O preço da destruição ambiental

Furacões devastadores, surgimento de vírus que elevam o risco de pandemias e secas que transformam rios e lagos da Amazônia em verdadeiros desertos. Esses são alguns fatos que fazem de 2005 o ano em que a natureza respondeu à gigantesca escala de destruiçAs conseqüências do chamado “efeito estufa” estão acontecendo muito mais rapidamente do que imaginavam os cientista. O fenômeno é causado pela presença de gases na atmosfera, especialmente o dióxido de carbono (CO2), gerados pela emissão de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo, gás e pelas queimadas das florestas (gases estufa). A emissão desses gases na atmosfera retém parte do calor que recebemos do Sol, elevando a temperatura do planeta e dos oceanos. Nos últimos 100 anos, houve um aumento de 25% da emissão de gases estufa na atmosfera.

Prova de fogo na Amazônia
Lagos repletos de peixes mortos, barcos encalhados em rios completamente secos, população ribeirinha sofrendo com a falta de água potável. Tudo isso acionou o alerta vermelho sobre as conseqüências da devastação da floresta. A seca na região já é a maior dos últimos 60 anos. Cientistas avaliam que é resultado do crescente desmatamento, que altera o frágil ciclo de chuvas.

Metade das chuvas sobre a Amazônia é formada pela evaporação da água acumulada na transpiração das plantas e nos rios. A outra metade vem do ar úmido que se forma no oceano Atlântico. Na medida que o desmatamento avança, diminui a quantidade de vapor de água formado pela floresta e, conseqüentemente, as chuvas. Assim, o clima se torna mais seco e quente. Simulações feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inep) mostram que a floresta vai desaparecer quando a cobertura vegetal atingir entre 60% a 40% de seu tamanho original.

Dessa maneira, o clima da região ficaria mais quente e seco e as espécies da floresta, adaptada ao clima úmido, desapareceriam, dando lugar a uma vegetação semelhante à do cerrado.

A floresta amazônica tem hoje menos de 80% de seu tamanho original. Só em 2005, foi desmatada uma área equivalente a dez vezes a cidade de São Paulo. Nos últimos 15 anos, cerca de 28,8 milhões de hectares foram devastados.

A gigantesca escala da devastação é produzida pelo avanço das queimadas que destroem a floresta para dar lugar a imensas pastagens e à produção de soja.

Atualmente, 75% das emissões do gás carbônico do país vêm das queimadas na Amazônia, fato que coloca o Brasil entre os cinco maiores emissores de gás estufa no mundo. “Se o ritmo da devastação não for contido, em poucas décadas toda essa biodiversidade desaparecerá da superfície terrestre sem que o homem tenha sequer sido capaz de conhecer toda a sua riqueza”, alerta o biólogo norte-americano Thomaz Lovejoy.

Aquecimento dos oceanos
É cada vez maior o número de cientistas que relacionam o aquecimento global com os furacões que vêm devastando o Sul dos EUA e países da América Central. As águas quentes do Atlântico funcionam como combustível para os furacões, aumentando sua intensidade. O último exemplo foi o Wilma, o mais poderoso já registrado, cujos ventos chegaram a 270 Km/h. Se, por um lado, as águas quentes do oceano Atlântico produzem furacões cada vez mais violentos, metereologistas do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) apontam também que a alta temperatura no Atlântico pode estar relacionada à seca na Amazônia, mudando a circulação do ar sobre a região e inibindo a formação de chuvas.

De acordo com os pesquisadores, o ar mais quente no Atlântico impede as chuvas sobre a floresta. Segundo Everaldo Souza, meteorologista do Sipam, “as águas estão muito quentes. Isso provoca a formação de chuvas sobre o oceano (…). E isso inibe a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas na região”, alerta.

Epidemias e pestes
Outro fantasma que ronda o planeta é o da ameaça da proliferação de vírus e bactérias causados pela destruição de florestas. Ao interferir no meio ambiente, o homem entra em contato com agentes infecciosos até então desconhecidos. O vírus da Aids (o HIV) e o da Ebola, por exemplo, surgiram a partir da devastação das florestas tropicais africanas.

A mais nova ameaça de pandemia (epidemias que podem alcançar a população em escala planetária) é a chamada gripe aviária. Surgida na China em 1997, o vírus da gripe aviária salta diretamente das aves para o ser humano e pode matar seis em cada dez infectados. O grande temor dos cientistas é que o vírus possa passar de pessoa para pessoa. Isso causaria um imenso desastre, uma vez que os vírus viajam quase tão rápido quanto as pessoas. Mesmo assim, vacinas para impedir a proliferação do vírus não são pesquisadas em grande escala. Um dos motivos para isso, como aponta o físico Marcelo Gleiser, é que “vacinas rendem menos aos laboratórios médicos do que a produção de medicamentos e, portanto, têm menor prioridade”. Outro problema é que apenas o laboratório da Roche, na Suíça, fabrica medicamento para combater os efeitos da gripe aviária sobre o homem. Apesar do risco de pandemia, a Roche reluta em liberar a patente do medicamento, que permitiria sua fabricação em larga escala e baratearia o preço dos remédios.

Mais do que fenômenos conjunturais, todos esses eventos comprovam que o capitalismo está levando a civilização humana em direção a uma crise ecológica do planeta. O atual curso de destruição ambiental só pode ser detido definitivamente pela destruição do capitalismo e de sua lógica predatória.

Socialismo e ecologia

Ao mesmo tempo em que propiciou à humanidade extraordinárias descobertas científicas, o capitalismo promove uma enorme destruição das condições para a sobrevivência da espécie humana. Não poderia ser de outro modo, uma vez que a força motriz da produção capitalista é o lucro. A sua busca gera a anarquia da produção que, por sua vez, gera a superprodução, crises econômicas e a o esgotamento dos recursos naturais. Nesse marco predatório e de concorrência entre os burgueses, é impossível que o capitalismo possa utilizar tecnologias racionais e não poluentes, uma vez que a adoção de tais tecnologias são infinitamente menos rentáveis para os capitalistas.

O fim da exploração irracional dos solos, da pilhagem e desperdício dos recursos vegetais, materiais e animais do planeta só pode ser alcançado por um mundo socialista, baseado na propriedade social dos meios de produção e no planejamento econômico que possa garantir a racionalização da exploração dos recursos do planeta. Dessa forma, se poderá avançar na criação de novas tecnologias voltadas para o bem-estar da humanidade, restaurando, como definia Engels, em seu livro A Dialética da Natureza, a unidade entre o homem e a Natureza: “Os fatos nos lembram a cada passo que não reinamos sobre a Natureza, como um conquistador reina sobre um povo estrangeiro, ou seja, como alguém que esteja fora da Natureza, mas que pertencemos a ela (…) todo nosso domínio sobre ela reside na vantagem que possuímos, sobre outras criaturas, de conhecermos as suas leis e de podermos usar esse conhecimento judiciosamente (…). Quanto mais avança esse conhecimento, mais os homens não só se sentirão, mas saberão que fazem parte de uma unidade com a natureza, e mais se tornará insustentável a idéia absurda e contra-natural de oposição entre espírito e matéria, entre homem e Natureza”.

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