O plano para dividir o iraque

Frente ao impasse, os EUA apostaram tudo nas eleições para fazer a transição a um governo iraquiano “confiável”. Sabiam que teriam de incluir a burguesa hierarquia xiita, vinculada ao Irã, mas fracassaram na tentativa de dar legitimidade “democrática” à ocupação. A idéia era preparar as forças armadas locais, com um governo títere menos desgastado, que pudesse garantir o controle do petróleo e da região, sem manter tantos soldados por mais tempo. Repetem os esforços para construir um governo títere, como fizeram no Vietnã, e em criar um exército nativo que garanta o controle do país sem necessitar das tropas norte-americanas.

O rápido fracasso do governo títere que saiu das eleições está impondo uma outra “solução”: a divisão do Iraque em “linhas confessionais”, que busca ocultar a partilha do país e deixa de fora da soberania iraquiana as principais zonas petrolíferas. O plano dos EUA, implícito no assim chamado projeto constitucional do governo títere, é de formar zonas “autônomas” com governos próprios no Norte do país, com os oligarcas curdos, Talabani e Barzani, e no Sul, com os colaboracionistas de CSRI e Dawa, ligados à hierarquia xiita pró-Irã. Esses governos controlariam as áreas que possuem os poços de petróleo. Os dirigentes e os oligarcas curdos propõem a “federação” de olho nos lucros do petróleo e nas migalhas que podem obter da mesa das transnacionais. A “consulta constitucional”, marcada para 15 de outubro, é uma nova fraude que pretende dar “legitimidade democrática” à tentativa de dividir o Iraque.

Manobras do imperialismo e de seus fantoches
A resistência do povo iraquiano, como ocorreu com a européia contra o nazismo, abarca todas as formas de luta possíveis contra o ocupante: manifestações e protestos, greves operárias e ações armadas. A resistência é formada por setores oriundos do baathismo e do nasserismo, dissidentes comunistas e nacionalistas sunitas ou xiitas. O que unifica esses setores é a luta por expulsar o invasor e a necessidade de manter o Iraque unido. Também têm um amplo apoio popular. Isso ficou claro no cerco a Faluja e nas ações diárias de guerrilha contra os EUA e os colaboracionistas na própria Bagdá. Há uma resistência civil expressa pelos protestos e manifestações estudantis, de desempregados e sindicatos, e greves, como a dos petroleiros da Southern Oil contra a privatização da indústria petrolífera. Há também religiosos que convertem suas orações nas mesquitas em atos de protesto contra a ocupação.

O imperialismo e os grandes meios de comunicação tentam deliberadamente confundir a população dizendo que os atentados “contra civis” são o principal alvo da resistência. Em primeiro lugar, os principais responsáveis pelas mortes de civis são as tropas de ocupação e as forças colaboracionistas. As sanguinárias milícias fascistas do Badr (vinculadas ao CSRI) atacam os bairros populares, onde a resistência tem maior apoio. Jogam bombas nos mercados e nas mesquitas para semear o pânico entre a população civil e amedrontá-la por seu apoio à resistência. Além de seu objetivo imediato, essas ações preparam o terreno para converter a guerra de libertação nacional em guerra civil se o plano imperialista de derrotar a resistência fracassar.

Isso vem sendo preparado desde 2004 e o discurso imperialista busca preparar o espírito dos povos árabes para aceitar a divisão do Iraque. Querem isolar os setores mais fortes da resistência em torno a Bagdá, onde já existem áreas em que o imperialismo e os colaboracionistas não ousam entrar sem grandes contingentes militares. As áreas petrolíferas ficariam sob controle de governos títeres no Curdistão e no Sul. Esperam que assim possam ter mais autoridade e voltar a normalizar o fluxo de petróleo. Uma expressão atual dessa política é a tentativa de mostrar a resistência como uma “luta entre setores religiosos”, em particular entre sunitas e xiitas, o que “exigiria” uma presença internacional para “evitar o pior”: a guerra civil generalizada.

As ações de Al Zarqawi, que se reivindica representante da Al Qaeda no Iraque, servem objetivamente a essa política de transformar a atual guerra de libertação nacional em guerra civil. Seus atentados criminosos contra mesquitas ou mercados em zonas xiitas, com um discurso de divisão religiosa, são denunciados pelas organizações da resistência (algumas das quais o condenaram à morte), que os acusa de ser parte da ocupação e não da resistência. Segundo todos os informes, são uma minoria bem reduzida, mas muito explorados pelos meios de comunicação para poder taxar todos os insurgentes de “terroristas fundamentalistas” e justificar massacres, como o de Faluja.

O movimento antiguerra nos EUA e a comparação com o Vietnã

Apesar do elemento fundamental ser a resistência aos invasores dentro do Iraque, é decisiva a luta nos países agressores contra a ocupação para possibilitar a derrota do imperialismo. É importante observar que, apenas dois anos depois da ocupação, o desgaste das tropas imperialistas, suas baixas e a crise aberta dentro dos EUA se aproximam aos níveis da segunda metade dos anos 1960, na guerra do Vietnã, quando os EUA já estavam há quase dez anos lá. Hoje, a resistência desfere golpes poderosos que levaram a ofensiva a um beco sem saída e ao questionamento do controle do território iraquiano pela ocupação, com conseqüências diretas dentro dos EUA. A imprensa americana fala em “atoleiro” e “novo Vietnã”.

O número de desertores e de soldados que se negam a lutar por considerar que a guerra vai contra seus princípios é crescente. Até agora, o Pentágono admite a existência de quase seis mil “ausentes de guerra”, mas ninguém sabe exatamente quantos estão escondidos nos EUA e quantos fugiram para o Canadá. Os familiares de militares e veteranos de guerra se organizam, como mostra a solidariedade por Cindy Sheehan, mãe de um soldado morto no Iraque, e exigem a volta dos soldados “para casa”.

As mortes reconhecidas de soldados americanos no Iraque já passam de 1.800 e o número de feridos graves é de 30 mil. As metas de recrutamento do Exército e dos marines deixaram de ser atingidas desde o final de 2004. Um movimento da juventude contra os “recrutadores” (militares que vão às escolas e lugares de grande circulação e prometem de tudo para atrair jovens para o Exército) está se expandindo pelos colégios e universidades. O repúdio à política de Bush no Iraque aumenta e as pesquisas apontam que maioria da população está contra a guerra.

O ex-secretário de Estado de Nixon, Henry Kissinger, disse que a situação no Iraque é parecida com a do Vietnã, mas, ao mesmo tempo, acha que não se deve sair de lá antes de derrotar o inimigo. “Para mim, a tragédia do Vietnã foi a divisão que ocorreu nos EUA” e acrescentou: “Os EUA devem remover todas as tropas que não sejam necessárias ao objetivo americano de estabilizar o Iraque, mas não podemos começar uma retirada sem ter definido primeiro qual era esse objetivo”. Resumindo, Kissinger diz que ficar no Iraque pode dividir novamente os EUA e levá-lo a uma derrota, mas sair de lá seria reconhecer essa derrota, ameaçando seus planos de dominação da região e abrindo um gravíssimo precedente de impotência que estimularia a luta dos povos do mundo.

O senador republicano Chuck Hagel declarou, comparando o Iraque ao Vietnã: “Quanto mais tempo ficamos no Iraque, mais analogias irão surgir, essencialmente que estamos mais e mais afundados, sofrendo mais e mais perdas, com mais e mais discórdia e polêmica nos EUA.” Em outras palavras, os EUA estão sendo derrotados, como no Vietnã.

Os trágicos acontecimentos de Nova Orleans, que atingiram Bush em cheio, pioraram esse panorama. O povo americano, sobretudo seus setores operários e mais humildes, pagam com a vida pela miserável política imperialista. Negou-se dinheiro para fortificar os diques da cidade, enquanto o custo diário da ocupação do Iraque já supera o da guerra do Vietnã. Mensalmente, os EUA gastam US$ 5,6 milhões e se calcula que os oito últimos anos da guerra do Vietnã custaram por mês US$ 5,1 milhões (atualizados). Moradores de Nova Orleans lembravam que os helicópteros que não estavam ali para resgatar as vítimas do Katrina estavam na infame guerra do Iraque.

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