“O que o PSTU propõe é o que a gente faz no dia a dia”

Moradores da ocupação Jardim União, na Zona Sul de São Paulo, discutem manifesto apresentado pelo PSTU para as eleições e votam apoio à candidatura socialista

“Quando eu conheci o programa do PSTU, eu me identifiquei porque é justamente o que a gente faz no dia a dia.” Sandra de Moura, 43, tem a voz calma e doce, mas prende a atenção absoluta de todos na sala.

Estamos numa reunião de coordenadores da Ocupação Jardim União, uma ocupação na Zona Sul de São Paulo que existe desde 2013 e reúne hoje algo em torno de 500 famílias que lutam por moradia. Nestes anos, a ocupação passou por diferentes e difíceis momentos, desde tentativas de reintegração até a atual luta pela urbanização do terreno. Batalhas que só reforçaram a importância da auto-organização para resolver problemas que vão desde o enfrentamento a um despejo até coibir casos de machismo.

Dos problemas que afetam a todos na ocupação, inclusive questões mais individuais, todos são tratados e resolvidos coletivamente. É por isso que uma proposta como a apresentada pelo PSTU no manifesto “Um chamado à rebelião, um projeto socialista”, de um governo socialista dos trabalhadores formado por conselhos populares, é algo prontamente compreendido pelos moradores que, em seu dia a dia, já governam a ocupação.

Um convite à rebelião
O que estamos fazendo aqui é um convite à rebelião”, diz o metroviário Narciso Soares aos coordenadores da ocupação. Os coordenadores são, na verdade, representantes de ruas. Nesta fase do movimento, os moradores se organizam por ruas. São 16 representantes na reunião, com uma composição que reflete a ocupação: negros, nordestinos, mulheres e trabalhadores imigrantes.

No final de semana dos dias 17 e 18 de março, eles se reuniram para discutir organização e os próximos passos da luta por moradia. Narciso, da direção do PSTU, é bastante conhecido pelos moradores por sua atuação junto a eles nos últimos anos. Ele pediu um tempo da reunião para apresentar o manifesto que o PSTU lançou para discutir as eleições deste ano.

“Para a gente mudar a nossa vida, não vai ser por meio das eleições, mas só através da organização para que os trabalhadores tomem o poder”, diz. Contudo, lembra que a burguesia, os seus meios de comunicação e grande parte da população estão discutindo a eleição e, em outubro, vão votar. “Todos os projetos que se apresentam propõem governar nos marcos do capitalismo. É a nossa tarefa discutir com a nossa classe a necessidade de romper com o capitalismo, pegar toda essa indignação com a situação atual e fazer uma rebelião para destruir esse sistema”, afirma Avanilson Araújo, do movimento Luta Popular e do PSTU, que coordena a reunião.

“Só a luta não muda a vida. A gente sabe que a luta é muito importante, mas se só a luta mudasse a vida, nossa vida já teria mudado, não é mesmo?”, questiona Narciso. Atentos, os representantes de rua concordam. “A luta é importante, mas sem uma revolução socialista nossa vida não vai mudar de verdade”, explica Narciso.

“Tô com você”

Ao final, Narciso propôs que o PSTU cedesse a legenda para a candidatura de Sandra, referência no movimento, a fim de representar esse projeto durante as eleições. “O PSTU é um partido pequeno, não tem dinheiro para fazer outdoor e tudo mais, é um partido revolucionário, e os companheiros me fizeram essa proposta e eu vou submeter ela a vocês”, diz Sandra aos representantes da ocupação.

“Ninguém tem a cara e a coragem que você tem, Sandra. Dependendo de mim, estamos juntos, vamos visitar São Paulo todinha”, diz um dos representantes. “Tô com você pro que der e vier”, diz outra moradora com o filho pequeno no colo. Uma votação simbólica aprovou, por unanimidade, a candidatura de Sandra para defender esse projeto socialista. Uma nova assembleia, ainda mais ampla, deve ocorrer nos próximos dias para discutir o manifesto e referendar a candidatura.

 

#MEREPRESENTA
Uma pré-candidatura socialista da ocupação

A história de Sandra nos últimos cinco anos se confunde com a história da ocupação Jardim União. “Foi uma dessas ocupações que explodiram em 2013”, relata. “Ocupamos primeiro um terreno da prefeitura, mas três meses depois fomos despejados. Foi terrível, com Tropa de Choque e tudo”. Na época, o prefeito era Fernando Haddad (PT).

Logo após, as famílias se organizaram e, no dia 12 de outubro daquele mesmo ano, ocuparam um terreno da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU). O órgão entrou com um pedido de reintegração, mas os moradores conseguiram arquivar há dois anos.

Morando de aluguel e com um salão de cabeleireiro no Itajaí, Sandra se envolveu logo no início com a ocupação. “Não sabia de nada, achava que militante era algo que tinha a ver com militar”, conta. Foi o filho, que havia participado das mobilizações contra o aumento da passagem, quem primeiro se engajou na luta. Quando Sandra se deu conta, já tinha entregado a casa e o salão e estava morando na ocupação, sendo referência desde então para os demais moradores.

Com o apoio do Luta Popular, a partir de 2015, os moradores conseguiram barrar a ameaça de despejo e encaminhar um projeto para o Minha Casa Minha Vida Entidades. Logo em seguida, porém, Dilma acabou com o programa na esteira do ajuste fiscal. Hoje, os moradores fazem um projeto de urbanização do terreno por conta própria. A ocupação se parece com um grande canteiro de obras, com os moradores erguendo suas casas com as próprias mãos.

Com a candidatura, Sandra espera levar um projeto socialista para além do Jardim União. “Ela vai ser a representante não só da ocupação, mas do povo pobre e trabalhador que luta por moradia”, resume Avanilson.

“Quando me disseram para ser candidata, eu me assustei, porque nunca fiz nada de política, conheci o PSTU na luta, mas concordei, porque a gente praticamente já aplica o programa, a gente decide tudo em assembleias, tem as reuniões de quadra que são pequenos conselhos, e se eles não conseguem resolver algum problema, levam para assembleia”, explica Sandra.

Trabalhadores ambulantes discutem o manifesto

Na mesma Zona Sul de São Paulo, outro setor que discute o manifesto lançado pelo PSTU é o dos trabalhadores ambulantes. Representantes da associação dos ambulantes, que se organizam por ruas e representam algo como 15 mil trabalhadores na base, discutiram o manifesto no último dia 17.