O que está por trás da inspeção internacional em Resende?

Interesses econômicos e geopolíticos do imperialismo contam com o servilismo do governo LulaO governo Lula permitiu que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) vistoriasse, no último dia 19 de outubro, a fábrica de urânio em Resende (RJ). Três técnicos da AIEA, órgão subordinado à ONU, tiveram acesso parcial às centrífugas utilizadas para enriquecer urânio. Esta foi uma vistoria preliminar e, caso cheguem a um acordo sobre o que poderá ser observado, uma nova equipe da agência desembarcará no país para fazer a inspeção na fábrica.

Segredos e interesses imperialistas

O caso explodiu na mídia com uma reportagem do jornal The New York Times acusando o Brasil de não aceitar inspeções nas instalações nucleares do país. Em abril deste ano, o Washington Post deu seqüência à denúncia com reportagem intitulada “Brasil oculta instalações de urânio”, e, por último, na semana passada, a conceituada revista de divulgação científica Science, foi utilizada para divulgar “opiniões” de dois cientistas, de que o Brasil já pode produzir ogivas nucleares.

O governo brasileiro, através do Ministério da Ciência e Tecnologia, limitou a inspeção (a AIEA quer inspeção sem restrições) argumentando que se trata da defesa de segredo industrial do país. O Brasil teria desenvolvido um sistema de processamento de urânio mais eficiente e de menor custo que o utilizado pelos EUA. O governo argumenta ainda que o desenvolvimento dessa tecnologia permitiria ao Brasil ser auto-suficiente no processamento de urânio para abastecer as usinas de Angra I e Angra II. A médio e longo prazo, o país teria condições de exportar o produto, entrando no seleto rol de países exportadores de urânio enriquecido.

Tecnologia brasileira e disputas imperialistas

A tecnologia brasileira de enriquecimento de urânio é resultado de uma disputa com o imperialismo na década de 1980. “Essa tecnologia foi desenvolvida, inicialmente, de forma secreta, por um pequeno grupo de militares e civis, sem que o governo soubesse, enquanto Geisel assinava o mega-acordo nuclear com a Alemanha, que previa a construção de nove usinas nucleares. Paralelamente ao chamado ‘Programa Nuclear Brasileiro’, existia um outro, clandestino, no IPEN e na Marinha”, afirma Luís Gênova, doutor em Tecnologia Nuclear do IPEN, o Instituto de Pesquisas Energético e Nucleares.

Porém, se o desenvolvimento tecnológico obtido nessa área não foi mérito da ditadura militar, tampouco foi do governo Lula. Até abril desse ano o Programa Nuclear da Marinha havia demitido 120 pessoas, cerca de 10% de sua mão-de-obra civil. Durante a inspeção, em Resende, os trabalhadores da fábrica aproveitaram para protestar contra a defasagem de seus salários, que sofreram perda de 65% nos últimos anos. Estenderam uma faixa na entrada da fábrica onde afirmavam: “se a alta tecnologia que temos desperta tanto interesse, devemos ter salários compatíveis”. Mesmo com todas essas deficiências, seria possível desenvolver alguma inovação?

“Devem existir algumas inovações nas nossas centrífugas. O que não há dúvidas é de que existe concorrência acirrada nessa área, é um mercado extremamente promissor, que pode ocupar o papel que hoje ocupam os produtores de petróleo”, explica Gênova. Os interesses na inspeção da fábrica de Resende não se limitam a revelar a tecnologia do país, mas também resguardar mercado para a venda de urânio enriquecido no mundo, além de obter uma idéia do preço da produção deste no Brasil, para analisar a competitividade do país na área. Os EUA tentariam saber ainda se a Alemanha viola os tratados nucleares, levando vantagem comercial.

As centrífugas se desenvolveram a partir de uma suposta parceria entre um empregado de uma empresa alemã de tecnologia nuclear, Karl-Heinz Schaab, e o Brasil. Muito provavelmente, a Alemanha violou tratados internacionais ao fazer transferência de tecnologia nuclear para o Brasil. Esta teria sido a troca entre Brasil e Alemanha para a construção das usinas de Angra, realizada com capital alemão. O Brasil tornou-se, assim, palco de uma disputa inter-imperialista entre EUA e Alemanha. A tecnologia nuclear tem enorme quantidade de valor agregado nas mercadorias envolvidas, sendo um dos raros campos onde o capital norte-americano não domina, mas sim o alemão.

TNP: monopólio da tecnologia nuclear

O caso expõe o grau de servilismo do governo brasileiro às pressões imperialistas. Embora seja signatário do TNP, (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), desde setembro de 1998, o país não é obrigado a aceitar esse tipo de inspeção. O TNP tem cerca de 188 países signatários e se, por um lado, tenta coibir a produção de armamento nuclear, por outro, e daí seu real motivo, garante o monopólio das armas nucleares a um pequeno número de países imperialistas. Os EUA e a URSS buscavam impor, nos anos 1970, barreiras políticas aos demais países, a partir dos acordos de desarmamentos. Porém, esses países desativavam material obsoleto e, em silêncio, o substituíam por armamentos mais modernos, o que alimentava as indústrias militares de ambos os países.

Que fazer?

A questão do desenvolvimento da tecnologia nuclear suscita muitas polêmicas. Temos de ser contra não só o armamento nuclear, como o uso pacífico em usinas, pois não há condições de segurança para tal, basta lembrar o acidente de Chernobyl. Só teríamos de ser a favor do desenvolvimento tecnológico nuclear experimental, voltado à pesquisa, como na medicina, sem segredos comerciais ou de Estado.

A inspeção internacional na fábrica de Resende revela toda a hipocrisia do imperialismo, que, ao mesmo tempo em que pressiona o desarmamento de outros países, arma-se até os dentes com a mais letal tecnologia nuclear. Afinal, quando é que a AIEA conseguirá inspecionar as usinas norte-americanas?

SAIBA MAIS
O Brasil possui a 6ª maior reserva de urânio no mundo. Para ser utilizado, o mineral passa pelo chamado enriquecimento, que é o aumento da concentração do seu isótopo mais leve, o U-235. Para ser utilizado como combustível para as usinas produzirem eletricidade, o urânio precisa estar enriquecido a 5%. Para a propulsão de submarinos o enriquecimento deve ser de 20%. Já para a sua aplicação bélica (bombas nucleares) o enriquecimento deve ser bastante superior, 95%.
Além do uso militar, a tecnologia nuclear também é utilizada na medicina, por exemplo na radioterapia. Também é utilizada na irradiação de alimentos, que impede que estraguem, além da produção de energia. Tem a grande desvantagem de produzir lixo radioativo.
Post author Diego Cruz e Yara Fernandes, da redação
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