo do “gringo” colocou a nu o caráter colonial da democracia boliviana (foi sob esse regime que foi sendo aplicada a privatização, a erradicação da coca etc). Por isso, quando já no fim, Goni apelava à democracia enquanto mandava assassinar os trabalhadores que resistiam a suas negociatas, a credibilidade do regime democrático-burguês também havia sido duramente golpeada.

A solução encontrada por dentro do regime, com a posse do vice, Carlos Meza, é muito frágil.

Quem é Meza? Um jornalista e historiador, desconhecido até ser convidado por Goni para compor sua chapa, um político que não tem um forte partido, como tinha Goni até há pouco, nem apoio próprio no movimento de massas; afinal, era o vice de Goni. Ele só pôde subir ao poder pelo apoio ou omissão das direções do movimento de massas e com a mediação de Lula e Kirchner.

Devido à profunda crise do regime e dos principais partidos burgueses, que sustentaram Goni até quase o fim, ele compôs o governo com “técnicos” sem partido e pediu um “tempo”, uma trégua às direções dos movimentos populares. Para assumir, Meza teve de conciliar com as direções, fazer muita demagogia e falsas promessas.
Aqui começa uma das encruzilhadas da revolução boliviana e o crime das direções que apoiaram a subida de Meza em nome da democracia. Meza, se continuar no poder, não somente não vai cumprir as promessas, mas vai também buscar salvar as forças repressivas, rearticular o Estado burguês e preparar uma repressão assim que puder.

Hoje o imperialismo e a burguesia não podem tomar uma política clara, a derrota foi grande, mas não vão ficar passivos muito tempo. Em tempos de revolução, as classes dominantes têm horror ao vazio. Na grande revolução de 1952, as forças armadas foram destruídas, os oligarcas fugiram, houve a nacionalização das minas e uma profunda reforma agrária, mas a COB se recusou a assumir o poder, entregando-o ao então jovem dirigente político Paz Estenssoro e seu partido burguês, MNR, que se reivindicava nacionalista e defensor da revolução. Que fez o governo Estenssoro? Aos poucos foi reconstruindo a espinha dorsal do estado burguês e as forças armadas, até ter condição de atacar o movimento, abrindo em seguida uma sucessão de golpes militares.

A burguesia, como dizia Lênin, busca derrotar os trabalhadores pela força ou pelo engano. Tendo sido derrotada na força, trata agora de usar do engano, enquanto ganha tempo. O descrédito da democracia dos ricos é enorme, a disposição revolucionária das massas muito grande, o problema encontra-se nas direções majoritárias que não querem tomar o poder.

As direções do movimento trataram de evitar a revolução e agora apostam na “democracia”

As direções mais conhecidas do movimento camponês e indígena, Evo Morales do MAS e Felipe Quishpe do MIP, trataram primeiro de evitar e depois de desviar o movimento revolucionário. Evo, que passou boa parte do movimento fora do país, estava contra a consigna de renúncia de Goni no início do movimento. Depois, a partir da greve geral, passou a defender “uma saída por dentro da democracia”, uma saída institucional. Nesse sentido, levantou a proposta de uma Assembléia Constituinte. Frente ao primeiro discurso do novo governo, Meza, seu partido, o MAS, declarou que “uns 80 por cento da mensagem do [novo] presidente tinham sido a mensagem do MAS, e que agora esperam que Carlos Meza passe do dito aos fatos”.

Já Quishpe, embora falasse em “revolução indígena” na prática chamou seus liderados a dar uma trégua de 90 dias ao novo governo. Após a nomeação do novo governo, declarou: “Muito bem agora vamos ver o que ocorre com o Congresso. Assumindo o vice, trataremos de negociar”. E para acalmar a base indígena reunida em La Paz, ameaçou voltar às grandes mobilizações após a trégua de três meses para derrubar o novo presidente,caso este não cumpra com os pontos exigidos pela CSTUCB (Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia). Outro dirigente do MIP, Juan Gabriel esclareceu que “não é o momento de ameaças nem de dar prazos ao presidente Carlos Mesa, o país necessita um respiro, necessita um tempo (…) Deixemos ele trabalhar, eu diria que todos os parlamentares, todos os dirigentes estamos na obrigação de dar um ombro, uma mãozinha”.

A nova direção da COB, com Jaime Solares à cabeça, embora tenha chamado a greve geral e exigido a renúncia de Goni, se recusou a tomar o poder, alegando a ausência de uma direção revolucionária: “não se pode tomar o poder por falta de partido revolucionário”. Mas essa afirmativa só se torna correta na medida em que a direção da COB se nega a cumprir um papel revolucionário, a expulsar o vice Meza, chamar os trabalhadores e o povo a se organizarem em torno à COB (como alguns dirigentes dos organismos de bairro de El Alto pediram no ampliado da COB após a vitória) como poder e tomá-lo junto às organizações populares.

Num momento como esse, a classe operária necessita de uma alternativa de poder sua. Do contrário, a burguesia se reestrutura e fecha a crise revolucionária.
Por isso, as forças que se reivindicam de esquerda cometem um crime ao apresentar como alternativa a Assembléia Constituinte. Não por acaso esta é a política da burguesia para superar a crise revolucionária.

Está colocado o problema do poder: a posse de Meza, quando ele foi obrigado ir pedir apoio em El Alto, a lamentar as mortes junto aos indígenas reunidos com Quishpe e a negociar com os parlamentares da esquerda foi a demonstração gráfica disso. Se as direções dos movimentos sociais e populares não lhe dessem apoio ou trégua, ele não poderia assumir.

A burguesia sabe que a situação desse governo é muito insegura pela profundidade da revolução. Por isso já trabalha com a possibilidade de uma Assembléia Nacional Constituinte. Querem trabalhar com o engano, ganhar tempo, tirar as massas das ruas, evitar a formação e extensão das milícias populares, alimentar ilusões nas massas para reconstruir o poder burguês, já que a via da repressão pura e simples foi derrotada nas ruas.

Post author José Weilmovick,
da revista Marxismo Vivo
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