Hertz Dias, rapper do Gíria Vermelha e da Direção Nacional do PSTU

Só agora consegui assistir ao documentário “Emicida: AmarElo – É Tudo Pra Ontem” e confesso que, como rapper e com mais de 30 anos de Hip Hop, vi muitas coisas que os analistas que não vivenciaram a nossa perigosa caminhada jamais conseguirão perceber. Antes queria indicar a excelente análise de Wagner Damasceno que me poupará de entrar em outros temas.

Em primeiro lugar é preciso dizer que Emicida é muito talentoso, criativo e original. A equipe que tocou o documentário, pela sua tônica audiovisual e pesquisa histórica, merece ser aplaudida de pé. Também é preciso dizer que não dá pra exigir que um documentário trate de tudo que gostaríamos que tratasse, isso seria um absurdo.

Percebi muitas questões que mereceriam comentários, elogios, críticas e tal, mas uma em particular chamou muito minha atenção: o Emicida do documentário é um personagem quase que totalmente desvinculado do cenário da cultura Hip Hop, seu berço artístico. Achei estranho isso.

Tive a impressão de que fizeram uma tentativa obstinada de vincular sua imagem ao samba, à MPB e ao mundo cinematográfico. Até aí tudo bem, mas o rap parece um mero acessório do roteiro e quando citado é como se fosse para mostrar o próprio Emicida como o desaguador da trajetória do samba e da luta negra. Imaginem um documentário versando sobre a trajetória de Zeca Pagodinho tendo o samba e o pagode como mero apêndice?

Na verdade, a relação do Hip Hop com o samba e a MPB não foi tão harmônica como parece  no documentário, sobretudo na década de 1990. Naquela década, o samba passava por um profundo processo de branqueamento e elitização, algo que era criticado por muitos artistas do Hip Hop, às vezes com sectarismo, mas era. Na canção “Poder da Rima”, o grupo Sistema Negro denunciava essa depuração social do samba sem meio termo: “Tira essa música de preto daí, sou obrigado a ouvir, um preto de social com gel no cabelo, cavaco embaixo do braço, a união foi pro saco, um abraço”.

Na outra ponta, da MPB ou da Black Music brasileira, Ed Motta chegou a acusar os Mc´s brasileiros de serem “americanizados” por usarem tênis de marcas como a Nike e não andarem de chinelo como os sambistas. Lembro que Thaíde respondeu que americanizado era ele que fazia propaganda para marcas gringas. Na boa, o rap sequer era considerado música pela crítica e por muitos artistas da época e sampler era visto como roubo de direitos autorais.

Digo isso apenas para pontuar algo que parece invertido no documentário, de cabeça para baixo. E o pior, relegando a plano algum a via-sacra que o hip-hop brasileiro enfrentou numa década em que cantar rap era estar disposto a assinar B.O. É difícil nomear um grupo de rap da época que não teve problemas com a polícia, com a justiça, com gravadoras e até com o crime. Não por acaso, cantar rap ficou conhecido como “profissão perigo”.

Hoje, sinto-me extremante feliz pela aproximação que esses diversos estilos musicais tiveram com o rap nas últimas décadas, porém não se pode pular por cima da cabeça da história. O documentário denuncia bem as perseguições sofridas pelo samba, mas, e o rap?

O documentário tenta passar a imagem de que o ponto de encontro do rap com sua originalidade brasileira está justamente na sua mistura com o samba e a MPB, razão pela qual D2 e Happin Hood aparecem com mais relevância do que GOG, que sequer tem seu nome citado. O problema é que não se faz música assim, sem condições de fazê-la. Gabriel O Pensador e Marcelo D2, por exemplo, parecem mais criativos do que milhares de favelados que respiram música preta, mas não são. Esses artistas apenas tiveram mais condições materiais de inovar, misturar, criar. Montar banda na periferia não é fácil e muito menos ter estrutura para fazer shows.

Na verdade, a popularidade do rap na periferia decorre principalmente do fato de ser um estilo musical mais barato de se fazer, o que não quer dizer que seja mais fácil. Nunca foi fácil escrever músicas quilométricas tratando de temas tão complexos, delicados, perigosos, ainda mais considerando a baixa escolaridade de seus artistas. Antes de Emicida, os rappers já eram considerados verdadeiros “sociólogos sem diplomas” da periferia.

Quero dizer com isso que o fato de Emicida chegar ao Teatro Municipal de São Paulo não tornará aquele espaço mais preto e periférico ou menos racistas e burguês, assim como minha chegada na Universidade muito antes da implementação das cotas para negros não representou necessariamente uma vitória da periferia. Pelo contrário, muitos racistas utilizavam essa “vitória” para reforçar posições contrárias à implementação das cotas nas universidades. Diziam eles “se você chegou até aqui sem precisar de cotas, porque os outros da sua raça não podem chegar?”. Eu fui o primeiro da minha família a alcançar esse feito e isso apenas escancarou o quanto racista e excludente são essas instituições, e, não o contrário. Até chegar lá, aos 27 anos, quantos da minha raça não ficaram no meio do caminho ou na solidão eterna coberta por uma lápide?

O documentário do Emicida mostra um “vencedor” que ofusca os “vencidos”. O cara tem tempo para estudar música, pesquisar, tem estrutura, equipe, grana, banda, parceria de peso, etc, é um “vencedor”. Palmas!

Peraí, mas e os demais? Muitos rappers até que gostariam de ter bandas, ter suas canções tocadas instrumentos por instrumentos, que maravilha! Mas isso não é porque não queiram, é que não podem. E com a crise econômica que atravessa o país diminui mais ainda esta possibilidade. A vitória do Emicida não tornará o capitalismo brasileiro mais humano e menos racista, pelo contrário, o documentário é lançado no contexto de aprofundamento do genocídio negro comandado pela tropa de Bolsonaro, que passou ileso no documentário.

Poucos dias antes e poucos dias depois do lançamento deste documentário tivemos o assassinato de João Alberto no Carrefour de Porto Alegre, duas crianças negras mortas por uma bala de fuzil na Baixada Fluminense e dois jovens negros mortos pela PM nesta mesma região. Ou seja, o monstro genocida está mais feio do que em 1978 quando o Movimento Negro organizava um ato contra o racismo na escadaria do Teatro em que Emicida “colheu” o que seus antepassados plantaram e regaram.

Para cada degrau que Emicida sobe em sua brilhante carreira artística, outros milhares sequer conseguem botar um dos seus pés no primeiro degrau. E não é por falta de talento, vontade ou algo parecido, mas porque o capitalismo é excludente e racista e não deixará de ser assim porque Emicida “venceu”. Para que todos possam desenvolver seus dons artísticos e frequentar teatros exuberantes, o capitalismo precisa ser superado, simples assim.

Na verdade, é preciso lembrar que o Movimento Hip Hop criou as condições para periferia soltar o verbo com muito menos recursos financeiros e regras estéticas estabelecidas. A burguesia nunca engoliu isso, muito menos suportou ver os grupos de rap estreitando os laços políticos entre o palco e o público. Creio que nenhum movimento cultural fez isso melhor que o hip-hop. Por isso que o vacilo de um rapper é sempre cobrado mais do que de qualquer outro artista, isso tem a ver com esse tipo de relação.

É isso que não entendem aqueles que dizem “poxa, nem bem um negro começa a fazer sucesso e logo vem as críticas”. O rap fez uma caminhada que só quem caminhou por ela consegue entender a sua dinâmica. Com a playboyzada no geral não é assim, eles querem ouvir “boa música” que não embrulhe o estômago e não ameace seu status social, por mais crítica que ela seja. Já na periferia, o rap engajado virou bússola política para muita gente e essa gente não quer perdê-la tão facilmente para o bairro nobre dos Jardins.

Quantas vezes eu não ouvi essa gente falar que:  “vocês até são talentosos, mas tem que sair do gueto”, “tem que ser mais leve, mais poéticos, ter mais musicalidade, tratar de novos temas”. Ou “com essas letras, vocês não irão tocar no rádio, não vão alcançar outros públicos”.

Parece até que o problema está nos artistas e não na peneira política e ideológica que a burguesia impõe à produção cultural. Não só a burguesia exerce essa pressão, mas uma parte considerável da própria comunidade negra do universo letrado, que quer manter distância dos problemas explosivos do universo plebeu desta mesma comunidade, que é de onde vem a maioria dos Mcs.

Óbvio que qualquer grupo cultural deseja evoluir em sua caminhada artística, mas não é isso que está em questão. O hip-hop se conformou numa grande ameaça de raça e de classe e precisava ou precisa ser domesticado; esse é o centro. Pois, se “evolução” é chegar onde artistas como Emicida e Criollo chegaram, o rap na quebrada jamais sairá do “Paleolítico Inferior” e muitos grupos sequer existiriam. Ou melhor, o hip-hop praticamente não existiria na periferia. Teria começado pelo Jardins de onde jamais teria saído.

O rap é o estilo musical que oferece as condições para um operário da construção civil cantar suas angústias sem sequer saber tocar uma nota musical ou passar semanas pesquisando melodias. A esse indivíduo que sai do barraco às 4h da matina e chega às 11h da noite, que não banha, se molha; que não come, engole; que não dorme, cochila, o rap se ofereceu como válvula de escape que diz “Irmão, faça do seu jeito, encha o pulmão de oxigênio do seu cotidiano e deixe que o coração fale por você, que o resto é nóis”. Por isso, os Mcs durante décadas menosprezaram a crítica musical pequeno-burguesa mais do que ela menosprezava o rap.

Quando o clipe “Soldado do Morro” do MV Bill foi processado por apologia ao crime, a Rede Globo não perdeu tempo para dizer que se no passado era “Sexo, Droga e Rock Roll”, agora é “Drogas, armas e música mal feita”. Eles seguiam falando, e os grupos de rap “cantando e andando”. Hoje o rap tá meio que enquadrado por esses padrões que tem a ver também com a pressão exercida pela sua nova plateia.

Que novos Emicidas apareçam na cena, que possam plantar, regar e colher, mas que cada artista da periferia, sobretudo os militantes, não se sintam menosprezados por não poderem cantar ou pisar onde os boy’s sempre pisaram. Que continuem fazendo suas canções (livros musicalizados) do jeito que o coração pedir e que a realidade permitir, porque no dia “D”, no dia da Revolução, as canções revolucionárias virão de onde menos os musicólogos imaginam. Aí sim, poderemos dizer, é tudo nosso!